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afinal é pato!

08 Dez
8.12.2016

Barcelos está em estado de choque.
“É um pato!”
“É um pato!”
São os gritos da multidão que se deslocou à “Rotunda da Bolacha” após o estrondo causado pela eclosão do Ovo. Testemunhas afirmam que ouviram pelas 08h31 um cábuuum seguido de um puf e de um sonoro quack! E como por milagre um pato de branco algodão substituiu o Ovo – quack!

Exigem-se responsabilidades. Exige-se um galo. Alguém pede, em desespero, ajuda à Joana Vasconcelos. Ela, contudo, encontra-se indisponível. Está presentemente na conferência “Fazer a mochila e partir. Utopia ou Imperativo?”

Em jeito de solução transformou-se o pato em galo – ah! pois.

é um pato!

david soares, uma entrevista

04 Nov
4.11.2012

É com imenso prazer que publico a entrevista realizada a David Soares, no dia seguinte a ter sido premiado na edição deste ano do Amadora BD, com o Prémio Nacional de Banda Desenhada para Melhor Argumento de Autor Português pelo livro «O Pequeno Deus Cego» (uma edição Kingpin Books, desenhado por Pedro Serpa).

O que adoro em todo o seu trabalho, além de uma fantástica imaginação, é a sua capacidade em não nos deixar indiferentes. David Soares é uma referência incontestável na literatura em Portugal – um criador completo. É um autor a descobrir ou a reencontrar.

Não nego a minha grande admiração por David Soares. Possuo todos os seus trabalhos. “Batalha” tenho-a em todas as cores, só me falta comprar a edição da “raposa” e obter “A Conspiração dos Antepassados” com a capa “pessoa”, até tenho impresso em booklet “Um Passeio por Lisboa Triunfante”, e foi, por isso, precisa muita coragem, misturada qb com atrevimento, para lhe colocar algumas perguntas que ele amavelmente acedeu responder.

Agradeço, mais uma vez a David Soares e, pois claro, a todas as editoras que o têm trazido a público.

A entrevista.

1. “(…) É preciso coragem para escrever, e a coragem cresce mais pelo nosso próprio exemplo que pelo exemplo dos outros. É preciso coragem porque escrever é confessar (…)” palavras extraídas do livro “Renascimento” de Brian W. Aldiss. Achas, sinceramente, que um escritor se confessa, não no sentido religioso do termo, ao escrever?

capa_romance

conspiração dos antepassados

Acho que, de uma forma ou de outra, tudo aquilo que se escreve terá alguma relação com a experiência de vida do autor, embora essa relação possa ter maiores ou menores graus de aproximação à realidade. No limite, quando se fala em auto-biografia, essa relação será a maior possível, em outras abordagens já não será tão directa ou não será tão directa em todos os momentos ou de maneira tão flagrante. Pessoalmente, não gosto de ler romances directamente auto-biográficos e de escrever histórias auto-biográficas, porque a minha voz autoral, o meu universo autoral, preocupa-se com temas, imagens e ideias que vão totalmente ao encontro daquilo que é exterior à dita realidade, daquilo que é exterior ao convencional. Logo, a minha obra pouco ou nada tem de auto-biográfico, daí achar difícil que se analise nela algo assemelhado a uma confissão. Há algo de confessional, claro, chamemos-lhe isso, mas na composição do meu próprio universo autoral, ao qual a minha obra se dirige. Com efeito, seria muito estranho se o meu universo autoral não tivesse nada a ver comigo, não é? Mas a minha obra, em regra, não se dirige ao auto-biográfico, não se dirige directamente à minha experiência de vida de todos os dias. Dirige-se, sim, à minha vida imaginal, à minha sombra. A obra que escrevi que, até agora, contém maior profusão de elementos auto-biográficos ainda nem sequer está pronta: é a banda desenhada «Palmas Para o Esquilo», que está a ser desenhada pelo Pedro Serpa, o desenhador de «O Pequeno Deus Cego», e que será editada para o ano. Mas mesmo essa história, na qual existem muitíssimos episódios e elementos auto-biográficos, retirados directamente e sem pudor algum da minha infância, não é de modo nenhum uma história auto-biográfica. Todavia, concordo em absoluto que é preciso coragem para escrever, assim como é preciso coragem para desenhar, para compor, para filmar. Ser artista é muito trabalhoso, muito exigente. Cada vez é mais difícil.

