Archive for month: Junho, 2006

eu só procuro saber a razão por que os homens não se atrevem a matar-se, e nada mais

30 Jun
30.06.2006

(…) Eu só procuro saber a razão por que os homens não se atrevem a matar-se, e nada mais. Não tem importância nenhuma.
– Não se atrevem? Pois não há bastantes suicídios?
– Muito poucos.
– Acha?
Não me respondeu, levantou-se e pôs-se a passear de um lado para outro.
– Que é que, na sua opinião, impede os homens de se suicidarem? – indaguei.
Olhou-me com ar abstracto, como se quisesse lembrar-se do que estávamos a falar.
– Pouco… pouco sei. Há dois preconceitos que os prendem, duas coisas só: uma é mínima, a outra considerável. Mas a mínima também é considerável.
– Qual é?
– A dor.
– A dor? É assim tão importante?
– Primordial. Existem duas categorias de suicidas: uns matam-se por excesso de melancolia ou por irritação, ou por loucura, não importa. Esses fazem-no sem vacilar. A loucura não os detém, matam-se logo, agem imediatamente. Quanto aos que o fazem com reflexão, pensam demasiado no caso.
– Então existem os que se destroem por reflexão?
– São muitos. Se não houvesse preconceitos, haveria ainda mais, muito mais, toda a gente.
– Quê? Toda a gente?
Kirilov calou-se uns instantes.
– Haverá meio de morrer sem dor?
– Imagine – respondeu ele, parando diante de mim, imagine uma rocha com as dimensões de um edifício colossal. Está suspensa sobre nós, que estamos por baixo. Se nos caísse em cima da cabeça, chegaríamos a sofrer?
– Uma rocha dessas dimensões? É horrível.
– Não falo do medo, refiro-me à dor.
– Uma rocha tão grande… evidentemente que não sentiríamos dor.
– Mas se de facto se encontrasse debaixo dessa pedra suspensa, o senhor teria medo de sofrer. Todos o teriam, médicos, sábios, fosse quem fosse. Sabem que não haveria dor e, no entanto, assustam-se.
– E a segunda causa, a mais considerável?
– É o outro mundo.
– Alude ao castigo?
– Tanto faz. O outro mundo é bastante.
– Há ateus que não crêem nisso.
O homem calou-se de novo.
– Julga talvez por si mesmo?
– Cada qual só pode julgar por si mesmo – retorquiu, corando. – Só existirá liberdade completa no dia em que for indiferente viver ou não viver. Eis o fim, o alvo de tudo.
– Nesse caso, ninguém desejaria viver.
– Ninguém – confirmou Kirilov, em tom decidido.
– O homem receia a morte porque ama a vida, eis como eu vejo as coisas – repliquei. – Assim dispôs a natureza.
– Logro vil. – exclamou, de olhos brilhantes. – A vida é a dor, a vida é o medo, e o homem é infeliz. Tudo é dor e medo. O homem, agora, ama a vida porque ama a dor e o medo. Criaram-no assim. Dá-se a vida a troco da dor e do medo, e eis aí o embuste. O homem de hoje não é ainda um homem. Há-de haver um dia o homem novo, orgulhoso, feliz, a quem será indiferente viver ou não; eis o homem novo. Esse vencerá a dor e o medo e será o próprio Deus. Deixará de haver outro deus.
– Mas Deus existe, na sua teoria?
– Não existe, mas é. Não há dor numa pedra, mas no medo da pedra há dor. Deus é a dor do medo da morte. Aquele que vencer a dor e o medo será o próprio Deus. Surgirá então uma vida nova, um homem novo. Tudo será novo. A história dividir-se-á em duas partes: do gorila à destruição de Deus, e da destruição de Deus.. .
– Ao gorila?
– … à transformação física da Terra e do homem. O homem será Deus; transformar-se-á fisicamente. O Mundo também se transformará, assim como as acções e as ideias e todos os sentidos. Que lhe parece isto da transformação física do homem?
– Se for indiferente viver ou não viver, todos se hão-de matar, e aí está a sua grande transformação.
– Nem mais. E mata-se a trapaça em que vivemos. Qualquer homem que deseje liberdade deverá atrever-se ao suicídio. O que ousar tal coisa desvendará o mistério do embuste. Fora disso, não há liberdade: está tudo aí; o que ousa matar-se é Deus, de modo que cada qual pode fazer com que deixe de haver Deus. E não haverá. Mas ninguém ainda experimentou.
– Tem havido milhões de suicidas.
– Todos por outra coisa, todos por medo, e não por isto que digo. Nunca para matar o medo. Aquele que se matar só para matar o medo tornar-se-á imediatamente Deus.
– Talvez não tenha tempo – observei.
(…)

Fiódor Dostoiévski, Os Demónios
tradução: Reis Madeira
editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Set. 1983, págs. 71 e 72

reciclar???

