27 Mar
27.03.2019 O MEU TELEFONE COMEÇOU A LADRAR no momento em que o isqueiro caiu. Procurei-o nervoso. Escapava-me dos dedos trémulos como um escorregadio peixe-cão metálico. Levei alguns segundos a atender enquanto os latidos cresciam, enfurecidos. Reconheci a voz de Kianda. Tentei explicar-lhe o que me acontecera. Não tive tempo. Ouvi a porta do consultório a bater de encontro à parede, e a voz de Tata Ambroise desarrumando o ar em assombrada cólera:
— Um cão aqui?! Quem deixou entrar um cão?
Desliguei o telefone. Voltei a guardá-lo no bolso. Tata Ambroise abriu a porta da minha prisão. Empurrei-a com toda a força e saí. O curandeiro caiu. Ou melhor, foi caindo. Montanhas não caem de uma só vez. Rolam lentas sobre si mesmas. Já no chão olhou para mim. Acho que nunca testemunhei um tão convincente esgar de espanto:
— Um rato!
O telefone voltou a ladrar. Não atendi, claro, estava demasiado ocupado a tentar fugir. A porta do consultório ficara aberta. Afastei uma enfermeira e lancei-me a galope pelo corredor. Tata Ambroise berrava atrás de mim:
— Um rato-cão! Agarrem o monstro!
Barroco Tropical por José Eduardo Agualusa (página 291)

Este texto, capítulo 19 de “Barroco Tropical”, é um dos muitos momentos cómicos da história. Existem outros igualmente sublimes, mas neste o absurdo da situação, a confluência, digamos, de muitos doces pormenores têm aqui a sua merecida apoteose.

Delirante!

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