2. Quando vejo um David Soares a dominar com mestria o romance fantástico, em que edita de rajada 4 romances em 5 anos, penso naturalmente que estará, certamente, a preparar outro romance. A verdade é que tal não acontece e deparo com trabalhos em banda desenhada, um ensaio e o teu último em spoken word. São experiências autorais que precisas explorar? São temas que foram imaginados especificamente para cada suporte? Ou servem para descansar, no sentido de não serem, em princípio tão exigentes como um romance?

o-evangelho_do_enforcado

o evangelho do enforcado

Tens razão, não estou a preparar outro romance: estou a preparar dois romances.
Um encontra-se todo estruturado e até iniciado, mas tive de interrompê-lo, porque o seu tom – o tom da obra – não estava a ir ao encontro do novo ciclo autoral que inaugurei com «Batalha». O que é que isto significa? Significa que, a partir de «Batalha», encontro-me num novo ponto de observação sobre o meu universo autoral: ou seja, sou um autor, tenho um universo autoral próprio, que é composto por determinadas imagens, ideias e referências, e, cingindo-me aos romances, com «A Conspiração dos Antepassados», «Lisboa Triunfante» e «O Evangelho do Enforcado» observei esse mundo autoral, interroguei esse mundo, sob um ponto de vista em particular, mas ao escrever «Batalha» mudei de ponto de observação, embora as imagens, as ideias, os temas e as referências que compõem o meu mundo autoral se mantenham as mesmas.

Sempre criei em ciclos, sempre alterei as minhas coordenadas de observação a partir de uma determinada obra e mantenho o novo ponto de observação até sentir a necessidade de encontrar outro. Nos romances isso aconteceu com «Batalha». Penso que «A Conspiração dos Antepassados», «Lisboa Triunfante» e «O Evangelho do Enforcado», embora sejam romances com intenções diferentes, com personalidades muito distintas, partilham o mesmo ponto de observação sobre o meu mundo, que é um ponto de observação diferente do de «Batalha»; mesmo sabendo que o mundo autoral de «Batalha» continue a ser o mesmo: até consiste no mesmo mundo ficcional – o mundo de «Batalha» é o mundo de «Lisboa Triunfante» e de «O Evangelho do Enforcado». As minhas bandas desenhadas mais recentes também têm um ponto de observação completamente diferente das mais antigas, embora o meu universo autoral continue a ser o mesmo. De maneira que tive de interromper o trabalho no romance todo estruturado e iniciado de que falei no início desta resposta, porque o tom da narração dele estava muito relacionado com o ponto de observação que abandonei com a escrita de «Batalha», logo tenho de encontrar um modo de integrar esse romance interrompido no tom que me interessa explorar neste preciso momento. No tom que, evidentemente, estou a explorar com um novo romance – diferente – que estou a estruturar e a corporizar. Já tenho escritos vários blocos de texto e muitas ideias apontadas e estou, pois, a construir uma estrutura e uma linha narrativa que me estão a dar um prazer enorme. É um romance que conto publicar no próximo ano.

