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(…) Hume negou a existência de um espaço absoluto, em que cada coisa tem o seu lugar; eu, a de um único tempo, em que se delimitam todos os acontecimentos. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão.
Nego, num elevado número de casos, o sucessivo; também nego, num elevado número de casos, o contemporâneo. O amante que pensa: «Enquanto eu estava tão feliz, pensando na fidelidade do meu amor, ela enganava-me», engana-se; se cada estado que vivemos é absoluto, esta felicidade não foi contemporânea desta traição; a descoberta desta traição é simplesmente mais um estado, inapto para modificar os «anteriores», embora não a sua lembrança. A desventura de hoje não é mais real que a fortuna pretérita.
Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (página 234)
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