lisboa triunfante

O homem erra quando afirma ou nega. Destrói quando edifica sobre ruínas que revolve para abrir os alicerces. E, surpreendentemente, sem querer saber da presença do homem… o mundo existe!

palavras de Valadares, página 318

O ano passado (Agosto.2010) estava a relaxar numa quinta (Quinta de Gatão) perto de Felgueiras como o resto da família quando certo dia (14.08) o meu filho (a reboque da irmã) sentiu saudades do sabor gourmetde um Mac; deslocamos-nos a Felgueiras para esse petisco tão regional; sentado na esplanada entre duas trincadelas convenceu a irmã a visitar a Fnac no NorteShopping que ao melhor estilo moscardo nos picou (leia-se pai e mãe). Na Fnac os meus olhos que passeavam sem destino por entre paletes de livros pararam numa obra com um título sugestivo “O Evangelho do Enforcado” de David Soares. Foi a minha primeira colisão com David Soares.

Estas primeiras palavras têm o propósito de explicar que nunca se descobre um escritor fora do tempo; tal acontece quando uma série circunstâncias (das mais imagináveis) nos levam ao seu encontro.

[…]

O que é “Lisboa Triunfante”? Acima de tudo uma odisseia da imaginação (até de investigação etnográfica); e sem qualquer embaraço é uma obra com uma linguagem hipnótica excruciante através da qual duas figuras se gladiam desde tempos memoriais.

A qualidade narrativa do escritor (e)leva-nos, sem qualquer dificuldade, a observar Lisboa de cima como se a tivéssemos colocado entre uma lâmina e uma lamela tal é a qualidade com que a história da cidade é despejada, pintalgada aqui e ali de sangue, nas páginas que sofregamente fui lendo; são páginas repletas de palavras com têmpera. Os acontecimentos vão-se desenrolando com uma dureza cruel e flexível; e as personagens, até aquelas de índole moral questionável, são vigorosas, íntegras nos princípios que defendem independentemente destes nos parecerem dúbios, mesquinhos, sanguinários.

Por isso nos acontecimentos narrados vejo-me ali ao lado da populaça a comer umas favas fritas enquanto assisto ao espectáculo da “queima dos vivos” – bendita máquina do Dr. Moloch aka David Soares; noutros acontecimentos estou a flutuar pelo ar e a observar em tempo real a corrida tresloucada do “elefante aterrorizado”. Por isso, ainda hoje, tenho a quase certeza de que David Soares é um alien que manipulou sub-repticiamente a história de Lisboa e a vida de alguns dos seus habitantes, não apenas para seu bel-prazer, mas igualmente para nos oferecer uma narração das mudanças crónicas que a sua manipulação originou.

E como se o caldo já não estivesse devidamente recheado David Soares ainda nós vai enchendo a panela com mais especiarias. São estes pequenos e constantes condimentos que tornam a leitura ainda mais enriquecedora; é o caso de um Pessoa que se vislumbra poeticamente numa livraria que eu gostaria, também, de visitar.

É um romance de grande fôlego que se deve ler pausadamente; acompanhado por uma delicada música ambiente e por um pujante Dry Martini – é uma forma, entre muitas, de ler “Lisboa Triunfante”.

“Lisboa Triunfante” está dividida, no que o escritor chama carinhosamente de capítulos, mas que sei serem painéis e não é coincidência serem seis; o nome “epílogo” não deve ser contabilizado – está lá, fundamentalmente, para despistar.

Agora que encostei (aconchegado) o “Lisboa Triunfante” ao “Evangelho do Enforcado” sinto-me na obrigação de evangelizar mais leitores para este fantástico escritor português que se chama David Soares. Não se vão arrepender, nem precisam de me agradecer; e haverá sempre umas palavras que irão brotar biblicamente dos vossos lábios: “Onde estava David Soares? Não estava perdido, mas foi achado. E agora que o encontrei vou fazer uma festa e alegrar-me com um novo romance seu; nem que tenha de esperar para o halloween.”

2 respostas
  1. Barroca
    Barroca says:

    Ainda não li este, mas do que tenho lido (conspiração, ossos, evangelho) é um autor (ainda por cima nacional) a seguir.

    Boa review!

    Responder

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