Archive for month: Março, 2008

michael clayton

31 Mar
31.03.2008

Arthur Edens: Michael. Dear Michael. Of course it’s you, who else could they send, who else could be trusted? I… I know it’s a long way and you’re ready to go to work… all I’m saying is just wait, just… just wait and please just hear me out because this is not an episode, relapse, fuck-up, it’s… I’m begging you Michael. I’m begging you. Try to make believe this is not just madness because this is not just madness. Two weeks ago I came out of the building ok, I’m running across 6th avenue there’s a car waiting, I’ve got exactly 38 minutes to get to the airport and I’m dictating. There’s this panicked associate sprinting along beside me, scribbling in a notepad, and suddenly she starts screaming, and I realize we’re standing in the middle of the street, the light’s changed, there’s this wall of traffic, serious traffic speeding towards us, and I… I freeze, I can’t move, and I’m suddenly consumed with the overwhelming sensation that I’m covered in some sort of film. It’s in my hair, my face… it’s like a glaze… a coating, and… at first I thought, oh my god, I know what this is, this is some sort of amniotic – embryonic – fluid. I’m drenched in afterbirth, I’ve breached the chrysalis, I’ve been reborn. But then the traffic, the stampede, the cars, the trucks, the horns, the screaming and I’m thinking no-no-no, reset, this is not rebirth, this is some kind of giddy illusion of renewal that happens in the final moment before death. And then I realize no-no-no, this is completely wrong because I look back at the building and I had the most stunning moment of clarity. I… I… I realized Michael, that I had emerged not from the doors of Kenner, Bach, and Odeen, not through the portals of our vast and powerful law firm, but from the asshole of an organism who’s sole function is to excrete the… the… the poison, the ammo, the defoliant necessary for other, larger, more powerful organisms to destroy the miracle of humanity. And that I had been coated in this patina of shit for the best part of my life. The stench of it and the sting of it would in all likelihood take the rest of my life to undue. And you know what I did? I took a deep cleansing breath and I put that notion aside. I tabled it. I said to myself as clear as this may be, as potent a feeling as this is, as true a thing as I believe I witnessed today, it must wait. It must stand the test of time, and Michael, the time is now.

from imdb

Estas palavras são o ponto de partida para um filme em crescendo. George Clooney está excelente numa personagem aparentemente ambígua, que revela quando foi preciso uma grande fibra moral.
Lindo foi “ver” a personagem Clayton no táxi enquanto os créditos do filme iam sendo exibidos.

pesadelos

31 Mar
31.03.2008

Pergunto-me: Ontem olhei para uma mulher. Nessa mesma noite tive pesadelos. Será ela a causadora do meu sono amotinado?

Ela não é feia. Também não é linda. Quando digo “não é feia” não quero dizer que ela é isenta de beleza. Isso seria aceitável. Ela é verdadeiramente horrível. Ela é de tal forma vergonhosa que alguns homens aceitariam ser homossexuais por trauma.

Mas a questão mantém-se. Foi ela o motivo do meu mal dormir?

filmes tristes

21 Mar
21.03.2008

Pergunto-me porque é que não me mato? Pergunto-me porque é que me pergunto, depois digo para comigo que não devo pensar assim e acendo um cigarro.
(…)
Tento concentrar-me no mar. O maior corpo de água do mundo inteiro. De repente, decido não acreditar na evolução. Não consigo tomar uma decisão quando se trata de encomendar alguma coisa no sushi bar, mas no que respeita às Grandes Questões sou rápido.
Pergunto-me em que é que acredito.


Mark Lindquist, Filmes Tristes
título original: Sad Movies
tradução: Tomaz Vaz da Silva
editor: Círculo de Leitores, 1990, páginas 7 e 8
isbn: 972-42-0094-9

jánika, citação três

17 Mar
17.03.2008

Creio que Fernão Paz Charmin desapareceu deste nosso mundo com a secreta certeza de ter entendido os mistérios da vida. Com efeito, a sugestão que ele nos deixou (a ampulheta que tem dois espaços e nunca esvazia totalmente porque um substitui sempre o outro) faz-me pensar que o homem ao morrer regressa então à sua memória de antes de nascer e que ali encontrará definitivamente a sua imagem verdadeira e intemporal, ele é, meu filho, a imagem infernal da sua própria memória cósmica e que sonhou um dia no intervalo que existe entre os intervalos finais do acta irreversível do amor.

