revista amanhecer #38

Cá está a nova Revista Amanhecer #38 (2020) que contém uma história minha.

Uma vez mais a Revista Amanhecer revela-se imprescindível ao espelhar as inúmeras faces do Agrupamento de Escolas de Barcelos. Com conteúdos mais que sumarentos é uma leitura obrigatória.

Uma lufada de ar fresco.

thoughts, versão 2.0

A group of people crossed his path, and he didn’t like them.
A man crossed his path, and he didn’t like him.
A woman crossed his path, and he didn’t like her
Faced with his own reflection in a window, he did not like the hate he saw in himself.


Na tentativa de obter uma história com apenas 50 palavras a partir de um texto de 2017 – thoughts – o resultado não foi o melhor. E só deu para perceber isso quando o texto foi rejeitado.

2 metros

— Meu… por que não usas máscara quando sais de casa?
— Só a uso quando percebo que terei pessoas num raio de dois metros – medido a olho, claro. Até agora só me cruzei com gatos, cães e outros animais que tais.
— A sério?
— Viste que consegui fazer uma rima com ais. Lindo. Mesmo lindoooo!
— Houve lá, não estás comigo desde que deixas a tua casa?
— E?
— E? Então não sou uma pessoa e não estou a menos de dois metros?
— Ah! Ah! Vejamos. Sinceramente. Ah! Nunca te vi muito bem como uma pessoa. Para mim és mais um rato, uma lesma. Uma perturbação na força.
— És doente. Sabias?
— Nem te respondo caracol, mas coloco um máscara – satisfeito? Tens aí uma que me emprestes?
— Uma máscara não se empresta e não, não tenho mais máscaras.
— Então temos de nos afastar dois metros.
— E coomooo se estamos num carrrrroooo.
— Que violência man. Simples.
Parei o carro e pedi educadamente ao caracol que abandonasse a viatura. Fê-lo a exibir uma cara de radiante espanto a raiar a estupidez.
— Satisfeito? — não me respondeu. Não entendo aquelas pessoas que nunca estão satisfeitas.

entre abraços

O postigo abriu-se e uns olhos inspectivos fizeram uma pergunta silenciosa. Respondi, “Sorrir e acenar.” A porta foi aberta e na minha imaginação esperava ouvir um assustador rangido, mas nada se ouviu; deslizou silenciosamente. Na antecâmara um cartaz informava que me devia despir – fi-lo. De seguida passei por uma portada que me mediu a temperatura e me aspergiu o corpo com desinfectante. Vesti um fato-macaco descartável, antiepidémico e antibacteriano. Quando fiquei totalmente artilhado a luz existente por cima de outra porta acendeu verde. Abri-a e entrei num espaço mais que amplo e brilhante. Solucei em face do que vi: um paraíso de abraço e mais abraços. Exibiam-se casais abraçados, abraços em grupo. Ah! Que visão. Aproximei-me de um casal e cerquei-os com dois braços desejosos de contacto humano. Chorei quando o meu contacto foi retribuído e ali naquele momento senti-me o mais feliz dos mortais. Já não me recordava o quanto um abraço é especial. Abraçado e a abraçar rosnei uma prece de ódio à maldita pandemia.

o pai natal

O Sujeito fugiu do Predicado e refugiou-se no Advérbio; o Pai Natal apareceu e comeu-o.

cansaço

Os espelhos cansados de serem reflexos de ti,
de mim,
disto e daquilo,
tornaram-se opacos,
e o mundo nunca mais foi o mesmo.

you know

“You know you live a life of alms; of flesh; soulless; hollow,” he listen looking at the firearm, immaculate, unused, virgin, which OulipoBrat aimed.
“I know. Don’t repeat it and shoot.”

agulhas

De agulha na mão
a enfermeira dá uma injecção.
Perante uma nádega
ela fica embeiçada…
com a visão de duas
enfeitiçada.
Eu não fico embaraçado,
mas simplesmente furado.
Amanhã nova sessão.
Sentirei a picada aguda da paixão
na ponta de uma injecção.

sufoco

sufocado pela antítese
na escuridão do dia
gritei em silêncio.

na placidez da tormenta
sonhei acordado
com anjos diabólicos.

e enquanto a alegria me entristece
a dialéctica em garrote
argumenta-se de libertadora.