Archive for category: escritos

são cheiros

16 Mar
16.03.2020

Desde que se recorda o cheiro das fezes incomoda-o. Foi tentando reduzir os odores nauseabundos experimentando mudanças alimentares. Apenas frutas, aqui apenas laranjas, maças, bananas, etc… e depois combinações de várias frutas; apenas insectos, combinações de insectos, insectos com frutas, com carne, com peixe, marisco, vegetais; apenas lacticínios, águas, vinhos, licores. Imaginem todas as variantes possíveis e imaginárias de comida e de qualquer coisa remotamente comestível. Nada resultou, os dejectos mudavam a consistência, mas o odor continuava a ser asqueroso.

Até que a solução lhe surgiu tão cristalina como o gelo. Desde que eliminou os receptores no nariz responsáveis pelo olfacto nunca mais teve problemas. Agora o mundo tem o cheiro ideal.

a reunião

09 Mar
09.03.2020

Elvira Dark recorda-se do seu primeiro filme como se fosse hoje. Uma adolescente percorre um abandonado parque de estacionamento quando é vítima de um ataque tecnológico inaudito: é enforcada com um telefone sem fios até a cabeça ser decapitada. O arrojo de sangue marrom que besuntou a tela branca foi tão intenso que Elvira ficou nesse momento fascinada por sangue e por bifes tártaros.

O hoje é o dia da semana em que vai à reunião. Entrou sem qualquer receio na sala contígua à sacristia da Igreja Matriz em Barcelos, sem antes ter visitado o pelourinho. Sentia um dilacerante prazer ao imaginar o sofrimento e o sangue que aquelas pedras tinham testemunhado e bebido.

Na sala já se encontravam sentados em círculo Carl Maia, Francis Barnard, Cataline Stone, o orientador Hezekiah e surpresa… um novo membro.

‘Como já repararam temos hoje entre nós um novo membro’, iniciou a conversa Hezekiah após Elvira ter ocupado a cadeira remanescente, ‘e é altura de lhe desejar as boas vindas.’

‘Olá!’, responderam os membros em sincronia.

‘Olá. O meu nome é Bruce, Bruce Campbell e sou… não consigo, desculpem!’

‘Bruce se desejares podes apenas ouvir, não precisas de participar. Vai com calma. Todos nos sabemos o quanto é difícil’, aconselhou Hezekiah.

Elvira ficava constantemente extasiada pelo pescoço à touro seminal que Hezekiah exibia em cima de uns largos ombros. A imagem que se projectava, sempre, no seu pensamento era ela vestida apenas de luvas de mirtilo em azul a fazer carving na carne e ossos do portentoso Hezekiah com uma moto-serra STIHL MS 192 T. O seu delicioso devaneio durou pouco tempo; foi interrompido pelo gorgolejar a seco do novo membro.

‘Queres dizer alguma coisa Bruce?’, questionou Hezekiah.

‘Sim. O meu nome é Bruce Campbell e sou viciado em filmes Série B.’

estamos a falar de coisas diferentes

04 Mar
04.03.2020

— Queres a mãe morta? Mas que raio de filho és tu?
— Eu gosto da nossa mãe tanto como tu. Que merda de acusação é essa?
— Não disseste que ela está a sofrer muito?
— Sim disse.
— Não disseste que não há ninguém para tomar conta dela?
— Sim disse.
— Não disseste que a morte acabaria com o seu sofrimento?
— Sim disse.
— E então, sacana da merda, ainda dizes que não queres a mãe morta.
— Estamos a falar de coisas diferentes. Eu não disse que desejo a sua morte; apenas que estava melhor morta.


Uma história com exactamente 101 palavras.


Fascinado pela frase “estamos a falar de coisas diferentes” do conto “Um Conto Popular Para a Minha Geração: Na Pré-História do Capitalismo Tardio” de Haruki Murakami constante no livro “A Rapariga que Inventou Um Sonho”, tentei criar um texto sem sentido com apenas 101 palavras. Aqui está ele.

o que menos me preocupou foi a cor do sangue dela

03 Mar
03.03.2020

O que menos me preocupou foi a cor do sangue dela: vermelho como todos. O problema que se me colocava era como retirar o corpo do apartamento sem ninguém descobrir. Não sendo canibal, comê-la estava fora de questão. A solução estava em fazê-la desaparecer sem sair do apartamento. Através de ácidos na banheira – vulgar. Sentei-me e olhei para o peixe vermelho que dentro da bola de vidro gozava comigo. E nesta altura a solução surgiu com mais naturalidade do que uma erecção. Um aquário de 150cm é uma decoração sempre elegante e ainda mais se estiver habitado por certos peixes.


Uma história com exactamente 101 palavras.

oulipo: bisexuelle 01

13 Fev
13.02.2020

appel vidéo

Je suis en train de perdre mon contenance,
après avoir vu dans la main de mon ami un certain liquide…
Je confirme qu’il s’agit d’une bière; maudit distance!

campo maféfico terrestre

13 Fev
13.02.2020

Até 1054 considerava-se que a terra estava rodeada por um campo magnético com os seus pólos próximos aos pólos geográficos da Terra. O facto de a localização dos pólos não ser estática, chegando a oscilar vários quilómetros por anos era motivo de confusão para os teólogos cientistas.

