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Quando Philip deixou de crer no cristianismo, sentiu que um grande peso lhe fora tirado dos ombros; despojando-se da responsabilidade que sobrecarregava cada acto, quando cada acto era de infinita importância para a salvação da sua alma imortal, experimentou uma viva sensação de liberdade. Mas agora sabia que isso fora uma ilusão. Ao abandonar a fé em que fora criado, mantivera intacta a moral que era sua parte integrante. Resolveu, então, pensar por si mesmo sobre as coisas. Determinou não se deixar influenciar por preconceitos. Descartou-se de vícios e virtudes e rejeitou os princípios assentes do bem e do mal, com a ideia de encontrar por si próprio uma norma de vida.
A Servidão Humana por Somerset Maugham

Obra poderosa que foi, na semana passada, relida com os mesmos olhos, mas com outro saber; são mais 20 anos em cima das costas.

a viagem de théo

— Vou-te contar uma história zen — começou ela. — Um dia, um monge foi visitar um mestre e disse-lhe: «Vim sem trazer nada». Sabes o que é que o mestre lhe respondeu? «Então pouse-o».
— Mas ele não tinha nada.
— Tinha sim. Não trazer nada é ter a ideia de que se poderia trazer qualquer coisa. O monge não percebeu. Zangou-se. Então, calmamente, o mestre disse: «Por favor, pega nisso e volte para casa». Pousa o teu nada de hoje, Théo. Porque não perdeste nada.

página 370

Ao contrário d’ O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder, publicado em 1991, que é um guia de filosofia e por isso para mim muito mais fácil de ler, A Viagem de Théo é uma “viagem” pelas religiões. E se há algumas pelas quais me movimento com alguma facilidade, naturalmente as monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo), houve outras que foram de dificílima digestão. O hinduísmo foi a religião que me causou mais vontade de arrumar o livro na estante. Ainda bem que de seguida foi refrescado pelo budismo. Recuperei a fé no livro e terminei a leitura de 594 páginas.

Apesar de não ser uma pessoa mística é sempre agradável mergulhar nas crenças que tentam racionalizar o irracional.

comer gelados

Relutantemente acordado, ainda eram 14.05, feri de morte um gelado perna-de-pau.
O calor a isso me obrigou. E é sempre adorável sentir nos lábios e na língua uma doce frescura. E ao trincar a ponta do gelado reflecti se o jeito como atacamos um gelado diz algo sobre a nossa personalidade.

Andarei a revelar os segredos da minha alma pela forma como mordo os gelados?

tengo la camisa negra

Tengo la camisa negra,
ya tu amor no me interesa;
lo que ayer me supo a gloria
hoy me sabe a pura…
Miércoles por la tarde y tú que no llegas,
ni siquiera muestras señas;
y yo con la camisa negra
y tus maletas en la puerta.

Mal parece que solo me quedé,
y fue pura todita tu mentira;
qué maldita mala suerte la mía
que aquel día te encontré.

Por beber del veneno malévolo de tu amor,
yo quedé moribundo y lleno de dolor;
respiré de ese humo amargo de tu adiós,
y desde que tú te fuiste, yo sólo tengo…

Tengo la camisa negra
porque negra tengo el alma;
yo por ti perdí la calma
y casi pierdo hasta mi cama.

música por Juanes

Hoje os professores passeiam-se de negro.
Falta, contudo, um toque musical ao uso da indumentária negra. Este é o meu conselho.

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Meu maior medo, uma vez constada a verdade, foi que não havia mais esperança para mim. Perdi a oportunidade única. Tinha sido um falso cristão, estabelecendo meu próprio modelo de cristianismo, que foi feito para uma vida de liberdade, mas que me custou a alma.
página 179

Tim Lahaye e Jerry B. Jenkins, Deixados Para Trás // título original: Left Behind // tradução: Rubens Castilho // editor: United Press Ltda, 1997

maurice polydore-marie-bernard maeterlinck

a vida das abelhas

Maurice Polydore-Marie-Bernard Maeterlinck [29.08.1862 (Gand) – 06.05.1949 (Nice)] autor dramático, poeta e filósofo ensaísta belga de língua francesa que em 1911 recebeu o prémio Nobel da Literatura.

