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O arquivista de ofensas [1] regista com agrado a corrupção da vida, que também a ele o riscará do mundo, mas que do mesmo modo e sobretudo apagará todas as vilezas. A universalidade da morte corrige a da estupidez e a da maldade. Mas todo o livro escrito contra a vida, disse Thomas Mann, constitui uma sedução no sentido de a viver; por trás da persistente negação oposta por Thrän à maldade das coisas há também um pudico amor pela realidade, pelo riso e pelas ruas que ele media com inabalável precisão. Talvez o amigo sincero da vida não seja o pretendente que a corteja com adulações sentimentais, mas o apaixonado infeliz e rejeitado que se sente expulso dela, escrevia Thrän, como um velho móvel fora de moda.
Danúbio de Claudio Magris (páginas 88/89)

[1] Georg Karl Ferdinand Thrän (1811-1870) foi Mestre construtor da catedral em Ulm (Ulmer Münster).

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