batalha

Para quem leu todos romances de David Soares sabe que cada um dele é único, inusitado; são romances negros, perturbadores, acutilantes – é o fantástico servido em salva de prata. O escritor celebra em cada obra um fantástico, quimérico, exótico, soberbo, em constante renovação.

Li e reli “Batalha” de David Soares e ainda estou impressionado com a capacidade de inovação de um escritor que me surpreendeu em cada livro que fui lendo; “Batalha” não é excepção – nunca pensei ler David Soares a “poetizar” sobre as verdades da vida de forma tão profunda sob a capa da fantasia.

Em “Batalha” temos que suspeitar de um David Soares menos gótico, macabro, porque temos um David Soares novo, como que saído de dentro de um peixe; e aqui termina o logro – David Soares consegue, uma vez mais, mobilizar fantasticamente as palavras para construir uma história (histórias) sem falhas como uma lorica segmentata; é nesta mestria que o “novo” David Soares é igual a si próprio e extrapolando uma frase[1] de Oscar Wilde, hoje deu-me para isto, direi que é um absurdo dividir escritores em bons e maus, os escritores ou são encantadores ou entediantes – David Soares é encantador e inconstante[2], ponto final.

O autor ao conseguir, sem dificuldade, desencarnar assuntos seculares sem complexos, são aqueles temas teologicamente sérios, filosoficamente consideráveis, sim “esses!”, revela que “a vida é demasiado importante para ser levada a sério[3] e que a “ilusão é o primeiro de todos os prazeres[4]. As ilustrações de Daniel Silvestre da Silva transformam “Batalha” numa fábula mais verdadeira a que ninguém conseguirá ficar indiferente.

Com “Batalha” David Soares continua a ser o nec plus ultra de si mesmo e liga, ainda, aquela azeitona no fundo do Dry Martini, umbilicalmente “Batalha” a outras suas obras – descubram o elo “não perdido”.

David Soares é uma referência incontestável na literatura do fantástico e do horror em Portugal; se isto não fosse o suficiente ainda percorre com desenvoltura a banda desenhada – um criador completo. É um autor a descobrir ou a reencontrar. Parabéns. Fantástico.

Pergunto descaradamente: David Soares para quando um “encore“?


Oscar Wilde:
[1] It is absurd to divide people into good and bad. People are either charming or tedious.
[2] Consistency is the last refuge of the unimaginative.
[3] Life is far too important a thing ever to talk seriously about.
[4] Illusion is the first of all pleasures.

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