fragmento.00450

O quarto no longo corredor vazio. A poltrona, a cama, as paredes nuas, o teto baixo. Sentado no quarto e depois a vaguear pelos corredores, sentia-me reduzido ao meu eu mais diminuto, todas as fantasias presunçosas em torno de mim mirradas até não passarem de devaneios íntimos, porque o que sou eu neste lugar senão alguém a precisar de se defender.
Zero K de Don DeLillo (página 61)

fragmento.00449

HÁ QUANTOS ANOS FAZIA AQUELE CAMINHO PARA CASA? Há demasiados anos. Há quantos anos, ao fazer aquele caminho para casa, pensara se esse fora o destino que escolhera? Há muitos anos, anos de mais — mas nunca dera crédito à pergunta, porque a achara despropositada. E, portanto, é como se nunca a tivesse feito.
O Colecionador de Erva de Francisco José Viegas (página 187)
«A leitura é urna tarefa cada vez mais perigosa e arriscada, Isaltino. Ler é urna ocupação de risco a partir de certa altura. Com a idade, os olhos não resistem a tantos maus livros. E já não falo do cérebro.»
«Fica com um ar mais respeitável, chefe.»
«É bem capaz de ser. A oftalmologia é uma ciência nobre. Trata da promoção social das classes desfavorecidas. Na minha aldeia só o padre, o merceeiro e uma tia minha tinham óculos. Os outros limitavam-se a ver mal e julgavam que o mundo era assim, desfocado ou sujo. Não conheciam a retina, não sabiam o que eram as cataratas, não tinham termo de comparação, ignoravam a existência de dioptrias. E nunca poderiam ler Tolstói nem Turguéniev.»
O Colecionador de Erva de Francisco José Viegas (página 19)
já existem suficientes comentadores sociais de reduzida categoria cerebral. por que haveria eu de acrescentar a minha rosnadela de alta categoria? todos nós apanhámos as velhotas a dizer: «ah, acho HORRÍVEL aquilo que os jovens fazem a si mesmos, aquela droga toda e tal! parece-me terrível!» e depois olhamos para a velha: sem olhos, sem dentes, sem cérebro, sem alma, sem rabo, sem boca, sem cor, sem mutação, sem humor, nada, um mero pau, e perguntamo-nos o que terão feito por ELA o chá e os biscoitos e a igreja e a casa de esquina. e por vezes os velhos tornam-se muito violentos em relação ao que alguns jovens andam a fazer — «porra, trabalhei que nem um MOURO a minha vida toda!» (julgam eles que isso é uma virtude, embora só prove que um tipo é completamente idiota.) «estes tipos querem tudo em troca de NADA! andam por aí a destruir o corpo na droga, a contar viver uma vida à grande e à francesa!»
Histórias de Loucura Normal de Charles Bukowski (página 342)
Ursula evitou-me durante vários dias. Eu evitei-a. Gregory evitou-me. Eu evitei-o. Ele também a evitou, a ela, e ela evitou-o a ele (tenho quase a certeza), o que trouxe algum conforto. Estávamos sempre quase a tropeçar uns nos outros, inevitavelmente. Gostava que pudéssemos deixar de nos evitar o tempo suficiente para chegarmos a acordo quanto a evitar-nos como deve ser.
Sucesso de Martin Amis (página 233)
(…) Odeio dormir, de qualquer modo (e quem me dera não sonhar tanto). Nem sei porque é que ainda me ralo com isso. Tudo pode acontecer quando se está a dormir. Dormir só serve para apanharmos areia nos olhos.
Sucesso de Martin Amis (página 37)
— O que faz aqui? — pergunta Juvêncio
— Morro.
— Como?!
— Morro, senhor polícia. Vim para morrer. É um serviço que me leva o tempo todo.
Os Vivos e Outros de José Eduardo Agualusa (páginas 216/217)

fragmento.00443

The dice came up six and one. (…)
‘What do the dice say?’
(…)
‘Dice say nothing. They are dice.’
‘Why roll ‘em, then?’
‘They are dice. What else would I do with them?’
Best Served Cold by Joe Abercrombie (página 61/62)
A saúde era o que uma pessoa tinha até ao dia em que deixava de a ter e depois desse dia estava lixada e era melhor não deixar os médicos lixarem-na antes de chegar esse dia.
Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites de Salman Rushdie (página 115)

(…) Num vila romena, uma mulher começou a pôr ovos. Numa cidade francesa, os cidadões começaram a transformar-se em rinocerontes. Os idosos irlandeses começaram a viver em caixotes do lixo. Um belga olhou-se a um espelho e viu a sua nuca refletida nele. Um funcionário russo perdeu o nariz e depois viu-o a passear sozinho por São Petersburgo. Uma nuvem estreita trespassou a lua cheia (…)
Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites de Salman Rushdie (página 108)

Breve referência ao espectacular conto de Nikolai Gogol, “O Nariz”, que pode ser lido no livro Contos de S. Petersburgo publicado pela Saída de Emergência.