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o fim da solidão de benedict wells

Jules Moreau tem onze anos quando os pais morrem num acidente de carro. Nessa noite, a sua infância termina. Segue-se a ida para um colégio interno, juntamente com os dois irmãos mais velhos. Pouco a pouco, os laços que os unem quebram-se. Jules isola-se, alimentando-se das suas memórias; Marty refugia-se ferozmente nos estudos; e Liz procura todas as formas de evasão possíveis para preencher o vazio.
O único consolo do protagonista advém dos momentos que passa na companhia de uma menina ruiva chamada Alva. As duas crianças lêem, ouvem música, partilham o silêncio das tardes no colégio. E nunca falam sobre si mesmas. Quinze anos mais tarde, os irmãos afastaram-se irremediavelmente uns dos outros. Jules, que continua a reviver o passado interrompido, apenas encontra alento no sonho de se tornar escritor e na ânsia de reencontrar Alva. E quando, por uma vez, tudo parece subitamente possível, uma força invisível – talvez o destino – volta a intervir.
O fim da história de Jules está ainda por acontecer.

Edições Asa

Excelente livro. Depois do rotundo falhanço do “The Last Emperox” (que nem serviu como aperitivo) nada como sentir uma escrita profunda, perturbadora e bela na ousadia como trata as relações humanas.

Aqui o autor fala do amor, da amizade, das perdas, da solidão, do silêncio, dos encontros e reencontros com uma delicadeza que transcende as páginas e toca no coração do leitor. Recomenda-se sem ressalvas.

Tradução de Paulo Rêgo

felizes os felizes por yasmina reza

Boa leitura. Gostei da escrita, digamos que minimalista.

Os capítulos, são 21, têm como título o nome de cada uma das personagens que se vão cruzando, às vezes em apenas pequenas referências, ao longo da narrativa.

Cada capítulo narra episódios diários tão comuns que são hilariantes.

Temos episódios que tratam de amor, de desejo, de luxúria, de humilhações, de loucura, de sussurros, de amizade, narrados brilhantemente.

Adorei descobrir esta escritora.


Ocorre uma deselegância no primeiro capítulo, Roberto Toscano, quando a escritora refere que a canção Sodade é portuguesa (página 17). A canção Sodade é cantada por Cesária Évora de nacionalidade cabo-verdiana.

Perdi um amigo que tinha uma visão do mundo. É bastante raro. As pessoas não têm visão do mundo. Têm apenas opiniões.
Felizes os Felizes por Yasmina Reza (página 128)

sobe a maré negra por margaret drabble

Concordo que a história está imbuída de um ligeiro, agradável, humor negro, o que é agradável quando trata da velhice, algo que pode ser angustiante – sentir o aproximar da morte.

O que torna uma história cheia de “bons momentos” são os diálogos, os monólogos não verbais das personagens. A combinação de cenas divertidas com cenas dramáticas oferece ao leitor alegria quanto basta.

A Maré Negra acaba não por ser uma história sobre a negação da morte, mas uma celebração da vida através da amizade, do amor, das relações pessoais, da constante descoberta de que o mundo ainda é um lugar encantador para viver.

pollice verso

O meu texto pollice verso foi publicado no número 220 (fev.2017) do Le Scat Noir – Black Scat Books e é dedicado ao meu eterno amigo Jorge Dias.

lol, camouflage 8.1 – ishmael

The ship raced fast and the Jolly Roger waved proudly. Kissed by a steady wind the “Black” galleon caressed the waves sensuously – elegant. The buccaneers, led by Black Dog, knew that they would find good fortune as soon as they left the Bristol Harbor behind. Black Dog always had an ace up his sleeve, but this time he had the full deck. Black Dog obtained from Walter Raleigh, his great friend still imprisoned in the Tower of London for having seduced a handmaid of Queen Elizabeth I, the indication that El Dorado was located in the area of Guyana; in the tropical rain forest that extends from the mouth of the Orinoco to the Amazon: a better tip than this, impossible. Black Dog did not need great encouragement to aim to confirm firsthand the confidential information. If this proved to be true, Walter Raleigh would be a great friend; if it were false, Raleigh would not go through the shame of having been deceived. There are currently not many friends, true friends, like Black Dog: right? A golden friendship!
They landed on Tortuga for a light decompression and refueling. When they spotted Barbados, Black Dog ordered the crew to assemble on the deck. From the top of the castle, he told them they were going in search of the mythical El Dorado. His companions of fortune shouted sonorous “Hurrahs” and in joy sang the song:
‘Fifteen men on the dead man’s chest
Yo-ho-ho, and a bottle of rum!
Drink and the devil had done for the rest
Yo-ho-ho, and a bottle of rum!’

[… an excerpt …]

a caminho do desconhecido

Un ami qui meurt, c’est quelque chose de toi qui meurt.

Gustave Flaubert

 

Hoje a negritude passeia comigo de mãos dadas.