os_anormais

os anormais: necropsia de um cosmos olisiponense

No que diz respeito à banda desenhada, à não-ficção e ao ‘spoken word’, são linguagens diferentes da do romance, mas não consistem em linguagens de repouso ou de experimentação. Quando concebo uma ideia para uma nova obra ela já vem com um carácter único que pede uma linguagem específica: ou pede para ser um romance, uma banda desenhada ou um ‘spoken word’. Não forço as ideias a serem obras que elas não querem ser e não as programo no sentido de fazer uma bd a seguir a um romance ou um romance a seguir a uma bd. Se tiver apenas ideias para bd durante um certo período, então só escrevo bd. Se tiver apenas ideias para romances durante um certo período, então só escrevo romances. Não programo estas coisas, as ideias é que surgem e pedem para ser o que são: elas já nascem bandas desenhadas, romances ou ‘spoken word’. É como ser-se menino ou menina. E a banda desenhada é uma linguagem muito exigente, porque escrevo as minhas bandas desenhadas prancha por prancha, vinheta por vinheta, descrevendo todos os planos e sequências, mais os textos: tenho de descrever por palavras, num argumento o mais completo e rigoroso possível, tudo aquilo que imaginei na minha cabeça de modo a ser compreensível para o desenhador. É por isso que também desenho ‘layouts’ dos meus argumentos para os desenhadores compreenderem com mais facilidade o universo autoral que imaginei. Quanto ao ‘spoken word’, o meu novo disco «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» é dos textos mais complexos e desafiantes que já escrevi nos últimos tempos: e não possui nenhum apoio em papel, foi feito para ser ouvido. É tão exigente quanto um romance – talvez mais, porque não tem a familiaridade do papel, é um trabalho que aborda sem tréguas o ouvinte com um texto multi-referencial e ultra-polissemântico.

3. Tens consciência que a tua escrita não é certamente muito acessível para um mercado de leitores mais habituado a, digamos, livros mais fáceis de digerir? Não te assusta saber que o mais certo é existir cada vez menos leitores capazes de te querer ler porque estamos numa época que tolera e recompensa o que é mau? Ou é isto uma falsa questão? Ou a ser um problema não te assusta porque sentes que o que importa afinal são as palavras por mais excêntricas que possam ser e que a exigência e a inteligência acabarão por vencer?

opequenodeuscego

o pequeno deus cego

Olha, acho que nem sempre a exigência e a inteligência acabam por vencer, para ser sincero. Muitas vezes, se calhar a maioria das vezes, ocorre até o oposto. De facto, a minha abordagem ao ofício da escrita faz-se pela porta grande da polissemântica, da polissemia, da polinização total entre palavras, entre neologismos e arcaísmos. Ao fim e ao cabo, o que é um arcaísmo? Para mim não existem palavras mortas, porque sou um escritor: eu amo as palavras, verdadeiramente. Não quero que elas morram, não sou nenhum coveiro das palavras. Se se é escritor para se ser coveiro, então não vale a pena.

Quando escrevo no Twitter estou a comunicar, por exemplo, mas será que se pode escrever um romance do mesmo modo que se escreve no Twitter? Quer dizer, pode-se e até acho que isso já foi feito, infelizmente, mas será literatura? Claro que não, mas, independentemente disso, anda por aí uma moda muito estúpida relacionada com micro-ficções e com micro-micro-ficções. Isso para mim é a antítese total do que a literatura deve ser. O Alexander Theroux diz que se formos a casa de alguém e virmos que não existe um exemplar do «Dom Quixote» estamos em maus-lençóis e devemos fugir o mais depressa possível e, embora ele esteja a ironizar, tem toda a razão, porque onde não um «Dom Quixote» há certamente um livro escrito por uma celebridade ou por um tarefeiro dos géneros que estejam na moda na altura ou uma micro-ficção ou, pior, poderá nem sequer haver livros.

Quem é que hoje em dia lê o «Dom Quixote»? Ou o «Gargantua» do Rabelais? O «Ada» do Nabokov? Ou o Laurence Sterne, o Dante, o Joyce, o Barão Corvo? O que mata a arte é achar-se que ela tem de ser um mimetismo do real – e o que mata a literatura é achar que um livro tem de ser uma coisa muito perceptível, muito escorreita, muito entretível. “Lê-se como um romance”, diz-se quando se quer sublinhar a faculdade que uma obra tem de ser de dócil assimilação, como se o romance fosse o epítome da docilidade, da mansidão. Até já vi à venda um livro que tinha uma cinta promocional com a frase «um livro muito fácil de ler» – isto é rigorosamente verdadeiro, o que é espantoso. Enfim, como é que se luta contra isto?

