Archive for month: Janeiro, 2012

lapdance 1.00

31 Jan
31.01.2012

LapDance encontrava-se sentado no seu reluzente sofá de couro, nádegas nuas placidamente pousadas numa toalha do Neco – detestava ter as nádegas coladas ao couro. Para bem da verdade LapDance estava praticamente nu, exceptuando ainda ter colado ao corpo um farrapo, que com esforço alguém poderia dizer ser uma velha camisola do clã benfiquista e que era uma segunda pele, a desbotada estampagem tornava os olhos da águia horrivelmente tristes; meias rotas nos hálux por unhas grossas, afinadas que teimavam em rasgar a malha, completavam a parca indumentária.

De perna direita ligeiramente esticada sobre o sofá, a outra pousava na alcatifa pintada por imensos invólucros vazios de Mon Chéri, brincava com uma espinha que no testículo esquerdo teimava em florescer sazonalmente, sempre no mesmo local. Dizia vaidoso a si próprio que tinha, devido a esta idiossincrasia genital, um testículo dominante.

Olhos sorumbáticos pasmavam-se com as imagens do sétimo segmento do Fantasia 2000. Ao som da marcha número três de Edward Elgar iniciou com pompa e circunstância uma massagem de descompressão a custo zero. Raramente precisava de realizar esse trabalho manual, contudo quando o fazia era sempre à velocidade vertiginosa e inconstante de um caracol. De muitas decisões que tomou a de ter um orgasmo diário não era esquecida. E como os engates de hoje não se tinham transformado em amantes (a feromona do desespero afastava compulsivamente o sexo feminino); e como o reduzido encaixe de capital mensal não lhe permitiam pensar em recorrer a uma profissional (já sabia por experiência que não saindo de casa não colhia dinheiro) aí se encontrava com o modo autodidacta de satisfação ON.

Este mês sentiu-se simultaneamente optimista e preguiçoso. Perante a indecisão da escolha, optimista ou preguiçoso, o ócio de ermitão tomava sempre as rédeas. Quando a confiança venceu a disputa o último dia do mês estava ali ao virar da esquina.

O telefone tocou, desviando a sua atenção de um pénis ainda indolente que lhe recordou uma alheira mal confeccionada. Atendeu a chamada em alta voz, mas não disse nada. Limitou-se a esperar.
‘Lap estás aí?’
‘Diz coisas!’
Quando ouviu, ‘Preciso de um favor teu!’, já estava de pé junto ao móvel da televisão a beber um gole de vinho do Porto de lavrador on the rocks. Não respondeu. Olhou para um pacote ainda com um triste Mon Chéri. Decidiu, desta vez, não misturar os sabores.
‘Lap estás aí?’
‘Estou e não sei se te posso ajudar. É que estou com uma tarefa em mãos.’ Animada pela conversa ou pelo ardor frio do álcool a alheira começou a enrijar-se.
‘Ainda não disse nada e já te estás a por de fora? Foda-se!’ Qualquer obscenidade dita pela boca da Nectarina, nome com que baptizou Catarina, gerente da casa de multi-serviços Bolo-Rei, soava-lhe tão sensual.
‘Tens razão, Atira.’ LapDance sabia que não podia recusar o pedido qualquer que ele fosse. Devia-lhe muitos favores, mas gostava de mostrar que estava no controlo da situação – até quando ficava por baixo. Admirava o facto de ela nunca lhe ter exigido a cobrança dos serviços prestados, apesar de não precisar de o fazer; LapDance era um bobi que não ferrava uma mão que lhe dava muito de comer.
‘Preciso que fiques à porta do clube. O Big enviou-me um sms a dizer que tinha de resolver umas questões e hoje tenho a sensação que posso ter chatices. Conto contigo?’ Estranhou o Big ter questões. O Big não tinha problemas a resolver, gerava problemas aos outros nos quais a solução de 1+1 nunca era igual a dois – Big igual mestre do caos. Se fosse professor só utilizaria a cor vermelha.
‘Estou de saída, mas desta vez pagas em géneros.’ Já estava no quarto a terminar de vestir o seu fato Alpinestars preto e ainda ouvia a cadeia balanceada de palavrões a sair em resposta do alta voz. Terminou de calçar as botas, pegou nas luvas e enfiou o seu capacete Nexx XR1R. Ali estava LapDance frente ao espelho do roupeiro: uma estrela em brilhante negro.

