Archive for category: escritos

barbaridade

17 Jan
17.01.2020

Entrei no apartamento. Sentia-se a atmosfera pesada, como se o local soubesse que ali tinha sido cometido um crime.

Antes de entrar no quatro já se ouvia a azáfama da equipa forense. Apesar de ter visitado muitos cenários de crimes hediondos nunca deixo de ficar chocado com a capacidade humana para a crueldade. O que deparava perante os meus pés era o crime dos crimes. Uma bíblia foi desventrada por um punhal. Deu para perceber que proporcionou luta: diversas páginas estavam rasgadas, ainda coladas ao miolo, outras páginas encontravam-se espalhadas pelo chão – barbaridade.

an impulse

07 Jan
07.01.2020

Following an impulse, I define myself, from now on – God ex-machina -, as a plastic puff artist or a monazitic artist. I put a monazitic sand cone in any place (always 1 kg) and with a blue cocktail straw, also known as a tube to sip liquids, of 10cm long, I puff.

With the sobbing velocity of the air expelled through the plastic tube I get traits in the sand of varied aspect. When I feel that “I am there and here”, “this is what I want” I obtain a new work of art.

My public is the one who loves the Ephemeral Art but that feels it has been offered a punch in the solar plexus; the emotions it arises are plenty … my art.

I don’t set any photo because I refuse myself to perpetuate works of art that must be savoured on the spot.

contagens

03 Abr
03.04.2019

Subi as escadas de mármore castanho. Contei dez degraus até ao primeiro patamar. Virei à esquerda e contei onze degraus. Novo patamar. Parei perante a incoerência da contagem. Desci até ao rés-do-chão para recomeçar a contagem e aí chegado insultei-me por não ter iniciado a contagem ao descer. Desta feita contei onze degraus – aqui estava a explicação. Reiniciei a subida lamentando o erro da primeira contagem e um arrepio desceu pela coluna. Estremeci. A contagem até ao segundo patamar foi de dez degraus. Senti um sufoco. Tonturas. As paredes começaram a abafar-me. Colei-me à parede atordoado. Confuso tentei convencer-me de que a minha obsessão pelo equilíbrio e coerência estava a transformar-se num problema. Desci acelerado os dois patamares. Respirei fundo. Reiniciei a subida. Dez degraus, esquerda, dez degraus. A harmonia desceu sobre mim. Sorridente iniciei a escalada de um novo patamar: contagem dez degraus – tudo certo. Nova viragem à esquerda e onze degraus. Como? Como? Limpei as gotas de suor que escorriam pela testa. Desci os patamares tentando não pensar muito no assunto. Entrei no elevador e carreguei no botão para o segundo andar. A porta fechou-se e a subida iniciou-se suavemente. O elevador parou com um ligeiro solavanco. A porta abriu-se e perante mim exibiu-se em plena claridade o rés-do-chão.

dialogues – did you eat chocolate?

30 Nov
30.11.2018

– Did you eat chocolate?
– How do you know?
– Your breath smells like chocolate.
– Oh! Yes, I did.
– You were not even able to deny it.
– Do you want me to be a liar?
You’re the one who buys the chocolate. You’re luring me.
– Yes, It’s true that I buy the chocolate, but I’m thin. And besides, it was hidden.
– Hidden? What a great hiding place, in front of the crackers. Conclusion, I am fat and greedy. And the fact that you’re thin gives you the right to eat the chocolate by yourself? And all this revolt because of 100 grams of chocolate – you insult me.
– Insults? Are not you fat?
– Of course I’m not fat, I’m overweight.
– That’s right … and you were not greedy about eating aaaaall the chocolate?
– Of course not, I was an opportunist. Opportunity makes a glutton.
– You’re right, you’re not fat or greedy… you’re a dick. Jeez!
– I do not say no to that. When are you going to buy and hide more chocolate?
– Turn off the light and sleep.

sal-gema

30 Out
30.10.2018

O que tive fazer para ajudar…

Fui à praia para encontrar
uma rocha especial,
com sabor a sal.

Descobri muitas rochas.
Umas em forma de ovelhas,
outras em forma de borrachas.
Umas eram velhas.
Outras pareciam novas:
polidas e brilhantes,
muito elegantes.

Fiquei com pena
por não encontrar
uma rocha sal-gema.


mas não era isto que se desejava… nova tentativa:

O sal-gema é uma rocha
especial
com sabor a sal.


Forma-se pela evaporação
das águas marinhas.
E a isto chama-se precipitação.


É uma rocha sedimentar
com aplicação alimentar
que fui encontrar na cozinha
a temperar a sardinha!

i don’t love that he gets in me

11 Out
11.10.2018

I don’t love that he gets in me;
I don’t love that he strolls in me;
I don’t love that he has fun in me;
Him? He loves to get in and out of me:
without remorse, without morality.
But today I decided to take back the possession of the key for me:
I killed him.
And, now, I love to be eating him piece by piece into me.

são meus

28 Jun
28.06.2018

Sinto falta dos meus mortos vivos. As suas inexistências impedem o meu viver. Será que me visto de preto cinzento porque percorro os meus caminhos em perpétuo luto? Talvez não. A verdade, contudo, é que sei claramente que subsisto com uma alma outonal.

Ah! O quanto odeio o Outono. Estação de queda; na qual terminam todos os ciclos.

lol – mexicano

17 Mai
17.05.2018

Mais uma versão do LOL – mexicana.

lol – camões

10 Mai
10.05.2018

Uma imagem do LOL – adulterada!

haverá

10 Mai
10.05.2018

Haverá algo melhor do que sentir a chuva a cair no guarda-chuva ao som da Lacrimosa de Mozart, debitada directamente nos ouvidos, enquanto o cheiro da terra molhada te impregna o nariz, a humidade e o frio te rodeia e embala, além de estar sentado na cama, quente, aconchegado pelos lençóis e pelo corpo sensual que se entrelaçou no teu, enquanto sorves um golo de chá quente e te preparas para iniciar a leitura do Romance de Genji e vês no parapeito o gato a brincar com a chuva que bate hipnoticamente nos vidros da janela?

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beam me up, scotty!