Author Archive para: paulo brito

vegetariano

14 Jul
14.07.2006

Sou a partir de ontem 90% vegetariano.
Ainda vou consumir alguns produtos de origem animal: ovos, leite e peixe.
O meu amigo paxo pensa que sou vegetariano até ao próximo bife. Poderá ter alguma razão.

green stairs

07 Jul
07.07.2006

Stairs that surround the exterior of the “Castelo de Melgaço”.

bons augúrios

07 Jul
07.07.2006

(…) um tipo pensa que está no topo do mundo e, de repente, pregam-lhe com o Armagedão em cima. A Grande Guerra, a Derradeira Batalha. Céu contra Inferno, três assaltos, uma queda, sem apelo. E era tudo. Deixava de haver mundo. Porque era isso que o fim do mundo significava. Não haver mais mundo. Só um céu infindável ou, dependendo de quem vencesse, um infindável Inferno. Crowley não sabia qual seria o pior.
Bom, por definição, o Inferno era pior, claro. Mas Crowley lembrava-se de como era o céu e a verdade é que tinha muitas coisas em comum com o Inferno. Logo para começar, não era possí­vel arranjar-se uma bebida decente em nenhum deles. E o tédio que havia no céu era quase tão mau como a excitação que havia no inferno.
Mas não havia maneira de se escapar. (…)
Bem, pelo menos não ia ser naquele ano. Ainda teria tempo para fazer algumas coisas. Para já, vender acções de longo prazo.

página 28

Neil Gaiman; Terry Pratchett, Bons Augúrios // título original: Good Omens // tradução: Carlos Grifo Babo // editor: Editorial Presença, Nov. 2004, Lisboa // isbn: 972-23-3280-5