Esta teoria foi refutada em Abril de 1054 quando o Papa Leão IX sofreu um mortal ataque de coração causado pela súbita aparição – puf – do Diabo Balão nos seus aposentos.

O Diabo Balão (único diabo avistado até à data) foi capturado e interrogado ad nauseam.

Ficou-se, finalmente,  a saber a razão das forças maléficas nunca terem sido bem sucedidas a conquistar a terra. Atacar a terra significa subir das profundezas do inferno. Ora ascender é algo “bom”. Significa elevação (sentimento incompatível com o mal), por isso as forças do mal têm de descer. Contudo, e tendo em conta que a terra é redonda se descerem em demasia começarão a subir de outro lado. O lugar ideal, válido para qualquer diabo é o centro.

[para mais informação pode ser consultado o artigo sobre a definição da circunferência na geometria euclidiana]

Nestas subidas e descidas é criado o Campo Maléfico Terrestre. Ironicamente são os diabos nas suas movimentações que protegem a terra das partículas carregadas do vento solar. Ainda não se saber a razão do Diabo Balão ter conseguido ascender à terra. A teoria geralmente aceite é ele ter aproveitado a ruptura causada na Igreja pelo Grande Cisma do Oriente.

barbaridade

17 Jan
17.01.2020

Entrei no apartamento. Sentia-se a atmosfera pesada, como se o local soubesse que ali tinha sido cometido um crime.

Antes de entrar no quatro já se ouvia a azáfama da equipa forense. Apesar de ter visitado muitos cenários de crimes hediondos nunca deixo de ficar chocado com a capacidade humana para a crueldade. O que deparava perante os meus pés era o crime dos crimes. Uma bíblia foi desventrada por um punhal. Deu para perceber que proporcionou luta: diversas páginas estavam rasgadas, ainda coladas ao miolo, outras páginas encontravam-se espalhadas pelo chão – barbaridade.

an impulse

07 Jan
07.01.2020

Following an impulse, I define myself, from now on – God ex-machina -, as a plastic puff artist or a monazitic artist. I put a monazitic sand cone in any place (always 1 kg) and with a blue cocktail straw, also known as a tube to sip liquids, of 10cm long, I puff.

With the sobbing velocity of the air expelled through the plastic tube I get traits in the sand of varied aspect. When I feel that “I am there and here”, “this is what I want” I obtain a new work of art.

My public is the one who loves the Ephemeral Art but that feels it has been offered a punch in the solar plexus; the emotions it arises are plenty … my art.

I don’t set any photo because I refuse myself to perpetuate works of art that must be savoured on the spot.

contagens

03 Abr
03.04.2019

Subi as escadas de mármore castanho. Contei dez degraus até ao primeiro patamar. Virei à esquerda e contei onze degraus. Novo patamar. Parei perante a incoerência da contagem. Desci até ao rés-do-chão para recomeçar a contagem e aí chegado insultei-me por não ter iniciado a contagem ao descer. Desta feita contei onze degraus – aqui estava a explicação. Reiniciei a subida lamentando o erro da primeira contagem e um arrepio desceu pela coluna. Estremeci. A contagem até ao segundo patamar foi de dez degraus. Senti um sufoco. Tonturas. As paredes começaram a abafar-me. Colei-me à parede atordoado. Confuso tentei convencer-me de que a minha obsessão pelo equilíbrio e coerência estava a transformar-se num problema. Desci acelerado os dois patamares. Respirei fundo. Reiniciei a subida. Dez degraus, esquerda, dez degraus. A harmonia desceu sobre mim. Sorridente iniciei a escalada de um novo patamar: contagem dez degraus – tudo certo. Nova viragem à esquerda e onze degraus. Como? Como? Limpei as gotas de suor que escorriam pela testa. Desci os patamares tentando não pensar muito no assunto. Entrei no elevador e carreguei no botão para o segundo andar. A porta fechou-se e a subida iniciou-se suavemente. O elevador parou com um ligeiro solavanco. A porta abriu-se e perante mim exibiu-se em plena claridade o rés-do-chão.

dialogues – did you eat chocolate?

30 Nov
30.11.2018

– Did you eat chocolate?
– How do you know?
– Your breath smells like chocolate.
– Oh! Yes, I did.
– You were not even able to deny it.
– Do you want me to be a liar?
You’re the one who buys the chocolate. You’re luring me.
– Yes, It’s true that I buy the chocolate, but I’m thin. And besides, it was hidden.
– Hidden? What a great hiding place, in front of the crackers. Conclusion, I am fat and greedy. And the fact that you’re thin gives you the right to eat the chocolate by yourself? And all this revolt because of 100 grams of chocolate – you insult me.
– Insults? Are not you fat?
– Of course I’m not fat, I’m overweight.
– That’s right … and you were not greedy about eating aaaaall the chocolate?
– Of course not, I was an opportunist. Opportunity makes a glutton.
– You’re right, you’re not fat or greedy… you’re a dick. Jeez!
– I do not say no to that. When are you going to buy and hide more chocolate?
– Turn off the light and sleep.

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beam me up, scotty!