Tag Archive for: cheiro

haverá?

02 Abr
2.04.2018

Haverá algo melhor do que sentir a chuva a cair no guarda-chuva ao som da Lacrimosa de Mozart, debitada directamente nos ouvidos, enquanto o cheiro da terra molhada te impregna o nariz, a humidade e o frio te rodeia e embala, além de estar sentado na cama, quente, aconchegado pelos lençóis e pelo corpo sensual que se entrelaçou no teu, enquanto sorves um golo de chá quente e te preparas para iniciar a leitura do Romance de Genji e vês no parapeito o gato a brincar com a chuva que bate hipnoticamente nos vidros da janela?

de lado – 0074

15 Mar
15.03.2018

Eu até gosto da chuva. De a ver cair. Do cheiro da terra húmida. Só odeio é ficar com o guarda-chuva molhado – pinga, pinga.

no smell

20 Out
20.10.2017

Um brincadeira inocente.

lol, camouflage 11.0 – spicy

13 Nov
13.11.2016

Wearing a turban, his body covered with sandalwood ashes and painted with dye, his face decorated with an outline of a black beard, precariously wrapped in a ragged saffron robe, fastened on a piece of rope is a loincloth that pretends to hide his nakedness, with sacred beads and sequins around his neck, a gold chain looped on his right ankle, which makes him appear to be a young sadhu although he does not have any tilaka on his forehead, he walks through Rishikesh towards Haridwar.
A smile of pure satisfaction radiates from his face as his senses embrace the colors, smells and flavors of the spice stands that surround him.
Sitting near the bank of the Ganges River, wearing the shade of a tree, after having crossed the Laxman Jhula Bridge, he realizes how magnificent the smells of Rishikesh are and is proud to have chosen this pilgrimage route to the Maha Kumbha Mela. ‘It is incredible how in a crowd one can better perceive healthy solitude’ is the thought that arises before the undulating mystique of the Ganges River. It is this refuge that he needed and also the absorption of millennial energies.
It is almost sunset. The young sadhu rises and as he leaves behind the Ganges the aquatic magic is diluted harmoniously in the bustle of the metropolis and he feels like the link that unites the two landscapes. His readings taught him that there may be no chaos in chaos, as there may be no order in order, but these maxims begin to be broken when he is surrounded by a group of tourists who had hitherto been photographing the exterior of Trayambakeshwar.
‘A HOLY MAN!’ they shouted.
‘Holy? Where?’ he questions himself, but as he is pointed out by cell phones, he suspects that they think he is the saint, ‘crazy people!’

[… an excerpt …]

lol, camouflage 6.0 – orange juice

10 Out
10.10.2016

lol is sitting in a chair while nibbling, indecisively, between a croissant and a pains au raisins. From the balcony of one of the rooms on the third floor of the hotel Plage des Pins he enjoys a beautiful view of the blue sea and concludes that the smell of the Mediterranean Sea in Argelés-sur-Mer has a distinct fragrance. He finishes a delicious orange juice and decides to throw some balls – A game of pétanque is taking place on the beach.
‘Bonjour! Il y a une place pour une personne? J’ai mes propre boules.’
‘Bien sûr. Nous sommes jusqu’à fini ce match.’

lol smooths his mustache, fixes the béret and waits – satisfaction.

[… an excerpt …]

lapdance 1.01

05 Abr
5.04.2012

Num abrir e fechar de olhos LapDance chegou ao destino. Claro que para quem tem dois dedos de testa, enfim, para qualquer entendedor mediamente inteligente LapDance nunca fechou os olhos; isso seria o convite ao suicídio. É um sujeito doido, até desleixado, mas não kamikaze. O que interessa para a nossa história é o facto de que viajou mais rápido do que uma lesma vítima inocente da toma de viagra.

Desligou a mota no parque reservado aos VIP. Levantou a viseira do capacete, adorava especialmente este momento mágico; enquanto posicionava o descanso admirou-se com os pneus esfarelados, sintoma de boas curvas e ardente velocidade; o crepitar do escape abriu-lhe o apetite para umas castanhas assadas na brasa. Ali de preto iluminado apenas pela luz do candeeiro público auto alimentado sentiu-se um homem capaz de enfrentar sem dificuldade qualquer problema que Nectarina tivesse ou viesse a ter.

