joão amaral, a entrevista a quatro visões

João Amaral foi a minha grande descoberta no panorama da banda desenhada portuguesa nos finais da década de 90 através da revista Selecções BD. Fiquei fascinado pelos seus desenhos hiper-realistas e pelo facto de não existirem na prancha vinhetas estanques. As imagens corriam livres – uma delícia.

O autor continua a surpreender com uma capacidade ímpar para digerir novos estilos. É o caso do seu Fred e, mais recentemente do álbum “Cinzas da Revolta” no qual explora sem dificuldade um estilo diferente.

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cinzas da revolta: textos de miguel peres, desenhos de jhion (joão amaral)

Pelo que tenho em rascunho, indico os seus trabalhos por ordem cronológica:

  • A Voz dos Deuses (1994)
  • Quid Novi in Imperium? – Que Há de Novo no Império? (1999-2000)
  • O Fim da Linha (2000-2001)
  • Missão Quase Impossível (2003)
  • O Menino Jesus fez-se homem (2004) – ilustrações
  • A História de Manteigas no Coração da Estrela (2006)
  • Bernardo Santareno-Fragmentos de uma Vida Breve (2006)
  • Príncipe Valente no século XXI (2007)
  • A Espada Desaparecida (2008) – ilustrações
  • História de Fornos de Algodres (2008)
  • O Gui, a Nô… e os Outros (2006-2008)
  • Ok Corral (2008)
  • Fred & Companhia (2010-)
  • Cinzas da Revolta (2012)

Acho que não me escapou nada. Se existir algum lapso, corrijam-me sff.

Mas João Amaral, depois de desenhar bem e contar histórias com mestria, ainda se dá ao luxo de criar easter eggs nas suas pranchas. Neste desenho que faz parte do álbum “Bernardo Santareno-Fragmentos de uma Vida Breve” podemos descobrir com algum esforço um João Amaral, como ele bem diz e muito bem, “numa aparição hitchcockiana no meio da multidão“.

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bernardo santareno – fragmentos de uma vida breve

E agora sem mais delongas a entrevista.

1. afinal quem é João Carlos Saraiva Amaral aka Joca aka Jhion? qual o sentido de tantos nomes? é por uma questão de estilo? ou para criar confusão no leitor?
Assim, até parece que somos muitos, não é verdade? A questão dos nomes é fácil de explicar. Em relação ao Jhion, pensei que estava na altura de arranjar um pseudónimo, uma vez que este álbum, As Cinzas da Revolta, em termos gráficos, muito pouco ou nada tem a ver com os meus trabalhos anteriores. Ora, eu já tinha usado este pseudónimo uma vez que concorri juntamente com o Jorge Magalhães, com uma banda desenhada a Moura (o OK Corral). Aí, éramos obrigados a usar pseudónimo e eu, na altura, inventei este que penso ter uma sonoridade parecida com João e já o usei noutras coisas que fiz e que apareceram no blogue. Agora, pela razão que já disse, pensei que fazia todo o sentido utilizá-lo e gosto por ser um nome curto. Além, de que, se procurares na net João Amaral é um nome terrivelmente comum (risos). Quanto ao Joca é uma junção dos meus vários nomes e utilizo-o para as coisas humorísticas que, de vez em quando, vou fazendo.

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2. qual é a sensação de ter um filho, Fred, mais velho do que tu? afinal já tem mais de 100 tiras publicadas e li em qualquer lado que uma tira é um ano de vida?
Bem, por essa ordem de ideias, o puto está mesmo velhote. E, vendo bem as coisas, já percebo porque é que, por exemplo, o Quino é eterno. É, provavelmente à conta dos bons milhares de tiras que fez. Pois, não sei… O que sei é que o Fred foi um desafio que fiz a mim próprio há já alguns anos, no sentido de fazer qualquer coisa de diferente num formato que até então não tinha utilizado: a tira. Isto já foi nos idos anos 90. Mas a coisa, na altura, ficou-se apenas por uma ou duas tiras. Há cerca de dois anos, e depois de ter publicado no blogue alguns postais que fiz utilizando a personagem, tive boas reações e acabei por voltar outra vez ao desafio, sem saber muito bem o que é que se iria passar e de lá para cá já lá vão mais de cem tiras…

