traduções, escolhas…

21 Mar
21.03.2019

“Um Estranho Numa Terra Estranha” é um livro originalmente escrito em inglês que a páginas tantas tem o seguinte texto:

IN THE VOLANT LAND OF LAPUTA, according to the journal of Lemuel Gulliver recounting his Travels into Several Remote Nations of the World, no person of importance ever listened or spoke without the help of a servant, known as a “climenole” in Laputian-or “flapper” in rough English translation, as such a Servant’s only duty was to flap the mouth and ears of his master with a dried bladder whenever, in the opinion of the servant, it was desirable for his master to speak or listen.

texto na edição original

(…) century and half before they were observed by Terran astronomers, and, secondly, Laputa itself was described in size and shape and propulsion such that the only English term that fits is “flying saucer.”

texto na edição original

A minha primeira leitura do livro “Um Estranho Numa Terra Estranha” foi a edição da Publicações Europa-América de 1982, Livros de Bolso, série Ficção Científica, traduzido por Luísa Rodrigues. Aqui a tradução do termo “flapper” não foi feita.

(…) ou flapper, na tradução inglesa (…)

página 128

Convém referir que a edição publicada pelas Publicações Europa-América não é a história completa, mas a edição que continha cerca de 160.000 palavras. A edição publicada pela Saída de Emergência é a edição completa a rondar as 220.000 palavras.

The earlier edition contained a few words over 160,000, while this one runs around 220,000 words. Robert’s manuscript copy usually contained about 250 to 300 words per page, depending on the amount of dialogue on the pages. So, taking an average of about 275 words, with the manuscript running 800 pages, we get a total of 220,000 words, perhaps a bit more.

perfácio

Ao longo da tradução de Jorge Candeias para a edição da Saída de Emergência vamos lendo:

Aprendera recentemente a falar inglês simples (…)

página 33, volume I

Secretário-Geral: Não preciso dele. Você diz que o Smith compreende o inglês.

página 67, volume I

– Aguenta aí – disse apressadamente Harshaw – O problema está na língua inglesa, não em ti.

página 172, volume I

Mas chegados à parte sobre a terra de Laputa o tradutor escolhe este caminho:

(…) ou «batedor», em tosca tradução para português (…)

página 202, volume I

(…) e uma propulsão que o único termo português que lhe corresponde é o de «disco voador».

página 204, volume I

Numa tradução espanhola de 1996 por Domingo Santos (Plaza & Janés Editores S.A.), temos:

(…) «palmeador» según su traducción aproximada al inglés (…)

Gostava de saber por que o tradutor Jorge Candeias optou pelo caminho de traduzir a palavra “inglês” para “português“.

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2 respostas
  1. paulo brito says:

    Enviado email à Saída de Emergência:

    No original do livro Um Estranho Numa Terra Estranha consta o seguinte texto “IN THE VOLANT LAND OF LAPUTA, according to the journal of Lemuel Gulliver recounting his Travels into Several Remote Nations of the World, no person of importance ever listened or spoke without the help of a servant, known as a “climenole” in Laputian-or “flapper” in rough English translation, as such a Servant’s only duty was to flap the mouth and ears of his master with a dried bladder whenever, in the opinion of the servant, it was desirable for his master to speak or listen.”
    Gostava de saber porque o tradutor optou por colocar o texto “(…) ou «batedor», em tosca tradução para português (…)” e “(…) e uma propulsão que o único termo português que lhe corresponde é o de «disco voador».

    Responder
  2. paulo brito says:

    Depois de ler a resposta do tradutor que de seguida transcrevo devo admitir que tem toda a lógica a opção utilizada.

    Não tenho a certeza se percebi bem qual a dúvida do leitor, se as palavras e expressões em si, se a mudança de “inglês” para “português” neste caso, pelo que respondo às duas hipóteses.

    Começo pelas expressões porque a explicação é mais simples: são as que encontrei na tradução de «As Viagens de Gulliver» de José Moura Pimenta.

    Não havendo uma tradução “dominante” desse livro, i.e., uma tradução que tenda a ser republicada sucessivamente em vez de praticamente cada edição contar com uma tradução nova como acontece com este livro, sendo essa edição bastante comum por ter sido distribuída com o Público, logo ser provável que muitos dos leitores que conhecem a obra a conheçam através dela, e tendo-me ficado uma ideia de ser globalmente boa a tradução do Moura Pimenta de quando li essa edição há cerca de 20 anos, julguei mais avisado respeitar as opções do tradutor de Swift nesses dois termos (por ser provável que o leitor que conheça a obra de Swift já as conheça) do que me pôr a inventar.

    Quanto a transformar “english” em “português”, o motivo é o texto estar em português, não em inglês.

    Há duas situações distintas em que o nome da língua surge neste livro:

    1. Referências à língua que as personagens falam; 2. Referências à língua em que estão escritas determinadas passagens do texto.

    O caso 1 surge, por exemplo, quando Michael começa a aprender inglês e ele ou outras personagens refletem sobre determinadas características da língua que ele está a aprender, o inglês. Obviamente, essas passagens referem-se especificamente à língua inglesa, têm ligação direta a coisas que as personagens dizem e fazem, pelo que as referências na tradução só poderiam ser também à língua inglesa.

    O caso 2 surge nesta menção às Viagens de Gulliver e, se bem me lembro, apenas nela. É uma menção a um termo específico que está integrado em narração simples, sem qualquer ligação a qualquer das personagens e com uma ligação relativamente vaga ao próprio enredo. Trata-se basicamente de uma divagação do autor/narrador.

    A tradução teria duas hipóteses:

    1. Mantinha os termos citados em inglês; 2. Traduzia os termos citados para português.

    Manter os termos em inglês implicaria manter a referência que lhes é feita com “in rough English translation” como “em tosca tradução para inglês”. Mas também implicaria ter de arrancar o leitor ao fluxo narrativo com uma nota de rodapé que explicasse o que vem a ser um “flapper”.

    Traduzir os termos para português implicaria trocar a “tradução tosca para inglês” por “tradução tosca para português”, pois não faz o mais pequeno sentido, neste contexto, falar-se de língua inglesa a propósito de palavras portuguesas.

    E foi esta a opção que tomei por me parecer que é aquela que menos perturbação causa ao correr da leitura da generalidade dos leitores.

    Jorge Candeias

    Responder

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