30 Jun
30.06.2006

(…) Eu só procuro saber a razão por que os homens não se atrevem a matar-se, e nada mais. Não tem importância nenhuma.
— Não se atrevem? Pois não há bastantes suicídios?
— Muito poucos.
— Acha?
Não me respondeu, levantou-se e pôs-se a passear de um lado para outro.
— Que é que, na sua opinião, impede os homens de se suicidarem? — indaguei.
Olhou-me com ar abstracto, como se quisesse lembrar-se do que estávamos a falar.
— Pouco… pouco sei. Há dois preconceitos que os prendem, duas coisas só: uma é mínima, a outra considerável. Mas a mínima também é considerável.
— Qual é?
— A dor.
— A dor? É assim tão importante?
— Primordial. Existem duas categorias de suicidas: uns matam-se por excesso de melancolia ou por irritação, ou por loucura, não importa. Esses fazem-no sem vacilar. A loucura não os detém, matam-se logo, agem imediatamente. Quanto aos que o fazem com reflexão, pensam demasiado no caso.
— Então existem os que se destroem por reflexão?
— São muitos. Se não houvesse preconceitos, haveria ainda mais, muito mais, toda a gente.
— Quê? Toda a gente?
Kirilov calou-se uns instantes.
— Haverá meio de morrer sem dor?
— Imagine — respondeu ele, parando diante de mim, imagine uma rocha com as dimensões de um edifício colossal. Está suspensa sobre nós, que estamos por baixo. Se nos caísse em cima da cabeça, chegaríamos a sofrer?
— Uma rocha dessas dimensões? É horrível.
— Não falo do medo, refiro-me à dor.
— Uma rocha tão grande… evidentemente que não sentiríamos dor.
— Mas se de facto se encontrasse debaixo dessa pedra suspensa, o senhor teria medo de sofrer. Todos o teriam, médicos, sábios, fosse quem fosse. Sabem que não haveria dor e, no entanto, assustam-se.
— E a segunda causa, a mais considerável?
— É o outro mundo.
— Alude ao castigo?
— Tanto faz. O outro mundo é bastante.
— Há ateus que não crêem nisso.
O homem calou-se de novo.
— Julga talvez por si mesmo?
— Cada qual só pode julgar por si mesmo — retorquiu, corando. — Só existirá liberdade completa no dia em que for indiferente viver ou não viver. Eis o fim, o alvo de tudo.
— Nesse caso, ninguém desejaria viver.
— Ninguém — confirmou Kirilov, em tom decidido.
— O homem receia a morte porque ama a vida, eis como eu vejo as coisas — repliquei. — Assim dispôs a natureza.
— Logro vil. — exclamou, de olhos brilhantes. — A vida é a dor, a vida é o medo, e o homem é infeliz. Tudo é dor e medo. O homem, agora, ama a vida porque ama a dor e o medo. Criaram-no assim. Dá-se a vida a troco da dor e do medo, e eis aí o embuste. O homem de hoje não é ainda um homem. Há-de haver um dia o homem novo, orgulhoso, feliz, a quem será indiferente viver ou não; eis o homem novo. Esse vencerá a dor e o medo e será o próprio Deus. Deixará de haver outro Deus.
— Mas Deus existe, na sua teoria?
— Não existe, mas é. Não há dor numa pedra, mas no medo da pedra há dor. Deus é a dor do medo da morte. Aquele que vencer a dor e o medo será o próprio Deus. Surgirá então uma vida nova, um homem novo. Tudo será novo. A história dividir-se-á em duas partes: do gorila à destruição de Deus, e da destruição de Deus.. .
— Ao gorila?
— … à transformação física da Terra e do homem. O homem será Deus; transformar-se-á fisicamente. O Mundo também se transformará, assim como as acções e as ideias e todos os sentidos. Que lhe parece isto da transformação física do homem?
— Se for indiferente viver ou não viver, todos se hão-de matar, e aí está a sua grande transformação.
— Nem mais. E mata-se a trapaça em que vivemos. Qualquer homem que deseje liberdade deverá atrever-se ao suicídio. O que ousar tal coisa desvendará o mistério do embuste. Fora disso, não há liberdade: está tudo aí; o que ousa matar-se é Deus, de modo que cada qual pode fazer com que deixe de haver Deus. E não haverá. Mas ninguém ainda experimentou.
— Tem havido milhões de suicidas.
— Todos por outra coisa, todos por medo, e não por isto que digo. Nunca para matar o medo. Aquele que se matar só para matar o medo tornar-se-á imediatamente Deus.
— Talvez não tenha tempo — observei.
(…)

páginas 71/72

Fiódor Dostoiévski, Os Demónios // tradução: Reis Madeira // editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Set. 1983

reciclar???

18 Jun
18.06.2006

A reciclagem é uma boa ideia.
Mas de uma forma geral é outra forma de as empresas/estado/etc ganharem muito, mas muito dinheiro, à custa de uma ideia politicamente correcta: devemos ser amigos da natureza. E quem é meu amigo? O que ganho no imediato com isso. Ah, dizem, a longo prazo é uma boa coisa. Ah é? Mas dentro de 80 anos e a correr bem eu não estou aqui. Entrarei, também, num processo de reciclagem. Humm, tenho de pensar nos meus filhos e nos filhos dos meus filhos e assim. Tretas.

O dia-a-dia de um ex-reciclador.
Ora vejamos:
1. compro água engarrafada numa garrafa de plástico
2. deposito-a para reciclagem
3. pago das mais elevadas taxas de recolha de lixo
4. compro outra garrafa ao mesmo preço, se tudo correr bem, da anterior

O que poupei neste processo. Não poupei rigorosamente nada. O que consegui foi:
1. perder tempo
2. dar a ganhar a uma empresa de integração de lixo com o meu lixo.

Mas e se for uma pilha? Vejamos:
1. compro a(s) pilha(s)
2. pago um eco imposto
3. gasto a(s) pilha(s)
4. entrego a(s) pilha(s) no pilhão
5. pago das mais elevadas taxas de recolha de lixo
5. decido não comprar mais pilhas

O que poupei neste processo. Não poupei rigorosamente nada. O que consegui foi:
1. perder tempo
2. dar a ganhar a uma empresa de integração de lixo com o meu lixo e nem o eco imposto foi devolvido

Okay, nem tudo é mau, ouvi uma música e bebi água.

