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uma casa para mr. biswas de v. s. naipaul

Romance no qual a tragédia e a comédia vivem de mãos dadas.

Da mesma forma que o livro “Metade da Vida” me cativou, também este livro me deixou bastante impressionado.

É um livro fascinante na descrição das personagens, no olhar critico, nos pormenores, na análise social, na alienação.

Tradução de José Vieira Lima

no interior: “uma casa para mr. biswas”

Vinheta no interior do livro “Uma Casa para Mr. Biswas” de V. S. Naipaul. Livro publicado pela Quetzal.

harmonias

Conforme o sol se ia diluindo no mar os corvos que sobrevoavam ruidosamente a Casa da Bruxa iam sendo pintados de laranja, vermelho, violeta – um caleidoscópio de cores. Quando a escuridão pintou a noite de negro fechei os olhos e deitado sobre a areia da praia adormeci embalado pela harmonia sonora das ondas e pelo crocitar fantasmagórico dos corvos.

cenas e cenas

Não tenho escrito quase nada desde que me vi enfiado em casa 6 dias por semana; um dos dias da semana é para me deslocar ao trabalho sem ser em teletrabalho, apesar de esta rotina ter sido alterada temporariamente – fui mais vezes esta semana ao meu local de trabalho.

A rotina caseira está a dar cabo de mim. Nem o meu comportamento obsessivo está a ajudar. O vírus além colocar potencialmente em causa a minha saúde, tem agravado exponencialmente a minha sanidade, pois sei que apesar de todo o meu cuidado para com os meus entes queridos a ameaça anda por aí invisível – o medo por eles é superior ao medo por mim.

Sou uma bomba relógio paranóica que irá explodir a qualquer momento.

the shy fly’s house by eva mejuto & sergio mora

“A Casa da Mosca Fosca” é uma adaptação realizada a partir de um conto popular russo recuperado por Alexander Afanásiev. As diferentes personagens introduzem os leitores num atraente jogo de números e tamanhos, rimas, repetições e ritmos, que são elementos próprios da tradição oral. Trata-se de um conto acumulativo que apresenta uma galeria de personagens que convidam ao jogo fonético.
O ilustrador Sergio Mora cria animais delirantes, com personalidade própria, repletos de humor e expressividade, utilizando cores “explosivas, quase fluorescentes”. Um conto para ler e contar, que cresce em intensidade a cada página até culminar num final surpreendente.

Wook

Gostei. Realmente melodiosa e divertida história.

casas / fortalezas / muros

Os muros têm permitido aos escritores criarem mundos utópicos ou distópicos, mundos surreais, quase reais. Muitas histórias começam e terminam dentro muros. Outras começam entre muros e acabam fora muros.

Aqui temos algumas dessas histórias:

barbaridade

Entrei no apartamento. Sentia-se a atmosfera pesada, como se o local soubesse que ali tinha sido cometido um crime.

Antes de entrar no quatro já se ouvia a azáfama da equipa forense. Apesar de ter visitado muitos cenários de crimes hediondos nunca deixo de ficar chocado com a capacidade humana para a crueldade. O que deparava perante os meus pés era o crime dos crimes. Uma bíblia foi desventrada por um punhal. Deu para perceber que proporcionou luta: diversas páginas estavam rasgadas, ainda coladas ao miolo, outras páginas encontravam-se espalhadas pelo chão – barbaridade.

notícias frescas

O harpia do meu vizinho, que mora mesmo ao meu lado, na Rua do Perpétuo Socorro, desde que remodelou a casa com novos revestimentos e adquiriu, até, um novo carrinho acha-se o maior do mundo. O estúpido.

Ontem ele teve a ousadia de me oferecer boleia no seu novo carrinho. Não confiando na sua estabilidade, uma das rodas tinha um comportamento muito periclitante, recusei.

Eu, e não por preguiça, ainda habito a mesma casinha. É pequena; não tem uma coisa a imitar uma clarabóia, como a do meu vizinho, mas tem tudo o que preciso para eu adormecer. E não é afinal isso que interessa? Para quê luxos estéticos. E ao contrário do harpia do meu vizinho que dorme sempre embrulhado em merdas antigas eu adormeço sempre aconchegado por notícias fresquinhas. Hoje sou embalado pelo último número do Jornal de Letras e do Expresso, este é sempre um dos melhores lençóis.

À semelhança daquelas pessoas que são de tal maneira pobres e oprimidas que perderam o respeito por si próprias e o sentido da vergonha, também as cidades africanas nem sequer pretendiam ser outra coisa senão enormes bairros de lata. Antigamente, cada cidade tinha um aspeto próprio; Nairobi tinha um estilo arquitetónico de casas de estuque com telhas, Kampala ostentava as suas harmoniosas colinas, Dar es Sallam era uma cidade colonial costeira, com edifícios de paredes grossas concebidos para protegerem do calor. Estes estilos conferiam às cidades uma atmosfera própria e uma aparência de ordem de que a esperança não estava completamente ausente.
Agora, todas as cidades se pareciam umas com as outras, porque um bairro de lata é um bairro de lata.
Viagem Por África de Paul Theroux (pág. 324)
Uma mulher encontrou um caracol. «O que é isso nas tuas costas’», perguntou-lhe a mulher. «Isto?», admirou-se o caracol, «essa agora, isto é a minha casa.» A mulher suspirou: «Meu Deus! e não tem jardim?»
A Substância do Amor de José Eduardo Agualusa (página 180)