Archive for month: Junho, 2009

ofício de matar

28 Jun
28.06.2009

– Estou despedido? – inquiriu Sam, esperançadamente.
– Enquanto eu for aqui o capataz – disse Johnson àsperamente – … ou não sou? Você está despedido.
– Magnifico. – exclamou Sam.
Johnson consultou Johnny:
– Acha que deva despedi-lo?
– Você lá sabe. Você é o capataz – responde Johnny, calmamente.
– Bem, nesse caso, não está despedido.
– Não. – protestou Sam. – Você não pode voltar com a palavra atrás. Você disse que eu estava despedido…
– Tenha paciência.(…)

Livros do Brasil, colecção Vampiro n.º 159

Johnny Fletcher e Sam Cragg tornam fácil a leitura de “Ofício de Matar” (“A Job of Murder” [1949]) de Frank Gruber. São duas personagens bem delineadas que se movem com desenvoltura. Leitura simpática.

Na edição em português o título original tem a indicação de “A Job of Murder”
No site The Thrilling Detective temos esta referência:

The Leather Duke (1949; AKA A Job of Murder; Johnny Fletcher & Sam Cragg)
The Thrilling Detective

fdp

27 Jun
27.06.2009

[1] existem pessoas filhas-da-puta que se dizem cristãs e que não frequentam regularmente a igreja
[2] existem pessoas filhas-da-puta que se dizem cristãs e que frequentam regularmente a igreja.
e
[3] existem pessoas filhas-da-puta que não são cristãs

Aceito que as pessoas [1] e [2] sejam filhas-da-puta, porque no livro do deus delas, a tal de Bíblia, não está escrito que:

  • Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus. [mateus 5:43-48]

e muito menos que:

  • Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. [mateus 5:3-12]

Por isso as pessoas ditas cristãs podem livremente sem temor ser filhas-da-puta. Podem desejar o mal, ser rancorosas, invejosas. Se a Bíblia nada diz em contrário estarão sempre em paz consigo próprias e acima de tudo com o Deus delas.

E as pessoas [3]? Estas não compreendo como podem ser e viver sendo filhas-da-puta. Sei que não têm um livro em que preto-no-branco estão definidas linhas morais de conduta. Não sabem como seguir o caminho do perdão e da justiça. Mas isso não serve de desculpa. Têm de se auto-corrigir, auto-educar. E se é esta falta de linhas gerais de orientação para a obtenção de uma saudável paz espiritual a desculpa. Se, assim é, aproveito para iniciar um rascunho de um livro guia chamado pura e simplesmente de O Evangelho.

Acho importante que aí se fale num campo de concentração para pecadores que se chamará de inferno. Será um lugar muito quente porque “o fogo nunca se apaga” [marcos 9:43-48]. Que sorte terão os cristãos de não estarem sujeitos a esta futura angústia. E nem poderiam estar a isso sujeitos. Se o Deus deles está impregnado de uma “infinita compaixão e misericórdia”, se é um ser de puro amor como seria possível Ele estar a condenar os seus filhos a um sofrimento eterno.

Aí se falará que a justiça é mais importante do que o amor. Porque apesar de o ideal é que todas as pessoas [3] atinjam a felicidade na penthouse nem todas terão entrada no elevador. Haverá quotas. Qualquer crime será motivo mais que válido para o castigo: o não acesso aos prazeres celestiais da penthouse. Que sorte terão os cristãos, porque a verdadeira essência do Deus deles é o perdão. Ele perdoa tudo até a blasfémia. [levítico 24:10-17]

Aí se proibirá a comida de porco. Quer-se uma alimentação mais vegetal. Que sorte têm os cristãos que podem comer tudo. [deuteronômio 14:8]

Aí não se poderá julgar os outros porque não. Que sorte têm os cristãos que podem julgar toda a gente porque sim. [lucas 6:37]