O sangue e a pedra. O tempo e a palavra. A ambiguidade e a loucura. O labirinto do corpo e o gesto que fica suspenso no olhar da serpente. O espaço e a morte. A catalepsia da interpretação. Sinais. Apenas sinais de que o homem foi criado por ninguém. O homem. Filho de Ninguém.

Vitório Káli, Jánika, Círculo de Leitores, 04.1981, pág. 120

jánika, citação dois

15 Mar
15.03.2008

Padre Beleza ouve Dadá continuar a enumeração, 21, 30, 70, 643,­ 12987, 16570987, 546872654987246,7 mil novecentos biliões e tantos avos de números ímpares de pecaminosos, afinal toda a gente mesmo aquela por nascer, foi então que ele teve uma ideia brilhante e histórica, aí está, principalmente histórica, não houve um tipo que inventara aquela questão das indulgências e que permitia a gente pagar adiantado à igreja os nossos pecados? pois, se todos os homens pecam nalguma coisa, pronto, até ficava admirado de não ter pensado nisto há mais tempo, Dadá fez que sim com a cabeça e foi logo encomendar ao Inácio da Broa uma barraca a propósito, cinco dias decorridos veio a camioneta com a barraca ás costas tinha um balcão e dois postigos, um para Dadá outro para ele Beleza, ‘o postigo de Dadá servia para receber o valor em dinheiro dos bilhetes respeitantes a cada pecado, com numeração, carimbo e visto (assinatura ilegível) e no outro Padre Beleza fazia o sinal da cruz e acrescentava duas palavras de estímulo, desta forma cada homem podia não só calcular os pecados que deveria fazer durante um, cinco ou dez anos (renováveis) como por fim reconvertê-los por antecipação em numerário corrente ao câmbio do dia, após algumas semanas verificou-se que a barraca já não chegava pelo que foi necessário mandar vir outras, um ano depois nascia ali junto da Gândara dos Olivais uma nova cidade com arranha-céus construídos expressamente para abrigar os inúmeros e diversificados escritórios da organização, afinal Padre Beleza tinha descoberto o ovo de Colombo e toda a humanidade poderia para o futuro legalizar permanentemente os seus pecados,

Vitório Káli, Jánika, Círculo de Leitores, 04.1981, páginas 66 e 67

bitaques

14 Mar
14.03.2008

Lido em casas-de-banho públicas. A sempre desconhecida literatura com cheiro.

Maria tu que concebes-te sem pecar
ajuda-nos a pecar sem conceber.

Pode ser fino ou grosso.
Pode ser curto ou comprido.
Mas é o membro mais querido
por não ter espinha nem osso.

invasão

13 Mar
13.03.2008

– Não é só Beau que está diferente – continuou Cassy. – O reitor Partridge e a mulher também, e ouvi falar de outras pessoas. Acho que se pega, seja o que for. E também acho que deve ter a ver com essa gripe que anda aí.

Este livro não é nada de especial. Recordei-me deste facto após o ter novamente folheado para ver se a série Invasion em exibição, salvo erro, no Canal 2, e cancelada pela cadeia de televisão ABC em 2006, ia “buscar” algumas ideias ao livro. Mas não.
O livro publicado em 1997 e que já ficava aquém da obra The Body Snatchers é terreno pouco fértil de ideias aproveitáveis. E se o livro The Body Snatchers é interessante o filme de Oliver Hirschbiegel, nem por isso.


Robin Cook, Invasão
título original: Invasion
editor: Círculo de Leitores, Maio de 1998
isbn: 972-42-1806-6
citação: página 99

auto dos danados

13 Mar
13.03.2008

Ouve, merda, gosto de ti. Gosto da tonalidade dos teus olhos e das tuas mãos nos meus ombros quando fazemos amor, das pernas que se enrolam com força nas minhas e me atam, me prendem, me imobilizam, me impedem de sacudir as ancas, em avanços e recuos, à medida que me beliscas,e me mordes, e me insultas, e acabas por morrer como um bicho pequeno, de súbito inocente, indefeso, sem rugas, numa cascatazinha de gemidos magoados, de cara transtornada como se fosses chorar. Gosto de ser, por segundos, mais velho do que tu quando te dou prazer, quando obedeces, numa aceitação humilde, ao ritmo do meu púbis, quando os meus músculos inesperadamente se distendem e te deposito na vagina dois centímetros cúbicos de paixão.