Foi com as palavras posso ter chatices a ruminar que arrancou ansioso na sua Honda CBR 600 F equipada com uma câmara GoPro HD Hero2. Se o top speed real da mota era de 260 km/h o mostrador queimava sem soluços os 280 km/h.

[em continuação…]

ritos iguais

28 Jan
28.01.2012

Ritos Iguais (Equal Rites, 1987) de Terry Pratchett é o terceiro livro da excelente série Discworld.
É uma obra super divertida. Mais explicações? Só lendo.

O proprietário do Enigma do Violinista considerava-se um homem do mundo, e com razão, porque era demasiado estúpido para ser verdadeiramente cruel, e demasiado preguiçoso para ser verdadeiramente mau, e, embora o corpo dele tivesse viajado bastante, o espírito nunca fora mais longe do que o interior da própria cabeça.

página 80

 

Como não sei já o que li ou deixei de ler aqui me deixo uma lista do que encontrei nas estantes.

  • Ritos Iguais (Equal Rites, 1987)
  • Mort (Mort, 1987)
  • As Três Bruxas (Wyrd Sisters, 1988)

a sobrevoar swamp of sorrows

24 Jan
24.01.2012

Acho este shot muito bom. Adoro as cores.
Swamp of Sorrows continua a ter umas cores espetaculares.

o medo do homem sábio, parte i

21 Jan
21.01.2012

“O Medo do Homem Sábio”, parte I (dia dois das Crónicas do Regicida) de Patrick Rothfuss é um livro que merece a pena ser lido.

Continua a ser uma boa escolha para quem deseja uma excelente história.

milagres

19 Jan
19.01.2012

Existem na Bíblia dois episódios mágicos de que gosto especialmente:

  • a multiplicação dos pães e peixes
  • e a transformação da água em vinho.

Agora, em adulto, imagino-me sentado num sofá de massagem com suporte para um copo de Dry Martini a que nunca faltaria o maravilhoso licor e as verdejantes azeitonas.

Descendo para os anos da infância constato com uma cristalina clarividência que todos os dias a minha mãe e pai realizavam diariamente a magia mais poderosa:

  • o afecto multiplicava-se
  • ingredientes esquisitos transformavam-se em carinhosa comida
  • roupa rasgada aparecia cosida

and last but not least a gaveta das meias e cuecas nunca esvaziava.

o que é o nevoeiro?

16 Jan
16.01.2012

As minhas saudosas avós diziam-me que a trovoada “é São Pedro a arrumar a casa!”

Hoje direi que o nevoeiro “é São Pedro a fumar um valente charro!”

pensamentos de sanita versão 1.0.a

11 Jan
11.01.2012

# Será que um picheleiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma porca solta!”
# Será que um carpinteiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma lasca no dedo!”
# Será que um serralheiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma limalha no olho!”

# E o mesmo informático que pode morrer afogado na praia gritando F1, F1 como pedido de ajuda, pode dar-se ao luxo de solicitar favores sexuais com a frase “gostava que acedesses ao meu disco duro.”

contágio

10 Jan
10.01.2012

Fiquei desapontado.

Mais digo verdadeiramente desapontado.

mônica, 500 edições

09 Jan
9.01.2012

Em Junho de 2011 foi publicado pela Panini Comics o número 54 da revista “Mônica” que só o fui buscar ontem ao meu local de compras habitual; já tinha lá revistas com mais de 2 meses – imagine-se o atraso de leituras.

E depois de tudo o que é blog ter falado desta edição haverá pouco a dizer. Apenas assinalo que esta revista tem o número 54, mas corresponde a um total de 500 edições e que foi agradável de ler.

surrealismo na banheira

06 Jan
6.01.2012

O espectáculo é surreal. O leão, rei dos animais, vigia friamente Leviatã, o desfalecido rapaz selvagem.

leão, rei dos animais

leão, rei dos animais

O hipopótamo menos comedido no controlo das emoções, grita em desespero. O dinossauro que atravessou uma fenda temporal olha estupefacto; não compreende o que se passa e muito menos onde está.

hipopótamo e dinossauro

hipopótamo e dinossauro

Mas nem tudo está perdido. A salvação vem a caminho e em rodas, um panda desliza rapidamente. Estão a vê-lo?

panda, versão s.o.s.

Presumo que tudo tenha acabado bem, pois tive de me arrastar para o que é realmente importante.

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