Com estes princípios as pessoas [3] serão mais tolerantes, justas e boas e poderão viver em harmonia com as [1] e as [2]. [filipenses 2:10] e [romanos 8:33]

a mulher fantasma

25 Jun
25.06.2009

– Vamos voltar para o Anselmo, onde nos conhecemos? Tomaremos uma última bebida e separar-nos-emos. Você toma o seu caminho e eu vou pelo meu. Gosto de círculos completos.
“Que geralmente são vazios no meio”(…)

Chegado à página 29 pensei. Não me digam que agora vai ser só isto: a procura da mulher desconhecida. Que cena.
Claro que avancei mais na leitura e devo dizer que é uma obra excelente. Adorei as movimentações das personagens. E o final tem tudo o eu esperava e acima de tudo uma reviravolta louca.


A Mulher Fantasma, de William Irish [1]
[1] Pseudónimo de Cornell Woolrich
citação: página 23

marketing do crime

22 Jun
22.06.2009

“Marketing do Crime” editado pela primeira vez em 1946 [1] de Frank Gruber é um livro que não me convenceu.
Divertiu-me “bué de pouco”.

Se as personagens – Otis Beagle & Joe Peel – são de alguma forma interessantes e estão em perfeita simbiose a história é, digamos, pobrezinha.
É uma pena, porque são raras as histórias criadas por Frank Gruber que me têm deixado indiferente; especialmente nas quais entram os ímpares Johnny Fletcher e Sam Cragg.


[1] Livros do Brasil, Colecção Vampiro, n.º 636
título original: Beagle Scented Murder

sem rosto

15 Jun
15.06.2009

Se pensar em todas as pessoas que encontrei na minha vida – professores, amigos, raparigas, relações ocasionais, velhos e fiéis companheiros, familiares – apercebo-me subitamente de que não houve uma única, nem uma única, que eu tivesse conhecido verdadeiramente.


A Morte de Um Apicultor, Lars Gustafsson
tradução: Ana Diniz
editor: Edições ASA, 2001
citação: página 153

a mão e o cigarro

14 Jun
14.06.2009

Na sexta-feira passada a caminho do meu local de trabalho a minha mulher reparou que a viatura que impudicamente seguia à nossa frente era conduzida pelo Sir Paxo…

buzinou-se para um salutar cumprimento social de 2 segundos

mas, o mais engraçado é que eu apenas reparei que a pessoa que conduzia essa tal viatura tinha um deselegante cotovelo pousado na janela e que tinha estendido o antebraço para expelir cinzas de um cigarro preso nos dedos da mão esquerda

e penso que talvez, um pouco só, dou demasiada atenção ao pormenores e não ao quadro global da paisagem e por isso, talvez, talvez um pouco apenas, raramente vejo rostos quando me passeio pela rua

e na situação presente eu nunca repararia no Master Paxo – não porque ele seja um pormenor, uma mancha na paisagem, convenhamos que em qualquer quadro sir p. seria tudo menos uma mancha, talvez um borrão e digo-o sem qualquer paternalismo ou sem qualquer insulto subliminar -, mas porque me fixei no movimento mecânico do cotovelo, do punho e das cinzas a despegarem-se do cigarro para levadas pelo movimento da viatura branca de Sir Paxo virem na minha direcção

imagino que terei de deixar de ligar aos pormenores.

a sabedoria dos mortos

09 Jun
9.06.2009

Várias vezes lhe disse, meu caro Watson, que quando se elimina o impossível, o que resta, por mais improvável que seja, é a verdade. Mas… o que acontece quando não se pode eliminar o impossível?

Esta é a premissa para três histórias fantásticas de Sherlock Holmes escritas por Rodolfo Martinez.

Rodolfo Martinez não se limitou a recrear o mundo de Sherlock Holmes. Ele consegue ir muito mais longe e de forma convincente.
Como muito bem explica o tradutor português, José Manuel Lopes:

Sherlock Holmes e a Sabedoria dos Mortos, consiste na tradução fictícia de um série de três textos, do inglês para o castelhano(…) O interessante , porem, neste caso, é que o romance revela o seu ficcional palimpsesto. Quero dizer, apesar de ter sido originalmente escrito em castelhano apresenta toda uma série de marcas que nos fazem “acreditar”, à medida que vamos lendo, que se trata efectivamente de uma tradução feita a partir do inglês.[1]

As primeiras duas histórias,

  • A Sabedoria dos Mortos
  • Desde a Terra Mais Além do Bosque

têm um toque de irreal e do imaginário. A primeira história é sobre o roubo do famoso e misterioso Necronomicon. Na outra aventura Sherlock Holmes enfrenta Drácula em parceria com Van Helsing e o Dr. John Seward.

