Archive for category: fragmentos

26 Jan
26.01.2020 Um gato, contudo, não conta como companhia. Não se tem a companhia de um gato. Partilhar a casa com um gato é uma forma elegante de solidão.
A Sociedade dos Sonhadores Involuntários de José Eduardo Agualusa (pág. 161)

thornton niven wilder

23 Jan
23.01.2020

Thornton Niven Wilder (1897 – 1975) was an American playwright and novelist. He won three Pulitzer Prizes — for the novel “The Bridge of San Luis Rey”, and for the plays “Our Town” and “The Skin of Our Teeth” — and a U.S. National Book Award for the novel “The Eighth Day”.

Wikipédia

Noventa e nove porcento das pessoas do mundo são tolas e o resto de nós está em grande perigo de contágio.
The Matchmaker de Thornton Niven Wilder

22 Jan
22.01.2020 Nessa noite fui nadar. Nadei durante mais de uma hora, sob o olho único de uma Lua imensa. Nadei até que as luzes, na praia, se misturaram à confusa torrente de estrelas. Então, estendi-me de costas, a flutuar, puxado para o alto pela força da Lua. Se ela estivesse um pouco mais perto talvez me arrancasse da água. Eu ficaria levitando, um corpo solto, entre as estrelas e o mar.
Hossi esperava por mim, sentado na areia.
— Nunca sei se voltas.
— Nunca sei se volto. Mas sempre que volto, maninho, volto mais livre.
A Sociedade dos Sonhadores Involuntários de José Eduardo Agualusa (pág. 135)

21 Jan
21.01.2020 (…) São exemplos de uma arte tardia mas simples, naturais e de apelo universal. Aqui não há homens de arnês ajoelhados, à espera de uma ressurreição feliz. O artista limitou-se a apresentar, com maior ou menor habilidade, a simples realidade presente dos homens, continuando-lhes e perpetuando-lhes com isso a existência. Eles não põem as mãos, não olham para o céu, mas estão aqui em baixo, tal como foram e são. Estão juntos, participam da vida uns dos outros, amam-se, e tudo isso está expresso da forma mais tocante nas pedras, apesar da execução um tanto desajeitada.
Viagem a Itália de Johann Wolfgang Von Goethe (pág. 79)

19 Jan
19.01.2020 A noite é neutra, disse para si. Não toma partido por um nem por outros, e ajuda a quem a põe do seu lado. A quem a utiliza.
Falcó de Arturo Pérez-Reverte (pág. 238)

17 Jan
17.01.2020 Mas a feroz e desumana engrenagem da realidade priva-nos demasiado frequentemente de um outro bem: da solidão, da nossa necessidade de estarmos sós, a de vivermos pelo menos umas poucas vezes naquele faroeste do nosso coração em que somos por vezes realmente nós próprios apenas se estivermos sós, como o cowboy dos velhos westerns. Amar significa também compreender e proteger aquela solidão de que o outro precisa; compreender que ele ou ela pode querer almoçar fora de casa não só porque tem um banal e sempre respeitado almoço de trabalho que não ofende nenhum casamento, mas porque naquele dia precisa de estar unicamente com os seus pensamentos, com o seu vagabundear rafeiro, e perder-se.
Instantâneos de Claudio Magris (pág. 142)

16 Jan
16.01.2020 (…) a sensibilidade é a melhor máscara do egoísmo, o seu advogado de defesa mais eficaz, pela convicção daquilo que diz, mesmo que seja falso. Estão todos, estamos todos angustiados e sensíveis, tão sensíveis à dor do outro a ponto de a tirarmos da nossa frente para não nos estragar o apetite. Há pessoas, escrevia Bernanos, tão sensíveis que não podem ver sofrer nem uma pequena criatura, esmagando-a de imediato para não a verem sofrer.
Instantâneos de Claudio Magris (pág. 103)

13 Jan
13.01.2020 A certa altura entra uma jovem, uma visitante. Desconhecendo o protesto, pensa estar diante de uma exposição, talvez até de uma proposta para uma nova escola pictórica. Detém-se perante todos os quadros, isto é, perante todos os panos pretos, afaste-se e aproxima-se para observar melhor, senta-se e toma diligentemente notas; esta nova pintura parece agradar-lhe e convencê-la.
Instantâneos de Claudio Magris (págs. 23/24)

Neste instantâneo intitulado de “Na galeria de Castelli” Claudio Magris acha piada ao engano(?) da visitante. Não vejo qualquer motivo para tal, porque nos dias que correm tanto é arte uma banana presa com fita adesiva, como panos pretos de diferentes tamanhos pendurados numa galeria de arte, ou até uma sanita parcialmente partida. Desde que um monte de areia decorada com uma pedra esteja dentro de uma galeria de arte é… arte. É a arte moderna no seu brilhante esplendor. A estupidez suprema.

05 Jan
05.01.2020 Com o à-vontade com que antes passavam pratos de comida à mesa do jantar, distribuíam agora pormenores sangrentos. Não importava a redundância e menos ainda a repetição. Quanto mais partilhavam, menos verdadeiro tudo se lhes afigurava. A tragédia era um bem como outro qualquer: destinava-se a ser consumido, individual e coletivamente.
Três Filhas de Eva de Elif Shafak (pág. 347)

bruce chatwin

01 Jan
01.01.2020 BRUCE CHATWIN ACREDITAVA QUE O DESTINO do homem era viajar, o vadiar, andar de terra em terra. Para o comprovar temos o resumo luminoso da sua obra e o exemplo pessoal, quando se despediu do emprego londrino com um simples bilhete a dizer: «Fui para a Patagónia.» Esta frase deve ter existido — mas entrou no domínio das lendas passíveis de serem comprovadas. Ou seja: pode ser verdadeira, mas, se for falsa, tanto melhor, porque é quase perfeita. «Fui para a Patagónia» é o resumo de uma vida que — leitores ingénuos como somos — acreditamos ter sido consagrada ao nomadismo.
Canto Nómada de Bruce Chatwin (págs. 7)

Fragmento do prefácio “Chatwin: os lugares aonde o nosso olhar ainda não chegou” por Francisco José Viegas.

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