É claro que nem toda a gente tem capacidade para ler títulos como «Don Renato: An Ideal Content», escrito pelo Barão Corvo em 1909, que mistura inglês, italiano, latim e grego na mesma frase – às vezes na mesma palavra! – e apresenta um dos vocabulários mais intrincados e luxuriantes que tive oportunidade de encontrar num livro. Nem toda a gente tem capacidade para ler o «Ulysses», quanto mais o «Finnegans Wake», muito menos o ultra-erudito «Darconville’s Cat», mas isso, ao fim e ao cabo, é um problema dos leitores, não é um problema dos escritores. Eu escrevo aquilo que tenho vontade e necessidade de escrever: se me percebem, óptimo. Se não percebem… Que posso eu fazer? Não se pode ser compreendido por toda a gente ao mesmo tempo, não é verdade? Não posso é, entre aspas, descer a minha fasquia para ir ao encontro da média, digamos assim. Isso é impossível. Nesse sentido, fico feliz por saber que também tenho cada vez mais leitores, mesmo com toda a excentricidade e erudição do meu vocabulário e da multiplicidade de camadas dos meus livros. É sinal que ainda há muita gente que sabe ler e que procura livros que lhes estimulem o intelecto, livros que lhes venham a pertencer. Isto é muito importante, a pertença. A construção da biblioteca interior.

batalha

batalha

No século XVIII e ainda no século XIX os leitores andavam com um livro em branco no qual copiavam trechos mais significativos das leituras que iam fazendo e quem não tinha um caderno desses era considerado um bárbaro. Era uma espécie de construção do homem através do livro, da leitura. O homem era o somatório do que lia. Hoje ninguém se constrói a partir dos livros: constroem-se a partir dos maus filmes de entretenimento, dos jogos de vídeo, da má música popular, dos desportos de massas. Cultiva-se a aparência, mais do que o corpo saudável: o que interessa é parecer bem, não é estar bem, e, nessa óptica, devota-se mais tempo ao ginásio do que à biblioteca. Vivemos numa espécie de período neo-romano, em que o que interessa é o carácter utilitário e prático das coisas. Se algo não tem um propósito prático, imediato, então não serve, não presta. E sob essa égide rasura-se o ensino da filosofia dos currículos escolares, por exemplo. Falta compreender aquilo que os gregos sabiam e que os romanos desaprenderam: que até as coisas práticas têm de ser belas, têm de ter poesia. Se assim não for, é um vazio muito grande. É, de facto, a era do vazio, mas não do vazio construtivo, aquele vazio ocioso que nos permite ouvir, ver e ler com atenção e com propriedade memorativa. É, antes, o triunfo do vazio sorvedouro, do vazio aniquilador ao toque.

4. Concluo, pelo que vou lendo, que é muito importante para ti uma apurada investigação sobre o que te propões narrar. Não te aborrece saber que isso te impede de escreveres mais livros?

A investigação não me impede de escrever, de forma alguma. Pelo contrário, o ofício da escrita faz-se escrevendo e lendo. Quem não lê, não poderá escrever, mas é ler a sério, ler muitíssimo. Ler e pensar sobre o que se leu. Memorizar, reflectir. Isto é importantíssimo, andar a pé com a cabeça cheia de livros. Ao fim e ao cabo é a construção da biblioteca interior, como disse na resposta anterior. A coisa mais triste do mundo é um escritor inculto. O James Joyce dizia que tinha a mente de um ajudante de merceeiro. Deve ter sido numa altura em que os ajudantes de merceeiro seriam os fulanos mais geniais do mundo, de certeza. Estas falsas modéstias, enfim, fazem mais mal que bem, sinceramente, mas é imperdoável que o ajudante de merceeiro não saiba pesar os artigos e fazer contas (de merceeiro), não é? Porque é o trabalho dele, evidentemente. Se não sabe fazer contas e pesar os artigos está a ser um mau ajudante de merceeiro. Ora, o ofício do escritor é lidar com as palavras, com o conhecimento. Se não se domina estas áreas, se não se é bom com palavras e com o conhecimento, então também se está a ser um mau escritor. E quando é assim, não vale a pena insistir. Não vale a pena insistir, porque a arte sai de dentro para fora, logo não pode ser forçada. E não vale a pena insistir, também, porque a concorrência é numerosa e ferocíssima. A arte não se compadece com indivíduos de fraca vontade: ou se é artista ou não se é – e quando se é, é-se em todos os momentos, todos os dias, por mais difícil e angustiante que isso possa ser. O artista não é um indivíduo normal. Eu não sou um indivíduo normal. A normalidade usa fatos de treino para ir às compras ao supermercado, lê jornais desportivos e vê “reality shows”. A normalidade não me interessa.

lisboa-triunfante-capa-raposa

lisboa triunfante

5. Sentes que a tua literatura não é descartável e que envelhece bem?

Claro. Tenho o cuidado e o engenho de escrever livros que dificilmente se deixarão datar.