18 Jun
18.06.2006

A reciclagem é uma boa ideia.
Mas de uma forma geral é outra forma de as empresas/estado/etc ganharem muito, mas muito dinheiro, à custa de uma ideia politicamente correcta: devemos ser amigos da natureza. E quem é meu amigo? O que ganho no imediato com isso. Ah, dizem, a longo prazo é uma boa coisa. Ah é? Mas dentro de 80 anos e a correr bem eu não estou aqui. Entrarei, também, num processo de reciclagem. Humm, tenho de pensar nos meus filhos e nos filhos dos meus filhos e assim. Tretas.

O dia-a-dia de um ex-reciclador.
Ora vejamos:
1. compro água engarrafada numa garrafa de plástico
2. deposito-a para reciclagem
3. pago das mais elevadas taxas de recolha de lixo
4. compro outra garrafa ao mesmo preço, se tudo correr bem, da anterior

O que poupei neste processo. Não poupei rigorosamente nada. O que consegui foi:
1. perder tempo
2. dar a ganhar a uma empresa de integração de lixo com o meu lixo.

Mas e se for uma pilha? Vejamos:
1. compro a(s) pilha(s)
2. pago um eco imposto
3. gasto a(s) pilha(s)
4. entrego a(s) pilha(s) no pilhão
5. pago das mais elevadas taxas de recolha de lixo
5. decido não comprar mais pilhas

O que poupei neste processo. Não poupei rigorosamente nada. O que consegui foi:
1. perder tempo
2. dar a ganhar a uma empresa de integração de lixo com o meu lixo e nem o eco imposto foi devolvido

Okay, nem tudo é mau, ouvi uma música e bebi água.

la poésie

14 Jun
14.06.2006

La poésie délivre l’alme de cet asservissement aux passions, en le rendant pour ainsi dire perceptible et palpable.

Friedrich Hegel, Esthétique

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrí­vel. Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Cesário Verde, Contrariedades

monsenhor quixote

13 Jun
13.06.2006

– (…) Pode um homem viver sem fé?
– Não sei o que quer dizer «sem fé». Haverá sempre coisas que um homem pode fazer. A descoberta de nova fonte e energia. E doenças. Haverá sempre doenças a combater.
– Tem a certeza? A medicina está a dar grandes passadas. Tenho pena do seu trineto, Sancho. Parece-me que não terá de esperar por nada, senão pela morte.
(…)
– Só precisamos de dizer uma oração por uma pessoa que morreu.
– Portanto, di-la-ia por Estaline?
– Claro.
– E por Hitler?
– Existem graus para o mal, Sancho. E para o bem. Podemos fazer discriminações entre os vivos, mas não entre os mortos. Todos necessitam que rezemos por eles.

Graham Greene, Monselhor Quixote
título original: Monsignor Quixote
tradução: Maria Georgina Segurado
editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Set. 1984, págs. 73 e 101

amor & castigo

13 Jun
13.06.2006

(…) é melhor ser amado que temido, ou o inverso[1]? Respondo que seria preferível ser ambas as coisas, mas, como é muito difícil conciliá-las, parece-me muito mais seguro ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas[2].
(…) Os homens hesitam menos em prejudicar um homem que se torna amado do que outro que se torna temido[3], pois o amor mantém-se por um laço de obrigações que, em virtude de os serem maus, se quebra quando surge ocasião de melhor proveito. Mas o medo mantém-se por um temor do castigo que nunca nos abandona[4].

directamente das páginas 89 e 90


informações
Nicolau Maquiavel, O Príncipe
tradução: Fernanda Pinto Rodrigues (texto) e de M. Antonieta Mendonça (comentários de Napoleão Bonaparte)
editor: Europa-América, Mem Martins, 1994


outras observações: livro com anotações de Napoleão Bonaparte
[1] Isso não constitui um problema para mim.
[2] Não preciso de mais que uma delas.
[3] Estão é enganados.
[4] É preciso que o castigo seja imediato.

