Tag Archive for: casa

cenas e cenas

07 Abr
07.04.2020

Não tenho escrito quase nada desde que me vi enfiado em casa 6 dias por semana; um dos dias da semana é para me deslocar ao trabalho sem ser em teletrabalho, apesar de esta rotina ter sido alterada temporariamente – fui mais vezes esta semana ao meu local de trabalho.

A rotina caseira está a dar cabo de mim. Nem o meu comportamento obsessivo está a ajudar. O vírus além colocar potencialmente em causa a minha saúde, tem agravado exponencialmente a minha sanidade, pois sei que apesar de todo o meu cuidado para com os meus entes queridos a ameaça anda por aí invisível – o medo por eles é superior ao medo por mim.

Sou uma bomba relógio paranóica que irá explodir a qualquer momento.

casas / fortalezas / muros

17 Fev
17.02.2020

Os muros têm permitido aos escritores criarem mundos utópicos ou distópicos, mundos surreais, quase reais. Muitas histórias começam e terminam dentro muros. Outras começam entre muros e acabam fora muros.

Aqui temos algumas dessas histórias:

barbaridade

17 Jan
17.01.2020

Entrei no apartamento. Sentia-se a atmosfera pesada, como se o local soubesse que ali tinha sido cometido um crime.

Antes de entrar no quatro já se ouvia a azáfama da equipa forense. Apesar de ter visitado muitos cenários de crimes hediondos nunca deixo de ficar chocado com a capacidade humana para a crueldade. O que deparava perante os meus pés era o crime dos crimes. Uma bíblia foi desventrada por um punhal. Deu para perceber que proporcionou luta: diversas páginas estavam rasgadas, ainda coladas ao miolo, outras páginas encontravam-se espalhadas pelo chão – barbaridade.

notícias frescas

17 Dez
17.12.2019

O harpia do meu vizinho, que mora mesmo ao meu lado, na Rua do Perpétuo Socorro, desde que remodelou a casa com novos revestimentos e adquiriu, até, um novo carrinho acha-se o maior do mundo. O estúpido.

Ontem ele teve a ousadia de me oferecer boleia no seu novo carrinho. Não confiando na sua estabilidade, uma das rodas tinha um comportamento muito periclitante, recusei.

Eu, e não por preguiça, ainda habito a mesma casinha. É pequena; não tem uma coisa a imitar uma clarabóia, como a do meu vizinho, mas tem tudo o que preciso para eu adormecer. E não é afinal isso que interessa? Para quê luxos estéticos. E ao contrário do harpia do meu vizinho que dorme sempre embrulhado em merdas antigas eu adormeço sempre aconchegado por notícias fresquinhas. Hoje sou embalado pelo último número do Jornal de Letras e do Expresso, este é sempre um dos melhores lençóis.

09 Dez
09.12.2019 À semelhança daquelas pessoas que são de tal maneira pobres e oprimidas que perderam o respeito por si próprias e o sentido da vergonha, também as cidades africanas nem sequer pretendiam ser outra coisa senão enormes bairros de lata. Antigamente, cada cidade tinha um aspeto próprio; Nairobi tinha um estilo arquitetónico de casas de estuque com telhas, Kampala ostentava as suas harmoniosas colinas, Dar es Sallam era uma cidade colonial costeira, com edifícios de paredes grossas concebidos para protegerem do calor. Estes estilos conferiam às cidades uma atmosfera própria e uma aparência de ordem de que a esperança não estava completamente ausente.
Agora, todas as cidades se pareciam umas com as outras, porque um bairro de lata é um bairro de lata.
Viagem Por África de Paul Theroux (pág. 324)

26 Jun
26.06.2019 Uma mulher encontrou um caracol. «O que é isso nas tuas costas’», perguntou-lhe a mulher. «Isto?», admirou-se o caracol, «essa agora, isto é a minha casa.» A mulher suspirou: «Meu Deus! e não tem jardim?»
A Substância do Amor de José Eduardo Agualusa (página 180)

23 Abr
23.04.2018 A mulher não caminha na cidade; anda por uma colina com animais de pé firme. Ela está nos Andes, está em casa; o resto das pessoas está em Espanha.
O Velho Expresso da Patagónia de Paul Theroux (pág. 364)

há-de desligar

21 Jun
21.06.2017

Tenho o alarme do meu telemóvel apontado para as 13h40, assim de segunda a sexta-feira, um Bip-Bip-Bop-Bip é emitido pelo aparelho.

Hoje foi outro dia em que religiosamente o BipppppppBiiiiip soou estava eu deitado no chão da sala anexa ao escritório e a minha mais-que-tudo deitada no sofá (ambos em total relaxamento). BipppppppBiiiiip: o alarme soava com persistência na outra divisão.

+QT – Este barulho é irritante.
EU – Já vai parar.

BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip

+QT – Este barulho está a tirar-me do sério.
EU – Deve estar a parar.
+QT – Gostava de saber por que tens isto a funcionar mesmo quando não precisas.

BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop

+QT – Pára ou não pára?
EU – Sim há-de parar.
+QT – Xiça!

A +QT levantou-se e foi desligar o alarme que tocava mesmo ali ao lado. Depois daquela porta, em cima da mesa do escritório.

BipppppppBiiiiip BipppppppBiiiiip Bop Bippp… e o alarme parou. Eu não dizia que o alarme iria parar em breve. Sou bruxo ou quê?

23 Mai
23.05.2017 Era mais do que eu podia esperar e foi um puro prazer, um regresso ao passado sem um átomo de desapontamento — o passado recapturado, como um refúgio, tudo o que sempre quisera que fosse uma chegada a casa, mas uma chegada destas a casa (pelo menos no meu caso) nunca acontecera. Era um caminho de regresso maravilhoso, como se aquele homem dos seus cinquenta anos, que da outra vez era um adolescente, estivesses à espera que eu regressasse.
Comboio-Fantasma para o Oriente de Paul Theroux (pág. 290)

sombria

19 Jan
19.01.2017

Era uma casa tão sombria, mas tão, tão sombria que quando os raios do sol a decidiam acariciar já era noite.

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