Auto dos Danados de António Lobo Antunes, Círculo de Leitores, 09.1986, páginas 146.147

jánika, citação um

12 Mar
12.03.2008

(…)lá arranjei um novo emprego num escritório comercial, com um horário. muito certo, sempre os mesmos papéis, as mesmas cartas, as mesmas contas, as mesmas conversas, as mesmas feições, os mesmos problemas, só quando chegava a hora de sair me parecia despertar de uma hipnose estranha e, de repente, via-me entre a multidão das pessoas nas ruas, ficava a olhar aquele mundo novo como tivesse mergulhado num labirinto de fantasmas(…)

Vitório Káli, Jánika, Círculo de Leitores, Abr. 1981, página 19


Li este livro com apenas 13 anos. Que coisa. A minha mãe incumbia-me de uma gigante tarefa. A escolha do livro do “trimestre”. A selecção foi Jánika. Nem sei a razão passados que são estes anos. E apesar de tudo foi, tendo em conta, a minha idade imberbe, uma paixão deliciosa. Reencontro-me hoje com Jánika e vou-o relendo. E descobrindo-o.

bênçãos roubadas

11 Mar
11.03.2008

As galinhas é que põem ovos, não são as gajas. Essas têm bebés.
– E donde raio achas tu que vêm os bebés? – riposta Solly. – Se calhar é a cegonha que os traz, não? O bebé forma-se num ovo, não é Nick?
– Correcto. Cada mulher produz um óvulo. Não é um ovo como o das galinhas, com casca e tudo, é uma coisinha tão minúscula que se agora estivesse aqui em cima da mesa nós não o víamos. Bem, a mulher é fornicada, e, quando o homem se vem, o seu esperma está cheio de muitos mi­lhões de espermatozóides, que parecem girinos. Basta que um destes girinos entre no óvulo da mulher e, bingo., aí temos nós um bebé. Mas o problema é que há muitas mu­lheres que não conseguem produzir esse óvulo; talvez por doença ou por terem a canalização enferrujada … Mas que­rem ter um filho. Então, o que é que fazem? Pedem um óvulo emprestado a uma amiga. Bom, talvez não seja bem emprestado, porque esse óvulo nunca mais será devolvido. Uma amiga dá-lhe um óvulo ou, então, compram-no a uma profissional.
– Cum diabo. – exclama Solly. – Queres tu dizer que há mulheres que ganham a vida a vender os seus ovos?
– Não, por enquanto ainda não, mas são capazes de arranjar um dinheirinho, para aí uns quinhentos dólares, vendendo os seus óvulos a uma mulher que queira ter um filho. Então, o que se faz é o seguinte: o marido desta mu­lher vem-se dentro de uma proveta, combina-se quimica­mente o esperma do tipo com o óvulo que foi doado e, quando o bebé, que é mais pequeno que uma cabeça de al­finete, começa a formar-se, enfia-se lá para dentro e a mu­lher fica grávida. Que tal?
Dumbo sacode a cabeça.
– Continuo a não perceber. Sei quem é o pai, é o gajo da proveta, mas, quem é a mãe?.
– Bom, na verdade, a criança vai ter duas mães: a que doou o óvulo e a que a deu à luz. Mas esse problema não é teu. Vamos facturar a sério com estes óvulos, quando os raptarmos e pedirmos o resgate. Os ovos mais famosos do mundo. Já pensei em tudo e não vai falhar. Vamos ganhar uma fortuna.

Lawrence Sanders [1920-1998] que editou o seu primeiro livro com 50 anos sabe convencer e provocar.
Aconselho vivamente a sua leitura. Assim, quem quiser ler alguns dos seus livros editados em Portugal pode obter dois no site da Editora Livros do Brasil – A Estatueta Fatal e Os Crimes de Panda e Bambu – os outros editados pelo Círculo de Leitores podem ser adquiridos, possivelmente, em algum alfarrabista.


Lawrence Sanders, Bênçãos Roubadas
título original: Stolen Blessings
tradução: Lucinda Santos Silva
editor: Círculo de Leitores, Ago. 1991
citação: página 10
isbn: 972-42-0287-9

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