a conspiração dos antepassados

10 Mai
10.05.2011

Ele seguia em missão, em busca do género de sabedoria que mais lhe aprazia, mas quem eram aquelas homens e mulheres de olhos vagos, senão cadáveres adiados que procriavam, vivendo sem sabor e sem surpresas? Sem saltos na criação?

página 113

Terminei a leitura da obra “A Conspiração dos Antepassados” e agora é fácil perceber porque o tal site se chama “Cadernos de Daath”; e, assim, acabei de ler os romances de David Soares pelo princípio.

Estou aborrecido com David Soares e já tinha dito que me iria vingar após esta última leitura. Assim sendo qual a sua desculpa para o 1º romance ter 363 páginas, o 2º romance 408 páginas e o 3º 341 páginas? Sabendo que em ambos são usados caracteres Minion corpo 12.

[…]

A primeira e a última impressão com que fiquei depois de ler “A Conspiração dos Antepassados” (ou qualquer das outras suas obras) é de ESPANTO. Inicialmente não compreendo porque ele escreve aquele palavra, discorre aquele diálogo/monólogo, narra um evento – aparentemente descontextualizados; com o decorrer da história as peças do puzzle completam um quadro magistralmente pintado.

David Soares com “A Conspiração dos Antepassados” criou uma história sem pontas soltas; as palavras estão delicadamente colocadas no sitio certo, criando com isso uma narrativa articulada, tal como um artesão relojoeiro monta um relógio. “A Conspiração dos Antepassados” não é uma leitura fácil, nenhuma obra que li de David Soares é; com isto é afirmar que seja de difícil compreensão? Não, de forma alguma. Apenas, e é um apenas gigantesco, David Soares com uma narrativa pormenorizada, estudada, fundamentada não poupa nada e ataca sem dó nem piedade os nosso sentidos, as nossas convicções, a nossa moral, a comodidade de uma história de Portugal sombriamente dogmática.

(…) comporta-se como um “moscardo”; espicaça as consciências adormecidas no sono fácil das ideias feitas.

François Châtelet

… e isto não é fácil de aceitar. O caminho, mais fácil é olhar a obra de soslaio (não a ler) e tecer críticas porque sim; o vulgo onanismo literário.

O que adoro na escrita de David Soares além de uma fantástica imaginação (poderia elogiar a suas representações fantásticas e adjectivar com um, ainda, “doentia”) é a sua capacidade de não nos deixar indiferentes: ou se odeia ou se ama o livro. David Soares não é um Marcel Proust, nem poderia sê-lo, como Marcel Proust nunca poderia ser, e não é por estar morto, um David Soares. Ambos são ímpares nos universos que constroem e nessa genialidade está a única semelhança.

David Soares continua, para mim, a ser A referência do fantástico em Portugal, mas para isso tive de o ler; e isso custa… pois.

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