“A Aventura do Assassino Fingido”, o último caso, é uma história tradicional de Sherlock Holmes.

De uma maneira geral gostei bastante do que li.


[1] A Sabedoria dos Mortos, Rodolfo Martinez
Editora “Saída de Emergência”, colecção Bang!, 2006, pág. 253

o jantar 1.0

09 Jun
9.06.2009

Uma quarta-feira fui jantar e beber umas cervejas com Master Paxo.
Falou-se muito e de muito.

A dada altura mencionou(ei), a propósito do que não sei, da frase “o que não nos mata, torna-nos mais fortes”. E, assim, de rajada pedi-lhe uma tradução e afirmei que já tinha ouvido isso no primeiro Highlander.

Mas foi um inocente engano

A frase que Kurgan grita na igreja é:

It’s better to burn out than to fade away.

Longe da frase referida na nossa conversa.

O motivo porque escrevo este post é ter descoberto por acaso, ao ler “A Morte de Um Apicultor” (pág. 37), o autor da frase original:

Aquilo que não me destrói torna-me mais forte.

Apesar de ter lido, em pesquisa, “Aquilo que não me mata, só me fortalece” e outras semelhantes, mas sendo a frase original “Was mich nicht umbringt, macht mich stärker” inserida na obra “O Crepúsculo dos Ídolos” de Friedrich Nietzsche a tradução correcta deverá ser “O que não me mata torna-me mais forte.” E porquê? Porque assim diz o Google Translate.

Engraçado estas coisas da memória.

a morte de um apicultor

09 Jun
9.06.2009

LIBERTA, SENHOR, A HUMANIDADE SOFREDORA
MAS LIBERTA-ME PRIMEIRO A MIM, QUE SOU QUEM MAIS SOFRE
Basta andar alguns quilómetros na automotora para descobrir isso. Se não puderem queixar-se de mais nada, queixam-se das suas estúpidas doenças, das dores nos joelhos, das pedras na vesícula, das úlceras, das veias inflamadas, dos soluços e das azias, das diarreias e das caganitas empedernidas que até fazem barulho ao bater no fundo do penico
e imaginam, enquanto falam de tudo isto, que alguém lhes dá importância só por se queixarem.
IDIOTAS DE MERDA


A Morte de Um Apicultor, Lars Gustafsson
tradução: Ana Diniz
editor: Edições ASA, 2001
citação: página 87

o homem sinistro

06 Jun
6.06.2009

-És bela – disse Maurício Tarn, com malícia – e és jovem.

Com esta frase iniciei a leitura d’ “O Homem Sinistro” The Sinister Man (1924) escrito por Edgar Wallace (1875 – 1932).

“O Homem Sinistro” lido em períodos de 30 minutos ao almoço durante esta semana que passou é uma obra muito bem urdida. Está cheia de constantes surpresas; quando pensava ter de alguma forma obtido as respostas ao enredo finamente tecido por Edgar Wallace era posteriormente surpreendido por um novo acontecimento. Ficava momentaneamente aborrecido, mas contente porque pensava até então que a história mais complicada não poderia ser, mas o escritor arranjava sempre outra forma de me lixar o raciocínio.

Ao ler mais sobre a vida de Edgar Wallace descubro este pormenor interessante, via wikipedia:

He is most famous today as the co-creator of “King Kong”, writing the early screenplay and story for the movie, as well as a short story “King Kong” (1933) credited to him and Draycott Dell.

from imdb

n.º 52 da Colecção Vampiro
editor: Livros do Brasil

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