O seu nascimento ocorre no seio de uma próspera família. Seu pai, Polydor Maeterlinck, era um notário reformado e sua mãe, Mathilde (Van den Bossche) Maeterlinck era a filha de um advogado influente. Maurice Maeterlinck frequentou o colégio jesuíta de Ste.-Barge e ficou interessado em poesia na sua juventude. A sua família não aceitava os seus devaneios com a poesia e foi obrigado a estudar direito para na Universidade de Ghent.
Depois da sua graduação continuou os seus estudos em Paris. Aí conheceu o poeta simbolista Stéphane Mallarmé e Villiers de l’Isle-Adam.
A sua colaboração em revistas “d’avant-garde” provocou a interrupção de sua carreira de advogado.

Em 1889, publica o seu primeiro livro de poemas intitulado “Les Cherres Chaudes”, e revela o seu gosto pela mistura de elementos decadentes e simbólicos. Cria uma atmosfera metafísica.
Esta atmosfera caracteriza toda a sua obra.
No mesmo ano produz, também, a sua primeira peça de teatro “La Princesse Maleine” que dá origem a um artigo entusiástico no Figaro por d’ Octave Mirbeau e o reconhecimento do público. As obras sucedem-se: “L’ Intruse” (1890), “Les Aveugles” (1890), “Pelléas et Mélisande” (1892), “Alladines et Palomides” (1894), “Intérieur” (1894), “La Mort de Tintagiles” (1894). Debussy utiliza a “Pelléas et Mélisande” como um libreto para a sua opera com o mesmo nome.

Em 1895 Maeterlinck conhece Georgette Leblanc, actriz e cantora de opera. Irmã de Maurice Leblanc criador do famoso cavalheiro criminoso Arsène Lupin. Apesar de não conseguir obter o divórcio de seu marido espanhol, vivem juntos os próximos 23 anos. Escreve para ela várias peças: “Aglavaine et Sélysette” (1896), “Ariane et Barbe-Bleue” (1901), “Monna Vanna” (1902).
Seguem-se “Soeur Béatrice” (1904), “Le Miracle de Saint-Antoine”(1904), “L’Oiseau Bleu”(1908), a sua peça mais famosa, colocada em cena inicialmente por Konstantin Stanislavski no Teatro de Arte de Moscovo, é uma alegoria fantástica desenvolvida como uma peça para crianças, que já foi traduzida em diversas línguas e adaptada também ao cinema – 1940 com Shirley Temple de Walter Lange e 1976 com Elisabeth Taylor, Jane Fonda de George Cukor. “L’Oiseau Bleu” retrata a história de duas crianças, filhas de um pobre lenhador, que adormecem após um desgostoso Natal – Mytyl e Tyltyl. Sonham com a fada Berylune que lhes pede para encontrarem a “ave que é azul”. Elas iniciam a sua viagem com um diamante que lhes permite ver as almas dos objectos que os rodeiam. Visitam a Terra da Memória. Na floresta são atacadas por animais e árvores mas o fiel cão salva a vida de Tyltyl. A jornada continua através do Palácio da Felicidade e do Reino do Futuro antes do regresso a casa para serem acordados pela mãe. A vizinha Berlingot (a fada Berylune) suplica à pequena ave de Tyltyl pelo seu filho moribundo e Tyltyl repara que a ave é azul e é aquela que estavam à procura. A criança recupera, mas a ave foge e a criança pede à audiência para a devolver.

o pássaro azul

Escreve “Marie Magdeleine” (1909) e outras peças de menor importância.
À medida que o seu interesse pelo teatro esmorece elas tornam-se cada vez mais raras.

Em 1896 Maeterlinck muda-se com Leblanc para Paris. Dedica-se à escrita de ensaios filosóficos e científicos de tendências metafísicas e metapsiquicas. Surgem, assim, “Le trésor des humbles” (1896), “La sagesse et la destinée” (1898). “La Vie des abeilles” (1901), que conheceu o sucesso no mundo inteiro, desenha analogias entre a actividade das abelhas e o comportamento humano. A apicultura foi um hobby desde a sua juventude.
Nesses ensaios afasta-se do negativismo de Schopenhaur para um optimismo mais moderado.
Segundo Maeterlinck é possível para o ser humano alterar o seu destino se assim o desejar. O ser humano é duplo: tanto vive uma existência interior como exterior.
Escreve “L’ Intelligence des fleurs” (1907), “L’ Hôte inconnu” (1917), “La Vie des termites” (1926), compara os sistemas totalitários com a vida das térmitas e, “La Vie des fourmis” (1930).

