fragmento.000473

Fomos, todos nós, ensinados a ver o Espírito do Mundo em grandes batalhões de soldados, e deveríamos aprender com Herder a surpreendê-lo também onde ele se encontra ou parece — ainda dormente ou acabado de entrar na infância; talvez não estejamos verdadeiramente a salvo enquanto não aprendermos a sentir, com uma concretude quase física, que cada nação está destinada a ter a sua hora e que não há, em sentido absoluto, civilizações maiores ou menores, mas antes um suceder sazonal e de florações. Viver e ler significa pensar essa «história da alma humana» em todos os tempos e em todos os países que Herder queria traçar através das realizações da literatura mundial, sem sacrificar a ideia de uma universalidade perene dessa alma, mas também sem sacrificar a um único modelo nenhuma das formas, tão diferentes e várias, que a encarnarem; o amor pela perfeição da forma grega não levava Herder a desvalorizar os cânticos das festas populares da Letónia.
Danúbio de Claudio Magris (página 37)

fragmento.000472

(…) De manhã, a história é outra, mais intensa, barulhenta e igualmente bela. Intrigante. E desastrosa. Estivemos lá uma semana e tal e nunca vimos uma escola de condução. Desconhecemos mesmo a existência de aulas de código. Há 16 milhões de habitantes, dez milhões de carros. Desses, dois milhões são táxis. Nenhum deles respeita o que quer que seja. É n típico deixa andar. Diz-se do Cairo a título anedótico que as intermináveis buzinas funcionam como uma espécie de terceira língua, que os condutores estão preparados para qualquer circuito de Fórmula 1 e que um peão que sobrevive aos motoristas é capaz de se esquivar até de tiros de snipers.
Viagens Sem Bola de Rui Miguel Tomar (página 52)

fragmento.000471

Clássico não é um livro (repito-o) que necessariamente possua tais ou tais méritos; é um livro que as gerações dos homens, instadas por diversas razões, leem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade.
Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (página 256)

fragmento.000470

(…) Hume negou a existência de um espaço absoluto, em que cada coisa tem o seu lugar; eu, a de um único tempo, em que se delimitam todos os acontecimentos. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão.
Nego, num elevado número de casos, o sucessivo; também nego, num elevado número de casos, o contemporâneo. O amante que pensa: «Enquanto eu estava tão feliz, pensando na fidelidade do meu amor, ela enganava-me», engana-se; se cada estado que vivemos é absoluto, esta felicidade não foi contemporânea desta traição; a descoberta desta traição é simplesmente mais um estado, inapto para modificar os «anteriores», embora não a sua lembrança. A desventura de hoje não é mais real que a fortuna pretérita.
Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (página 234)

“every man is born an aristotelian or a platonist”

Samuel Taylor Coleridge once said:
Every man is born an Aristotelian or a Platonist. I don’t think it is possible that any one born an Aristotelian can become a Platonist, and I am sure no born Platonist can ever change into an Aristotelian. (Woodring 1990, 172-73) [1]

Proceedings of the Boston Area Colloquium in Ancient Philosophy by Rober Tmayhew (Online Publication Date: 01 Jan 2000 / In: Volume 16: Issue 1)


(…) Os últimos intuem que as ideias são realidades; os primeiros, que são generalizações; para estes, a linguagem não é outra coisa senão um sistema de símbolos arbitrários; para aqueles, é o mapa do universo. O platónico sabe que o universo é de certo modo um cosmos, uma ordem; esta ordem, para o aristotélico, pode ser um erro ou uma ficção do nosso conhecimento parcial

Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (págs 205 e 206)


[1] Coleridge said this on July 2, 1830. The remark was recorded by Henry Nelson Coleridge, and included in the first volume of Table Talk (1835). For details, see Woodring 1990, 172-75.

fragmento.000468

O capítulo que diretamente fala de Cristo não é efusivo. Limita-se a invocar dois lugares da Escritura, a frase «dou a minha vida pelas ovelhas» (João 10:15) e a curiosa locução: «Deu o espírito», que usam os quatro evangelistas para dizer «morreu». Destes lugares, que confirma o versículo: «Ninguém me tira a vida, dou-a eu» (João 10: 1 8), infere que o suplício da Cruz não matou Jesus Cristo e que este, na verdade, se deu morte com uma prodigiosa e voluntária emissão da sua alma. Donne escreveu esta conjetura em 1608; em 1631 incluiu-a num sermão que pregou, quase agonizante, na capela do palácio de Whitehall.
Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (página 130)
Biathanatos, a Declaration of that Paradoxe or Thesis, that Selfe-homicide is not so Naturally Sinne, that it may never be otherwise (em português: Biathanatos, uma declaração daquele paradoxo, ou tese, segundo o qual o auto-homicídio não é tão naturalmente um pecado que nunca possa vir a deixar de sê-lo), ou simplesmente Biathanatos, é um livro do poeta inglês e padre anglicano John Donne, no qual ele argumenta que, sob certas condições, o suicídio é defensável. Estima-se que a escrita do livro foi completada em 1608, mas foi somente em 1647, depois de sua morte e contra a vontade de Donne, que o trabalho foi publicado por seu filho. O significado histórico de Biathanatos está no fato de ser o primeiro texto em inglês que trata da proibição cristã do suicídio.

Wikipédia

fragmento.000467

Mencionar o nome de Wilde é mencionar um dandy que também fosse poeta, é evocar a imagem de um cavalheiro dedicado ao pobre propósito de espantar com gravatas e com metáforas.
Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (página 111)

fragmento.000466

Toda a colaboração é misteriosa. Esta do inglês e persa foi-o mais que nenhuma, porque eram muito diferentes os dois e se calhar na vida nem teriam travado amizade e a morte e as vicissitudes e o tempo serviram para que um soubesse do outro e fossem um único poeta.
Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (página 109)

fragmento.000465

Por alturas de 1938, Paul Valéry escreveu: «A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira das suas obras, mas a História do Espírito como produtor ou consumidor de literatura. Esta história poderia ser levada a cabo sem mencionar um único escritor.»
Outras Inquirições de Jorge Luis Borges (página 19)

fragmento.000464

(…) Supor um erro na Escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um facto casual no mais precioso acontecimento da História do mundo. Ergo, a traição de Judas não foi casual; foi um feito predeterminado que tem o seu lugar misterioso na economia da redenção.
Ficções e Jorge Luis Borges (página 162)