Archive for category: fragmentos

19 Jan
19.01.2020 A noite é neutra, disse para si. Não toma partido por um nem por outros, e ajuda a quem a põe do seu lado. A quem a utiliza.
Falcó de Arturo Pérez-Reverte (pág. 238)

17 Jan
17.01.2020 Mas a feroz e desumana engrenagem da realidade priva-nos demasiado frequentemente de um outro bem: da solidão, da nossa necessidade de estarmos sós, a de vivermos pelo menos umas poucas vezes naquele faroeste do nosso coração em que somos por vezes realmente nós próprios apenas se estivermos sós, como o cowboy dos velhos westerns. Amar significa também compreender e proteger aquela solidão de que o outro precisa; compreender que ele ou ela pode querer almoçar fora de casa não só porque tem um banal e sempre respeitado almoço de trabalho que não ofende nenhum casamento, mas porque naquele dia precisa de estar unicamente com os seus pensamentos, com o seu vagabundear rafeiro, e perder-se.
Instantâneos de Claudio Magris (pág. 142)

16 Jan
16.01.2020 (…) a sensibilidade é a melhor máscara do egoísmo, o seu advogado de defesa mais eficaz, pela convicção daquilo que diz, mesmo que seja falso. Estão todos, estamos todos angustiados e sensíveis, tão sensíveis à dor do outro a ponto de a tirarmos da nossa frente para não nos estragar o apetite. Há pessoas, escrevia Bernanos, tão sensíveis que não podem ver sofrer nem uma pequena criatura, esmagando-a de imediato para não a verem sofrer.
Instantâneos de Claudio Magris (pág. 103)

13 Jan
13.01.2020 A certa altura entra uma jovem, uma visitante. Desconhecendo o protesto, pensa estar diante de uma exposição, talvez até de uma proposta para uma nova escola pictórica. Detém-se perante todos os quadros, isto é, perante todos os panos pretos, afaste-se e aproxima-se para observar melhor, senta-se e toma diligentemente notas; esta nova pintura parece agradar-lhe e convencê-la.
Instantâneos de Claudio Magris (págs. 23/24)

Neste instantâneo intitulado de “Na galeria de Castelli” Claudio Magris acha piada ao engano(?) da visitante. Não vejo qualquer motivo para tal, porque nos dias que correm tanto é arte uma banana presa com fita adesiva, como panos pretos de diferentes tamanhos pendurados numa galeria de arte, ou até uma sanita parcialmente partida. Desde que um monte de areia decorada com uma pedra esteja dentro de uma galeria de arte é… arte. É a arte moderna no seu brilhante esplendor. A estupidez suprema.

05 Jan
05.01.2020 Com o à-vontade com que antes passavam pratos de comida à mesa do jantar, distribuíam agora pormenores sangrentos. Não importava a redundância e menos ainda a repetição. Quanto mais partilhavam, menos verdadeiro tudo se lhes afigurava. A tragédia era um bem como outro qualquer: destinava-se a ser consumido, individual e coletivamente.
Três Filhas de Eva de Elif Shafak (pág. 347)

bruce chatwin

01 Jan
01.01.2020 BRUCE CHATWIN ACREDITAVA QUE O DESTINO do homem era viajar, o vadiar, andar de terra em terra. Para o comprovar temos o resumo luminoso da sua obra e o exemplo pessoal, quando se despediu do emprego londrino com um simples bilhete a dizer: «Fui para a Patagónia.» Esta frase deve ter existido — mas entrou no domínio das lendas passíveis de serem comprovadas. Ou seja: pode ser verdadeira, mas, se for falsa, tanto melhor, porque é quase perfeita. «Fui para a Patagónia» é o resumo de uma vida que — leitores ingénuos como somos — acreditamos ter sido consagrada ao nomadismo.
Canto Nómada de Bruce Chatwin (págs. 7)

Fragmento do prefácio “Chatwin: os lugares aonde o nosso olhar ainda não chegou” por Francisco José Viegas.

29 Dez
29.12.2019 Fernando Pessoa exprimiu antes de nós as razões pelas quais preferimos aos de hoje os barcos de outrora (ou antes, neste caso, as cartas antigas às modernas):

Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista
    veleiros e barcos de madeira,
De não saber doutra vida marítima que a antiga
    vida dos mares!


Ode Marítima publicada sob o heterónimo Álvaro de Campos

Breviário Mediterrânico de Predrag Matvejevitch (págs. 266/267)

27 Dez
27.12.2019 Como uma varinha mágica nas mãos erradas, o trânsito transformava minutos em horas, humanos em bestas e qualquer vestígio de sanidade em pura loucura. Istambul não parecia importa-se com isso. Tinha tempo, bestas e loucura de sobra. Mais uma hora, menos uma hora, mais uma besta, menos um louco… a partir de determinada altura, já não fazia diferença
Três Filhas de Eva de Elif Shafak (pág. 13)

19 Dez
19.12.2019 Nos dias em que o mar está particularmente límpido e nos revela as suas profundidades, adivinham-se, aqui e além, os contornos de objetos estranhos, destroços, ruínas: facilmente imaginamos então que descobrimos um galeão afundado com a sua preciosa carga, um antigo palácio, os vestígios de uma cidade antiga. Esses contornos incertos são comparáveis à memória, esses destroços à história, essas ruínas ao destino. O Mediterrâneo é um colecionador.
Breviário Mediterrânico de Predrag Matvejevitch (pág. 43)

17 Dez
17.12.2019 (…) Não se pode explicar o que nos leva a tentar, ainda e sempre, reconstituir o mosaico mediterrânico, estabelecer mais uma vez o catálogo das suas componentes, verificar o sentido de cada uma delas isoladamente ou verificar o sentido de cada uma delas em relação às outras: (…)
O Mediterrâneo não é apenas uma história.
Breviário Mediterrânico de Predrag Matvejevitch (págs. 22 e 23)
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