6. Não te assusta o rótulo de seres considerado o melhor autor português de literatura fantástica? E achas que o és não apenas porque escreves livros inteligentes, mas, acima de tudo, porque não tratas o leitor como um imbecil?

A minha obra insere-se no género fantástico, porque o meu universo autoral, próprio, distinto, pessoal, se preocupa com ideias, temas e imagens que vão ao encontro do inrotineiro, do sobrenatural, do esotérico, mas a minha obra não assenta e nunca assentou em lugares-comuns ou referências associadas a este ou àquele género literário, por isso, sim, pode considerar-se literatura fantástica, se se quiser, e com muito gosto da minha parte, mas por via do meu universo pessoal, não por via do mimetismo referencial – chavânico – que está na base do preconceito crítico contra a literatura de género.

De facto, a maioria desses livros é péssima e tem como único objectivo vender-se, não tem como objectivo ser literatura. Mas o mesmo pode dizer-se da maioria da literatura contemporânea, que também é uma maioria má que se farta, daí que a pertinência e qualidade de um livro não se relacionam com a sua taxonomia num ou em outro género. No que diz respeito à literatura dita fantástica, às vezes encontro mais imaginação e arrojo em livros que parecem estar fora dela, pois possuem uma imaginação mais desafogada, livre das tais cavilhações de género que só servem finalidades comerciais, porque o cliché, enquanto unidade constitutiva, por força da familiaridade, tem sempre mais aceitação imediata que algo exótico. Quantos fãs de literatura fantástica já terão lido obras verdadeiramente originais, como o maravilhoso «The Chess Garden» de Brooks Hansen, em vez das inanidades pseudo-medievaleróticas e quejandos que passam por fantásticas hoje em dia? De fantástico terão pouco, de facto, e de literatura, então, nada têm. Pode ser ingenuidade minha, mas fico muitas vezes surpreendido com a impunidade com que se publica o lixo que ocupa espaço nas livrarias.

Mas, na verdade, se acham a minha obra fantástica ou não, no fundo, não me interessa nada. É fantástica, é desfantástica? É o que quiserem que seja, porque a interpretação é exterior à obra, não a contamina. Os livros estão escritos, são lidos, apreciados, criticados, fica aquilo que quem os ler for capaz de entender e retirar. Se forem leitores cultos, inteligentes, que gostem de ler, que não se sintam diminuídos por aprenderem coisas e palavras novas, vão retirar bastante, ao contrário daqueles que apenas querem encontrar coisas e palavras que não os desafiem, aqueles que querem apenas entreter-se na acepção mais elementar.

No fundo, comunicar não me interessa. Nenhum artista autêntico está interessado em comunicar, nem poderá esperar que isso aconteça, a não ser que esteja disposto a ir bater à porta de todo o seu público a perguntar a cada indivíduo o que achou da obra, porque isso é que é comunicar. Ora, eu estou interessado em transmitir, que é diferente. É por ser artista, por ser escritor, que tenho ideias para transmitir, ideias que eu considero importantes para o público. Acho que a diluição da fronteira entre artistas e público está a matar a arte. Bem sei que estamos na era do Facebook, do Twitter e afins, que são mais ou menos úteis em divulgar aquilo que se faz, mas acho que faria bem a todos se se reforçasse essa fronteira.

7. O que podemos esperar para breve de David Soares no futuro próximo?

Consideremos o próximo ano como esse futuro próximo: um novo romance e um novo livro de banda desenhada.

as atribulações de um português no porto

11 Mar
11.03.2012

E antes que digam que existe um livro com um nome semelhante ao título desta entrada, eu coloco-o aqui: “Les Tribulations d’un Chinois en Chine” de Jules Verne. Pronto!

