e aconteceu

Aconteceu-me qualquer coisa; já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira de uma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada.
(…)
Produziu-se pois uma mudança durante estas últimas semanas. Mas onde? É uma mudança que não se fixa em sítio nenhum. Fui eu que mudei? Se não fui, então foi este quarto, esta cidade, esta natureza; é preciso escolher.
Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também.


Jean-Paul Sartre, A Náusea
título original: La Nausée
editor: Publicações Europa-América, Colecção Grandes Obras, n.º133, Mem Martins, págs. 11/12
tradutor: António Coimbra Martins
isbn: 972-1-01565-2

para quê lê-lo?

Se o livro que lemos não nos acorda com um murro no crânio, para quê lê-lo? Para que nos faça felizes, como escreves? Por Deus. Sê-lo-íamos da mesma maneira se não tivéssemos livro nenhum, e, se fosse necessário, poderíamos escrever os livros de que precisamos para sermos felizes. Muito pelo contrário, necessitamos de livros que sobre nós exerçam uma acção idêntica à de uma desgraça que muito nos tenha afligido, tal como a morte de alguém que amássemos mais do que nós mesmos, como se fôssemos proscritos, condenados a viver nas florestas, afastados de todos os nossos semelhantes, como num suicídio – um livro deve ser o machado que quebre o mar congelado em nós. É assim que eu penso.

Frank Kafka, Carta a Pollak, 27 de Janeiro de 1904

Luis Izquierdo, Conhecer Kafka e a Sua Obra
título original: Conocer Kafka y Su Obra
tradução: Manuel Mota
editora: Ulisseia, Lousã, pág. 18

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Meu Deus. Um minuto inteiro de felicidade.
Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski