Archive for month: Julho, 2008

sem continuação

31 Jul
31.07.2008

De boca rasgada
De olhos fechados
respiro. soluço. sufoco. respiro
e eis que morro…
suavemente, dizem. como um passarinho, comentam.
Gostava de dizer que morri devagarinho
sem glória. sem história.

batalhas

30 Jul
30.07.2008

A geometria do caos no rosto sereno de uma rapariga moribunda.

“O Pintor de Batalhas” de Arturo Pérez-Reverte não foi lido como outro qualquer livro. Foi suavemente absorvido. A “tapeçaria” está tão bem urdida que queria chegar rapidamente à morte anunciada, mas fui obrigado a parar para sentir a frescura de uma obra perturbadoramente bela. Pérez-Reverte já me tinha surpreendido com outras obras, mas esta é ainda mais deliciosa. Não é à toa que é o escritor espanhol mais lido sem publicar qualquer trash book.

Nesta obra Pérez-Reverte obriga ou pelo menos a minha ignorância obriga-me as pesquisar sobre as imensas referências que o protagonista se encarrega de mencionar. É uma outra forma de (re)ler “O Pintor de Batalhas”.


O Pintor de Batalhas, Arturo Péres-Reverte
título original: El Pintor de Batallas
tradução: Helena Pitta
editor: Asa Editores, Mar.2007, pág. 17

40

29 Jul
29.07.2008

40 years.

hypócrísis

24 Jul
24.07.2008

Ao atravessar a estação dos caminhos ferro de Barcelos ouvi este farrapo entre duas pessoas que aguardavam a chegada do comboio:

fica sossegada porque ele diz-lhes tudo à frente

Admiro as pessoas frontais. Sendo com alguma razoabilidade um pessoa frontal admiro-me. É um narcisismo saudável. Contudo analisando alguns acontecimentos passados devo dizer que uma dose útil de hipocrisia é mais eficaz e amiga do sossego do que a sinceridade. Por isso admiro ainda mais as pessoas hipócritas. Pessoas que primam pela dissimulação fora dos espaços teatrais.

É tudo, ao fim e ao cabo, uma questão de rentabilizar uma boa socialização. E haverá sempre uma boa cerveja para limpar as coisas.

alarme

20 Jul
20.07.2008

Ao reparar na luz intermitente do alarme na Igreja de Santo António em Barcelos ocorreu-me um pensamento ou vários farrapos. Escolham.

Pensei que o Nosso Senhor é o maior proprietário de bens imóveis. Mas antes de avançar mais vejo-me obrigado a informar que não irei utilizar mais o pronome possessivo Nosso. E não é porque não posso, mas sim porque não quero. O Nosso de Nosso Senhor implica que o Senhor seja, também, considerado meu e como não o entendo como meu irei doravante recorrer ao possessivo Vosso. Será o Vosso Senhor.

Sendo o Vosso Senhor extremamente rico em bens materiais, mas dispondo, igualmente, de uma natureza omnipresente e omnisciente, segundo vossas palavras, porque precisa de um alarme? O poder individual do Vosso Senhor não seria suficiente para afastar quaisquer malfeitor? Os vossos e os outros? Ou o alarme e outras protecções dissuasoras servem, apenas, para os outros?

Se tivermos em atenção alguns testamentos apócrifos, vulgo actas de acontecimentos passados, os vossos corações serão igualmente uma morada do Vosso Senhor. Ora não conheço quaisquer registos, e nem estou para “googlar” sobre isso, a solicitar autorizações de ocupação dos vossos corações. Pode ser que o baptismo tenha imbuído uma cláusula escrita em letras muito reduzidas ou tenha palavras cerimoniosas ditas em tom muito discreto que cedam autorização de ocupação ao Vosso Senhor. A ser assim é, quanto a mim, muito grave, que sejam usados artifícios que actuam, claramente, à margem da legislação que regula os contratos com condições gerais. E não é menos desleixado que os pais e padrinhos subscrevam um documento no nome de um ser que não sabe o que é o livre-arbítrio. Claro, que repudiarei o que disse desde que que haja uma estipulação de resolução de posse do coração e o pagamento de uma renda com efeitos retroactivos.

Com os avanços médicos esta renda cardiológica tem criado outras complicações morais. Os transplantes de coração serão uma forma de sub-arrendamento? Ou trespasse? E se ocorrer um transplante de um vosso para um nosso? Ou vice-versa? Acho que estas questões devem ser respondidas pelos gestores de negócios do Vosso Senhor de forma adequada e atempada.

Eu, ainda, estou à espera de ser ressarcido da ocupação do Vosso Senhor que durante breves anos foi, também, Nosso Senhor, pois não dei autorização consciente de ocupação, mas não tem sido fácil. Sou uma das muitas vitima das negociações unilaterais.

Algumas vitimas em último recurso existencial usam o lockout cardiológico, que não aconselho. Outras utilizam Outros Senhores.
Eu, gostava, apenas, ser pelo menos o Meu Senhor. A ver vamos.

dilemas

18 Jul
18.07.2008

Ontem decidi navegar por livros antigos de comics da Editora Abril. Navegava, porque folheava mais do que lia.
Admirava algumas imagens.
Demorava-me em algumas histórias. E numa dessas histórias – do Grey Hulk -, diga-se fraquinha, para o muito pobre, deparei-me com estas palavras:

O mal não existe, apenas desculpas que o céu não aceita.[1]


[1] IHK 356 (1989)

– É suficientemente paranóico? Tem a certeza? A paranóia é a vaga do futuro. Fiquem alerta, fiquem paranóicos.