Adeus amigo. Ficas-me na memória para todo o sempre.

imagem, sou um fadista!

Nunca pensei que o meu pedido de uma imagem “pro bono” para ilustrar uma pequena história fosse abraçado; não convivo, infelizmente, com desenhadores e/ou ilustradores, nem tenho algum entre as minhas amizades, para pedir um desenho entre dois golos de cerveja e um sorver de caracóis. Valorizo tanto a profissão de ilustrador, como qualquer outra e sei que ninguém trabalha para aquecer, mas fui, à falta de melhor expressão, “à pesca”.

Fiquei, pois, não apenas espantado pela resposta positiva de Esgar Acelerado, mas, acima de tudo, pela rapidez com que ele “ofereceu” uma ilustração brilhante – sinto-me estonteado.

Já conhecia o trabalho do artista, apesar não saber o nome dele; ao ler-se uma revista fixamos o nosso olhar em dada ilustração e reconhecemos os mesmos traços que vimos noutro lado, numa exposição, num cartaz… mas o artista continua muita das vezes anónimo, letargia MODE ON. Felizmente, devido a um maior amadurecimento, ajudado pela Internet, esta preguiça é agora inexistente.

Curiosamente sendo eu de Arcozelo (Barcelos) é em Vila de Conde/Póvoa de Varzim, a minha segunda cidade (passei aí durante muitos anos grandes momentos de felicidade), que Mr. Esgar assenta os pés – aqui tão preto.

Só me resta agradecer a oferta e prometo-me retribuir, assim que puder, a amabilidade.

selecção

Existem antigos(as) colegas de escola e não só que se cruzam comigo na rua e me cumprimentam. A minha primeira expressão é uma natural cara de assombro. Questionava-me mentalmente “Mas de onde é que tu me conheces?” Não chegava a nenhum resultado. E à pergunta “Não sabes quem eu sou?”, respondia “Não estou a chegar lá”. Claro que, depois, a pessoa se identificava, se explicava, se localizava no tempo e ocasionalmente despertava eu mim alguma memória, mas, mais frequentemente, nem um farrapo se exibia. O que era constrangedor. Pensei até quarta-feira passada que devia existir um problema comigo. Serei um pouco ou até exageradamente “despistado”? Terei um problema de memória? Porque motivo estou a olhar para ti e a tua face não me diz nada de nada, zero? Porque razão te coloquei num abismo qualquer? – perguntei-me imensas vezes.

paus e caras

Afinal descobri que existe um motivo válido e racionalmente coerente para não ver rostos nas pessoas com que me cruzo e que já fizeram parte da vida social e/ou académica ao longo de já 41 anos. A razão é pela simplicidade de uma beleza etérea e resume-se a não ter considerado essas pessoas como, digamos, uma mais-valia para os meus relacionamentos. E efectuar uma profunda selecção das minhas relações/amizades só me torna especial. Sou diferente nesta selecção “social” e ao ser muito exigente comigo, e aqui está a outra face – nocturna – da mesma descoberta, sou-o igualmente com os meus amigos.

Ficar satisfeito por este romper do sol, apesar de algumas nuvens persistentes, é dizer pouco: fiquei exultante, emocionalmente embriagado. Que continuem as descobertas.

vintage? acho que não!

Quando escrevo desabafo. E tendo em conta que este meu recanto é raramente visitado, e ainda bem, por quem me conhece, posso dedicar-me a exprimir algumas ideias.

Tenho de reconhecer que não sou um bom avaliador de carácter; ou, para proteger a minha auto-estima, direi que sou um bom avaliador de carácter que se engana ocasionalmente. Mas o que me aborrece seriamente é avaliar alguém erradamente duas, três ou mais vezes. E o erradamente é sempre prejudicial para o meu lado contabilizado principalmente em número de livros “emprestados” e outras vezes em euros.

Irei futuramente ser coerente com o meu eu antigo que para emprestar alguma coisa à mana era preciso ser Fevereiro 30. Assim, e apesar de já ter existido vitimas, regressei definitivamente ao NÃO: não emprestarei mais livros, mais DVDs, CDs, nunca mais. Não vejo isto como um acto de egoísmo quando a maior parte das pessoas pensa que o “emprestar” é sinonimo de dar. E se estou a ser egoísta não estou minimamente preocupado.

Quanto à minha iniciativa de emprestar livros isso não tem nome ou a ter é de uma estupidez estupidamente estúpida. O que me passou pela cabeça. É que não foram duas, nem três e muito menos quatro, enfim! Sempre fui emocionalmente enganado pelos meus valores de amizade de capa-e-espada. Por isso e com o coração apertado e a angústia a arrebentar-me a cabeça não vou telefonar, enviar SMS ou utilizar qualquer outro meio para tentar reaver o que é MEU. Não consigo lutar contra a falta de … que se foda!

Está assunto está agora enterrado e será esquecido lentamente. É a única forma que tenho de proteger-me ironicamente da minha própria bílis.