na corda bamba

13 Jun
13.06.2006

É preciso uma grande pressão para nos levar a compreendermos-nos. Por outro lado, a civilização ensina-nos que cada um de nós vale um preço inestimável. Há, portanto, este dois preparativos: um para a vida e outro para a morte. Por isso nós avaliamo-nos e temos vergonha de nos avaliar-mos. Fomos treinados no silêncio e, se um de nós tira ocasionalmente as suas próprias medidas, fá-lo friamente, como se estivesse a examinar as unhas, e não a alma, franzindo o sobrolho às imperfeições que encontra como se fossem uma lasca ou uma sujidade.(…)
Mas eu tenho de saber o que eu próprio sou.
(…)
Sinto que sou uma espécie de granada humana a que tiraram a espoleta. Sei que vou explodir e estou constantemente a antecipar essa altura, gritando com um desespero fervoroso: «Bum.», mas sempre antes do tempo.
Goethe tinha razão num sentido: a vida que continua significa expectativa. A morte é a abolição da escolha. Quanto mais limitada é a escolha, mais perto estamos da morte. A maior crueldade é cortar esperanças sem tirar completamente a vida.


Saul Bellow, Na Corda Bamba
título original: The Dangling Man
tradução: Maria Adélia Silva Melo
editor: Dom Quixote, Lisboa, Dez. 1976
citação: páginas 120 e 149

o fim da história

13 Jun
13.06.2006

O problema do cristianismo, no entanto, é que não passa de uma outra ideologia de escravos, isto é, não é verdadeira em determinados aspectos cruciais. O cristianismo não defende a realização da liberdade humana na Terra, mas apenas no Reino dos Céus. Por outras palavras, o cristianismo contém o conceito certo de liberdade, mas, ao afirmar que não existe libertação nesta vida, acabou por reconciliar os servos deste mundo com a sua falta de liberdade. Segundo Hegel, o cristão não tem consciência de que não foi Deus que criou o homem, mas sim o homem que criou Deus. Criou-O como uma espécie de projecção da sua ideia de liberdade, pois o Deus cristão personifica o senhor perfeito de si próprio e da natureza. O cristão, no entanto, acaba por se tornar servo deste Deus que ele próprio criou. Reconciliou-se com uma vida de servidão na Terra, acreditando que seria mais tarde redimido por Deus, quando poderia ser o redentor de si próprio. O cristianismo constituiu, pois, uma espécie de alienação, isto é, uma nova forma de servidão em que o homem passava a servir algo que ele mesmo havia criado, tornando-se portanto um ser interiormente dividido.
O cristianismo, essa última grande ideologia de escravos, deu ao servo uma visão do que deveria ser a essência da liberdade humana. (…) Hegel considerava a sua filosofia como uma transformação da doutrina cristã, já não fundamentada no mito ou na autoridade das Escrituras, mas na conquista pelo escravo do conhecimento e autoconsciência absolutos.

Francis Fukuyama, O Fim da História
título original: The End of History and The Last Man
tradução: Maria Goes
editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Out. 1992
citação: página 199
isbn: 972-42-0562-2

– Esses mísseis… (Representam qualquer coisa. São coisas belas, compreende, esbeltas e brilhantes, construídas com a máxima honestidade. Foram precisos inúmeros séculos para se atingir um ponto em que o seu fabrico se tornou possível. O facto de transportarem a morte é circunstancial.)

Poul Anderson, A Hora da Inteligência
título original: Brain Wave
tradução: Raul Sousa Machado
editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta, Lisboa
citação: página 129

questões: bexigas

13 Jun
13.06.2006

Ao ver o iô-iô de grávidas em peregrinação para a casa-de-banho com um frasquinho de recolha de urina na mão e posterior regresso passados breves segundos já com o dito frasquinho cheio de um líquido amarelado deduzo com uma clareza cristalina que têm um controlo mental do corpo e em particular da bexiga enorme.

Basta dar a qualquer mulher um frasquinho que escorrega lá para dentro urina sem qualquer problema de maior. E se for necessário mais é só pedir que isso arranja-se.

Deve ser por isso que conseguem, também, orgasmos múltiplos.

Relutante e ensonado abandonei as minhas visões oní­ricas.

Francesco Sorti; Rita Monaldi, Imprimatur – O Segredo do Papa
tí­tulo original: Imprimatur
tradução: José J. Correia Serra
editor: Editorial Presença, Lisboa, Nov. 2004
citação: página 207
isbn: 972-23-3286-4

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