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bernardo santareno

3. como consegues desenhar mulheres lindas, elegantes e sensuais? não perdes a concentração?
Não, pelo contrário. As mulheres lindas levam-me muito mais tempo e exigem-me o dobro da concentração, pois são mais difíceis de desenhar (risos). E lembro-me de, quando era miúdo desenhar mulheres que metiam medo ao susto, por mais bonitas que eu quisesse que ficassem. Por isso, para chegar a uma figura feminina aceitável, tive que trabalhar muito. Os homens são muito mais fáceis. Qualquer carantonha ou corpito servem. Eu penso, e isso é uma opinião pessoal, que às desenhadoras é muito mais fácil desenhar mulheres, enquanto que a nós homens se passa exactamente o mesmo em relação às figuras masculinas. Claro que, depois, com a técnica isso se vai diluindo…

4. adoras o género western, para quando uma banda desenhada com cowgirls ao melhor estilo do rancho das coelhinhas?
É capaz de ser uma boa ideia. Eu, uma vez até pensei em fazer precisamente um western em que a protagonista e a vilã fossem mulheres. Mas até ver, ainda está em águas de bacalhau. Pode ser que um dia me dedique a isso, até porque isso era uma bd que reunia duas coisas de que eu gosto muito: o western e desenhar meninas.

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o que se passa na cabeça das mulheres?

5. cinzas da revolta é o teu ultimo trabalho assinado com o nome Jhion, no próximo trabalho também vais criar outro pseudónimo?
Não, para já, chega de pseudónimos, até, porque se continuar assim, qualquer dia e, como tu dizes, o pessoal fica confuso, sem saber muito bem quem é quem (risos).

5. e agora uma pergunta mais séria e pessoal: és uma pessoa circunspecta de sorriso fácil por que usas óculos? ou serve para assustar potenciais chatos? ou até és uma pessoa relaxada que usa óculos?
Ah, isso é que é uma pergunta séria? Bem, uso óculos por culpa das muitas horas que passo ao computador e, provavelmente, por culpa do PDI. Ainda consegui viver trinta e tal anos sem óculos, mas agora, nada feito. Agora, não serei, com toda a certeza, uma pessoa mais ou menos simpática ou relaxada por causa disso. Os óculos, como as canetas. os lápis ou o computador são apenas uma ferramenta, no caso para ver o que estou a fazer um pouco melhor e não, não se destinam a afastar potenciais chatos.

O meu sincero agradecimento a João Amaral por ter a paciência e amabilidade para responder às minhas perguntas malucas.
Aproveitam para comprar o maravilhoso álbum Cinzas da Revolta e informo que alguns dos seus trabalhos anteriores ainda podem ser comprados em livrarias online.
João Amaral é um autor que merece ser lido, porque apresenta trabalhos com qualidade, e acarinhado porque, apesar das dificuldades que existem em lançar novas bandas desenhadas em Portugal, não desiste.[1] a fotografia foi rapinada do site Tex Willer Blog
[2] por indicação de João Amaral, informo que a menina que aparece ao seu lado no desenho de “Bernardo Santareno-Fragmentos de uma Vida Breve” é a sua mulher.
Todas as imagens são propriedade de João Amaral e são utilizadas apenas para fins informativos no contexto do post joão amaral, a entrevista a quatro visões
1 responder
  1. paulo brito
    paulo brito says:

    actualizei o artigo com
    # o ponto identificado com [2]
    # com a imagem das meninas sem marca de água enviada disponibilizada pelo autor
    # com a identificação de outra aparição hitchcockiana
    # coloquei a contribuição de João Amaral, ilustrações, n’O Menino Jesus fez-se homem (2004)

    joão amaral

    Responder

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