Ontem o dia correu muito bem. O almoço do Leituras de BD estava devidamente condimentado; espectacular companhia.

Quanto ao MAB – Festival Internacional de Multimédia, artes e BD, como ia com o pessimismo instalado, até gostei. Teria alguns aspectos negativos a apontar, mas o facto de ter efectuado umas boas compras, conhecido pessoal fantástico, e ter trazido uns valentes rabiscos, evita frases mais tristes. Além do mais tive o prazer de ver em primeira mão a exposição de Zakarella.

Contudo este post não servirá para falar do MAB – Festival Internacional de Multimédia, isso ficará para outro, mas das minhas aventuras malucas, que comprovam muita coisa ou nada.

Os apontamentos:

      1. Fui de comboio
      2. Como tipo precavido que sou, depois de ver o horário do comboio de regresso, marquei como alarme a hora de partida no meu Nokia x6 para não o perder.
      3. Às 17h45m o alarme disparou. No visor indicava 18h00. Com apenas 15m para chegar ao destino e como não sabia a forma mais rápida de chegar à estação de São Bento pedi indicações à diabólica Virgulina Labareda.
      4. Recordei-me que tinha deixado na mão do João Mascarenhas o Punk Redux, o novo álbum do Menino Triste. Fiquei mais que doido.
      5. Pesquei o marcador de livros da Dr. Kartoon, telefonei para a loja de Coimbra, pedi o número de telemóvel do João Miguel Lameiras e pedi-lhe para deixar o álbum com Nuno Amado – agora vou ter mesmo de pagar os portes!
      6. Perdi-me, temporariamente. Sabia que a rua de referência tinha uma data, mas só me lembrava do 25 de Abril. Como fui capaz de me esquecer de um livro!
      7. Quando me lembrei do 31 de Janeiro foi sempre abrir – claro que a descer ajuda.
      8. Chegado à estação de São Bento, pisco os olhos para o relógio de pulso que me indica 18h30m – merda, perdi o comboio.
      9. Ataco a tabela de horários Porto-Vigo para ver a alternativa e reparo que não existe qualquer comboio às 18h00, mas sim às 18h45m
      10. Amaldiçoo o Nokia x6 e especialmente o sujeito que gravou o alarme. Depois desta confusão ainda tenho 15m – nada mal!
      11. Na bilheteira: “Um bilhete para Barcelos”.
      12. “Não há hoje mais comboios para Barcelos devido à greve”.
      13. “Greve! Mas está no placard o comboio das 18h45m para Braga”.
      14. “Não tem ligações para os regionais.  A greve é dos regionais a partir das 16h00. Só tem comboio até Nine.”
      15. Ainda na bilheteira: “A sério?!! Que seja. Um bilhete para Nine.”
      16. Continuando na bilheteira: “Mas, mas… depois o senhor não tem comboio para Barcelos!”
      17. “Faço o resto do percurso a pé pela linha. O meu Nokia servirá de lanterna.” Fiquei um pouco melhor com a expressão do homem, apesar de ele ter a obrigação de não revelar qualquer surpresa perante um simples sujeito de chapéu aparentemente amalucado.

Ainda tive tempo de beber um capuccino extraído daquelas máquinas automáticas e comprar uma garrafa de 1,5l antes de entrar para o Comboio. Ufa!!!

lapdance 1.00

31 Jan
31.01.2012

LapDance encontrava-se sentado no seu reluzente sofá de couro, nádegas nuas placidamente pousadas numa toalha do Neco – detestava ter as nádegas coladas ao couro. Para bem da verdade LapDance estava praticamente nu, exceptuando ainda ter colado ao corpo um farrapo, que com esforço alguém poderia dizer ser uma velha camisola do clã benfiquista e que era uma segunda pele, a desbotada estampagem tornava os olhos da águia horrivelmente tristes; meias rotas nos hálux por unhas grossas, afinadas que teimavam em rasgar a malha, completavam a parca indumentária.