14 Jun
14.06.2006

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrí­vel. Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Cesário Verde, Contrariedades

14 Jun
14.06.2006

La poésie délivre l’alme de cet asservissement aux passions, en le rendant pour ainsi dire perceptible et palpable.

Friedrich Hegel, Esthétique

monsenhor quixote

13 Jun
13.06.2006

— (…) Pode um homem viver sem fé?
— Não sei o que quer dizer «sem fé». Haverá sempre coisas que um homem pode fazer. A descoberta de nova fonte e energia. E doenças. Haverá sempre doenças a combater.
— Tem a certeza? A medicina está a dar grandes passadas. Tenho pena do seu trineto, Sancho. Parece-me que não terá de esperar por nada, senão pela morte.
(…)
— Só precisamos de dizer uma oração por uma pessoa que morreu.
— Portanto, di-la-ia por Estaline?
— Claro.
— E por Hitler?
— Existem graus para o mal, Sancho. E para o bem. Podemos fazer discriminações entre os vivos, mas não entre os mortos. Todos necessitam que rezemos por eles.

página 73 e 101

Graham Greene, Monselhor Quixote // título original: Monsignor Quixote // tradução: Maria Georgina Segurado< // editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Set. 1984

amor & castigo

13 Jun
13.06.2006

(…) é melhor ser amado que temido, ou o inverso[1]? Respondo que seria preferível ser ambas as coisas, mas, como é muito difícil conciliá-las, parece-me muito mais seguro ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas[2].
(…) Os homens hesitam menos em prejudicar um homem que se torna amado do que outro que se torna temido[3], pois o amor mantém-se por um laço de obrigações que, em virtude de os serem maus, se quebra quando surge ocasião de melhor proveito. Mas o medo mantém-se por um temor do castigo que nunca nos abandona[4].

directamente das páginas 89 e 90

Nicolau Maquiavel, O Príncipe // tradução: Fernanda Pinto Rodrigues (texto) e de M. Antonieta Mendonça (comentários de Napoleão Bonaparte) // editor: Europa-América, Mem Martins, 1994


outras observações: livro com anotações de Napoleão Bonaparte
[1] Isso não constitui um problema para mim.
[2] Não preciso de mais que uma delas.
[3] Estão é enganados.
[4] É preciso que o castigo seja imediato.

na corda bamba

13 Jun
13.06.2006

É preciso uma grande pressão para nos levar a compreendermos-nos. Por outro lado, a civilização ensina-nos que cada um de nós vale um preço inestimável. Há, portanto, este dois preparativos: um para a vida e outro para a morte. Por isso nós avaliamo-nos e temos vergonha de nos avaliar-mos. Fomos treinados no silêncio e, se um de nós tira ocasionalmente as suas próprias medidas, fá-lo friamente, como se estivesse a examinar as unhas, e não a alma, franzindo o sobrolho às imperfeições que encontra como se fossem uma lasca ou uma sujidade.(…)
Mas eu tenho de saber o que eu próprio sou.
(…)
Sinto que sou uma espécie de granada humana a que tiraram a espoleta. Sei que vou explodir e estou constantemente a antecipar essa altura, gritando com um desespero fervoroso: «Bum.», mas sempre antes do tempo.
Goethe tinha razão num sentido: a vida que continua significa expectativa. A morte é a abolição da escolha. Quanto mais limitada é a escolha, mais perto estamos da morte. A maior crueldade é cortar esperanças sem tirar completamente a vida.

página 120 e 149

Saul Bellow, Na Corda Bamba // título original: The Dangling Man // tradução: Maria Adélia Silva Melo // editor: Dom Quixote, Lisboa, Dez. 1976

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