Durante a 1ª Grande Guerra Mundial defende a causa dos aliados na Europa e nos Estados Unidos. A sua relação com Leblanc termina e em 1919 casa com Renée Dahon, que tinha actuado na peça “L’Oiseau Bleu”. Vivem fora de Paris no Château de Médan, mas o inverno é passado numa villa perto de Nice apelidada Les Abeilles.

Na véspera da 2ª Grande Guerra Mundial vai para Portugal sobre a protecção de António Salazar e voa depois para os Estados Unidos. Os anos entre as guerras foram difíceis. Os seus trabalhos foram ignorados e não tinha a possibilidade de receber royalties das vendas dos seus livros na Europa. Em 1947 volta a Nice.

Publica em 1948 uma última obra de carácter biográfico, “Bulles bleues”.

Maeterlinck morre na sequência de um ataque de coração em 06.05.1949. Foi enterrado, de acordo com a visão do seu mundo agnóstico, sem cerimónias religiosas.

[hr]

mãos limpas, mas vazias

O inferno já estava cheio e fora havia ainda uma longa fila de pessoas para entrar. O Diabo veio cá fora e proclamou:
— Há só um lugar livre e, como é lógico, deve ser para o maior pecador.
E começou a examinar os pecadores que estavam na fila. A certo momento viu um homem em quem não tinha reparado e perguntou-lhe:
— Tu o que é que fizeste?
— Nada. Eu sou um homem bom e estou aqui por engano.
— Certamente fizeste alguma coisa. Todos fazem alguma coisa.
O homem convencido disse:
— É verdade. Mas eu nunca me meti em nada. Vi como os homens perseguiam outros homens, como as crianças morriam de fome e eram vendidas como escravas, vi como os idosos eram marginalizados como se fossem lixo… mas eu resisti sempre à tentação dessas coisas sujas e nada fiz. Nada.
— Tens a certeza que viste isso tudo? E não fizeste nada?
— Vi tudo com os meus olhos.
O Diabo insistiu:
— E não fizeste nada?
— Não.
Então o diabo sorriu e disse:
— Entra meu amigo. Este lugar é para ti.

Almanaque das Missões // editora: Editorial L.I.A.M., Lisboa, 2005 // texto: página 17

na corda bamba

É preciso uma grande pressão para nos levar a compreendermos-nos. Por outro lado, a civilização ensina-nos que cada um de nós vale um preço inestimável. Há, portanto, este dois preparativos: um para a vida e outro para a morte. Por isso nós avaliamo-nos e temos vergonha de nos avaliar-mos. Fomos treinados no silêncio e, se um de nós tira ocasionalmente as suas próprias medidas, fá-lo friamente, como se estivesse a examinar as unhas, e não a alma, franzindo o sobrolho às imperfeições que encontra como se fossem uma lasca ou uma sujidade.(…)
Mas eu tenho de saber o que eu próprio sou.
(…)
Sinto que sou uma espécie de granada humana a que tiraram a espoleta. Sei que vou explodir e estou constantemente a antecipar essa altura, gritando com um desespero fervoroso: «Bum.», mas sempre antes do tempo.
Goethe tinha razão num sentido: a vida que continua significa expectativa. A morte é a abolição da escolha. Quanto mais limitada é a escolha, mais perto estamos da morte. A maior crueldade é cortar esperanças sem tirar completamente a vida.

página 120 e 149

Saul Bellow, Na Corda Bamba // título original: The Dangling Man // tradução: Maria Adélia Silva Melo // editor: Dom Quixote, Lisboa, Dez. 1976

os impostores, outra citação

Anima Mundi é a fundamental “Alma do Mundo“. É latim. Anima = alma, vida. Mundi = o mundo. A Anima Mundi é o espírito cósmico que impregna todos os seres vivos, e, diz-se também as coisas inanimadas. Eu acredito nisso. Uma casa velha tem um espírito e um carácter próprios. Quantas vezes não viu já um quadro que não gosta do lugar que ocupa na decoração geral, e se revolta, recusando manter-se direito? As cadeiras não nos fazem ir contra elas quando querem chamar a atenção, e os degraus das escadas não nos passam rasteiras quando estão chateados?

pág. 22

Alfred Bester, Os Impostores
título original: The Deceivers
tradução: Maria Nóvoa
editor: Europa-América, Mem Martins, 1984