De perna direita ligeiramente esticada sobre o sofá, a outra pousava na alcatifa pintada por imensos invólucros vazios de Mon Chéri, brincava com uma espinha que no testículo esquerdo teimava em florescer sazonalmente, sempre no mesmo local. Dizia vaidoso a si próprio que tinha, devido a esta idiossincrasia genital, um testículo dominante.

Olhos sorumbáticos pasmavam-se com as imagens do sétimo segmento do Fantasia 2000. Ao som da marcha número três de Edward Elgar iniciou com pompa e circunstância uma massagem de descompressão a custo zero. Raramente precisava de realizar esse trabalho manual, contudo quando o fazia era sempre à velocidade vertiginosa e inconstante de um caracol. De muitas decisões que tomou a de ter um orgasmo diário não era esquecida. E como os engates de hoje não se tinham transformado em amantes (a feromona do desespero afastava compulsivamente o sexo feminino); e como o reduzido encaixe de capital mensal não lhe permitiam pensar em recorrer a uma profissional (já sabia por experiência que não saindo de casa não colhia dinheiro) aí se encontrava com o modo autodidacta de satisfação ON.

Este mês sentiu-se simultaneamente optimista e preguiçoso. Perante a indecisão da escolha, optimista ou preguiçoso, o ócio de ermitão tomava sempre as rédeas. Quando a confiança venceu a disputa o último dia do mês estava ali ao virar da esquina.

O telefone tocou, desviando a sua atenção de um pénis ainda indolente que lhe recordou uma alheira mal confeccionada. Atendeu a chamada em alta voz, mas não disse nada. Limitou-se a esperar.
‘Lap estás aí?’
‘Diz coisas!’
Quando ouviu, ‘Preciso de um favor teu!’, já estava de pé junto ao móvel da televisão a beber um gole de vinho do Porto de lavrador on the rocks. Não respondeu. Olhou para um pacote ainda com um triste Mon Chéri. Decidiu, desta vez, não misturar os sabores.
‘Lap estás aí?’
‘Estou e não sei se te posso ajudar. É que estou com uma tarefa em mãos.’ Animada pela conversa ou pelo ardor frio do álcool a alheira começou a enrijar-se.
‘Ainda não disse nada e já te estás a por de fora? Foda-se!’ Qualquer obscenidade dita pela boca da Nectarina, nome com que baptizou Catarina, gerente da casa de multi-serviços Bolo-Rei, soava-lhe tão sensual.
‘Tens razão, Atira.’ LapDance sabia que não podia recusar o pedido qualquer que ele fosse. Devia-lhe muitos favores, mas gostava de mostrar que estava no controlo da situação – até quando ficava por baixo. Admirava o facto de ela nunca lhe ter exigido a cobrança dos serviços prestados, apesar de não precisar de o fazer; LapDance era um bobi que não ferrava uma mão que lhe dava muito de comer.
‘Preciso que fiques à porta do clube. O Big enviou-me um sms a dizer que tinha de resolver umas questões e hoje tenho a sensação que posso ter chatices. Conto contigo?’ Estranhou o Big ter questões. O Big não tinha problemas a resolver, gerava problemas aos outros nos quais a solução de 1+1 nunca era igual a dois – Big igual mestre do caos. Se fosse professor só utilizaria a cor vermelha.
‘Estou de saída, mas desta vez pagas em géneros.’ Já estava no quarto a terminar de vestir o seu fato Alpinestars preto e ainda ouvia a cadeia balanceada de palavrões a sair em resposta do alta voz. Terminou de calçar as botas, pegou nas luvas e enfiou o seu capacete Nexx XR1R. Ali estava LapDance frente ao espelho do roupeiro: uma estrela em brilhante negro.

Foi com as palavras posso ter chatices a ruminar que arrancou ansioso na sua Honda CBR 600 F equipada com uma câmara GoPro HD Hero2. Se o top speed real da mota era de 260 km/h o mostrador queimava sem soluços os 280 km/h.

[em continuação…]

pensamentos de sanita versão 1.0.a

11 Jan
11.01.2012

# Será que um picheleiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma porca solta!”
# Será que um carpinteiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma lasca no dedo!”
# Será que um serralheiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma limalha no olho!”