Sou um felizardo. Sou possuidor de uma saudável paranóia… saudável?


Os Vigilantes do Imaginário, Pat Cadigan
título original: Mindplayers
editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta, n.º 551
citação: página 25

o farol

13 Jul
13.07.2008

Ia rascunhar sobre uma semelhança entre o último livro de P. D. James (The LightHouse) e o anterior (Death in Holy Orders) quando ao pesquisar pelo título original descobri que o meu penúltimo é afinal um antepenúltimo.

# Death in Holy Orders (2001) – Morte em Ordens Sagradas
# The Murder Room (2003) – A Sala do Crime

Commander Adam Dalgliesh is already acquainted with the Dupayne–a museum dedicated to the interwar years, with a room celebrating the most notorious murders of that time–when he is called to investigate the killing of one of the family trustees. He soon discovers that the victim was seeking to close the museum against the wishes of the fellow trustees and the Dupayne’s devoted staff. Everyone, it seems, has something to gain from the crime. When it becomes clear that the murderer has been inspired by the real-life crimes from the murder room–and is preparing to kill again–Dalgliesh knows that to solve this case he has to get into the mind of a ruthless killer.

from Random House

# The Lighthouse (2005) – O Farol

Mas a premissa, de alguma forma, mantém-se.
– Morte em Ordens Sagradas desenrola-se num colégio teológico anglicano situado numa região desolada da costa de East Anglia.
– O Farol tem o seu enredo na isolada ilha de Combe, “perdida ao largo da costa da Cornualha.”

Quanto a mim P. D. James cresceu como escritora de histórias de crime e mistério com Devices and Desires (1989).[1] E o mais engraçado é que nesta história também temos:

Commander Dalgliesh of Scotland Yard has just published a new book of poems and has taken a brief respite from publicity on the remote Larksoken headland on the Norfolk coast in a converted windmill left to him by his aunt.

from Random House

P. D. James nestes títulos coloca o homicídio em zonas inóspitas e isoladas o que reduz, aparentemente, o leque de suspeitos, mas aumenta, consideravelmente, a dificuldade de o leitor encontrar a solução. Penso que isto não é subgénero de histórias de crime e mistério, mas mais uma opção da autora.
Relembro, como parênteses, que a história de crime mais célebre que ocorre num local pouco “hospitaleiro” é sem dúvida “The Hound of the Baskervilles”.[2]

Estes locais trazem um condicionamento espacial interessante às histórias, mas que não alcança a especificidade dos mistérios de “quarto fechado”.[3]

Espero que “O Farol” me divirta imenso como o seu antepenúltimo livro.


informações
[1].
título em português “Intrigas e Desejos”. Edição de 1990 pelo Círculo de Leitores.
[2].a edição sobre a qual verti os meus sedentos olhos faz parte da colecção “As Aventuras de Sherlock Holmes” do Círculo de Leitores. Colecção de 1982/1983 composta por 7 volumes. No volume 4 temos a história O Cão dos Baskervilles.
[3].o senhor dos mistérios de “quarto fechado” é com naturalidade John Dickson Carr aka Carter Dickson. “A Flecha Assassina” (Colecção Vampiro, n.º 571, 1995) foi o último livro que li.
É “The Murders in the Rue Morgue” a primeira grande história deste subgénero. “Os Crimes da Rua Morge” (Livros de Bolso europa-américa, n.º 279, 1981) é um conto de Edgar Allan Poe no qual os crimes são investigados pelo Detective Dupin, o pai de Sherlock Holmes. Um conto a ler ou a reler. O .pdf deste conto pode ser descarregado aqui.

mission child

08 Jul
8.07.2008

Não apreciei o livro Renascer editado em 2002 pel’Os Livros do Brasil (n.º 539 e 540 da colecção Argonauta).
Acredito que Maureen F. McHugh escreve um bom livro, mas eu não fiquei convencido. Ou melhor dizendo não me toca. E não é por ser um livro, digamos, “lento”.

Pensei que a partir da página 46 a história me levasse a outros trilhos, mas acabei por descobrir que é mais uma viagem interior sem o meu “tabasco” preferido. Pensei durante algum tempo n’ Os Arquitectos do Cosmos, Frank Herbert, o que, também, não ajudou à leitura.

Janna não deixa de ser uma personagem forte capaz de ultrapassar e crescer com os horrores das guerras.

I felt so bad for that boy. I didn’t know which was worse: to die or to survive the plague and be alone. He was in the land of the dead, now, and when he came back nothing would ever be the same. I had brought Ming Wei out of the land of the dead, and that was good. But nobody was going to bring that boy out of the land of the dead. No one had ever brought me out of the land of the dead. Here I was, neither man nor woman, foreigner with no home. Maybe that was what I was for, to be a guide out of the land of the dead. Crazy thoughts.
Maureen McHugh’s Mission Child

Mas a verdade é que sou mais um leitor de Majipoor [1].


[1] O Castelo de Lorde Valentine (n.º 542 e n.º 543 da colecção Argonauta);
As Crónicas de Majipoor (n.º 59 e n.º 60 dos Livros de Bolso, série Ficção Científica das Publicações Europa-América)

hoje

03 Jul
3.07.2008

hoje
mais uma vez
acordei. mas

ontem
fechei os olhos e
estagnei o pensamento
numa ideia. de que

hoje
continuaria
a dormir. mas

viver
é sofrer
também
com esta leviandade.

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