# E o mesmo informático que pode morrer afogado na praia gritando F1, F1 como pedido de ajuda, pode dar-se ao luxo de solicitar favores sexuais com a frase “gostava que acedesses ao meu disco duro.”

feto-azevinho 1.4

30 Jun
30.06.2011

Sinceramente não sei qual o nome desta planta, mas pela pesquisa que andei a fazer poderá ser “feto-azevinho” – tenho imensas dúvidas.

A série de fotos que publico foram realizadas o ano passado durante o trajecto que percorro a caminho do meu local de trabalho. Foi a primeira vez que segui de perto a transformação de uma folha?
Inicialmente pensei que eram “bichos”, uma “doença” de vermelho, mas com o decorrer da mudança é fácil de ver que estava mais que enganado.

Se alguém souber o nome correcto da planta agradeço que comente; será uma ajuda muito (muito) preciosa.

feto-azevinho 1.1

30 Jun
30.06.2011

Sinceramente não sei qual o nome desta planta, mas pela pesquisa que andei a fazer poderá ser “feto-azevinho” – tenho imensas dúvidas.

A série de fotos que publico foram realizadas o ano passado durante o trajecto que percorro a caminho do meu local de trabalho. Foi a primeira vez que segui de perto a transformação de uma folha?
Inicialmente pensei que eram “bichos”, uma “doença” de vermelho, mas com o decorrer da mudança é fácil de ver que estava mais que enganado.

Se alguém souber o nome correcto da planta agradeço que comente; será uma ajuda muito (muito) preciosa.

feto-azevinho 1.0

30 Jun
30.06.2011

Sinceramente não sei qual o nome desta planta, mas pela pesquisa que andei a fazer poderá ser “feto-azevinho” – tenho imensas dúvidas.

A série de fotos que publico foram realizadas o ano passado durante o trajecto que percorro a caminho do meu local de trabalho. Foi a primeira vez que segui de perto a transformação de uma folha?
Inicialmente pensei que eram “bichos”, uma “doença” de vermelho, mas com o decorrer da mudança é fácil de ver que estava mais que enganado.

Se alguém souber o nome correcto da planta agradeço que comente; será uma ajuda muito (muito) preciosa.

is a cross? yes it is!

05 Nov
5.11.2010

i just hid it with a little work and very little divine help. i am really a naughty boy.

porquê sr. matias? (excerto)

01 Set
1.09.2010

Já não era apenas quando chegava de férias que encontrava o meu porta lápis desprovido de canetas, de lapiseiras, de lápis, de tesoura, de corrector, de réguas, de afia lápis, de corta papel, de borrachas, de tira-agrafos, de x-acto, mas tal coisa nunca me ralou, apenas perdia por tradição alguns minutos a pensar quem teria levado o material tendo em conta que eu era o único funcionário no escritório, porque assim começava o trabalho com novo material e adoro especialmente afiar o novo lápis, a ponta fica fina como um estilete; é a única tarefa que realizo com imensa atenção e prazer, mas actualmente era a qualquer momento que as minhas coisas saíam do lugar e o culpado tinha agora rosto. Quando dou por mim até a minha dedeira de borracha estava a ser usada pela minha nova colega de escritório. A sua mesa de trabalho está colada ao tampo angular colocado à direita da minha secretária. Eram ainda 09h45m e depois de diligentemente alfabetizar uma série de documentos e esticar a mão para pegar numa pinça clipe que sabia estar, cegamente, sempre naquele sítio da secretária encontro o espaço vazio. A pinça clipe estava, agora, pendurada no lado esquerdo do calendário de mesa da nova colega, que publicita aquele restaurante que serve comida intragável, sem qualquer objectivo que não uma pretensa decoração. Para agravar o meu estado de espírito enquanto fui buscar outra pinça clipe uma das folhas alfabetizadas foi virada de costas para a colega tomar nota de um número de telefone – usou uma caneta. Pressentia nas costas uma sensação de gozo silenciosa sempre que me deslocava para trazer novo material de trabalho. Suava nessas deslocações. Não pensava num buraco, mas numa enorme cratera. Não sou cobarde. O que detesto são confrontações físicas; penso que a inteligência supera qualquer adversidade.

informações: apenas um extracto da história
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