Só depois deste inócuo narcisismo é que tirou o capacete, deixando-o a repousar no depósito de gasolina, e observou pasmado e com uma total incompreensão a Bolo-Rei. Olhava como uma vaca para o vazio deixado por um TGV que ora estava ali, ora já não. Os seus olhos presenciavam a ausência de luz onde esta deveria existir. Se estivesse com o capacete alojado na cabeça poderia usar como desculpa a massa anónima de insectos colados à viseira. A verdade é que os enormes tubos de néon que compunham em voltas e reviravoltas as letras da palavra Bolo-Rei estavam completamente às escuras – seria agradável um suave piscar, até uma faísca. O facto da Bolo-Rei ter a forma de um rectângulo de ouro não sossegava LapDance; e a agravar o quadro nem a luz piloto, amarela, que assinalava a campainha das traseiras emitia qualquer luminosidade. Estranho, muito estranho, pensou. Estaria a sonhar? Um calafrio seria algo que não desgostaria LapDance; sempre era a prova de que estava bem acordado, mas o seu fato Alpinestars entre outras funcionalidades mantinha-o a uma temperatura corporal constante.

Cautelosamente aproximou-se da porta. As botas faziam estalar a gravilha; o tubo de escape copiava o som. Sentiu que estaria melhor no sofá a curtir um filme e a comer pipocas. A sua tara por comida era lendária, e qualquer motivo servia de pretexto para provocar todas as suas papilas gustativas.

Empurrou a porta que estava ligeiramente entreaberta. Entrou, e o que sentiu de imediato foi um cheiro que lhe trouxe agradáveis recordações de orgias, o cheiro adocicado de vómito; mas por mais preparado que pudesse estar não estava para aquele cenário.

[em continuação…]

some kind of explanation

01 Mar
1.03.2012

Relatively soon, I will die. Maybe in 20 years, maybe tomorrow, it doesn’t matter. Once I am dead and everyone who knew me dies too, it will be as though I never existed. What difference has my life made to anyone. None that I can think of. None at all.

About Schmidt

The music, like writing and reading are very important factors in my life. With reading and writing it was always a discovery made by me; the music, and as a child I was invited, thanks to my uncle João Brito, to sleep listen to jazz, blues…
The only two books that I read at age of ten borrowed by my uncle was “Les jeux sont faits” and “Le Matin des magiciens”.

There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written or badly written. That is all.

Oscar Wilde

O que é deliciosamente assustador, naturalmente, sem a profusão literária das memórias involuntárias produzidas pelo sabor das migalhas da madeleine de Proust misturadas numa colher com chá, são os pequenos pedaços do meu passado, desencadeados por um cheiro intenso de saudável maresia, que se foram desenrolando na mente enquanto tentava adormecer e outros fragmentos que entretanto surgem enquanto tento descrever essa noite – e não havendo, na verdade, qualquer sequência cronológica e muito menos lógica nas lembranças, são, não obstante isso, os fotograficamente eternos pequenos instantes do meu passado.

from fragmentos de um paradoxo

what book to choose?

goblin: Which book would you take to a desert island?
pbrito: Why would I want to go to a desert island?
goblin: It is a purely academic question. Only to define what is your favorite book.
pbrito: This is intended to be an interview or a psychological profile?

[…] “À la recherche du temps perdu” (Marcel Proust) will always be the book that I would take to an island.

Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n’avais pas le temps de me dire: «Je m’endors.»

Du Côté de Chez Swann, Marcel Proust

meet my team

THE ILLOGICAL: “Sense is the enemy of change and nonsense is the powder keg of disorder.”Automatic Safe Dog by Jet McDonald

THE BOOKS: my friends on all occasions.

THE RAVEN: one of my best muses, working for me since the beginning.

He cried in a whisper at some image, at some vision — he cried out twice, a cry that was no more than a breath — “The horror! The horror!”

Joseph Conrad, Heart of Darkness

os dados estão lançados

04 Mai
4.05.2011

Com uns miseráveis 7 anos comecei a ler “Guerra de Paz”; apenas 7 anos depois é que retomei a leitura e a terminei.

Com uns deliciosos 10 anos li – oferta da minha mãe – “Esplendores e Misérias das Cortesãs” e uma obra, rapinada ao meu Tio João, “Os Dados Estão Lançados”, que me catapultou para outros níveis; muito mais tarde consegui comprar só para mim uma edição (5ª edição) da obra de Sartre.

De seguida li o “Despertar dos Mágicos” cujo número de páginas não me assustou. Se percebi metade do que li, claro que não, acho que nem um terço.

Depois, com este impulso, comi avidamente todos os clássicos literários/ensaios, etc. Se algum ficou de fora foi porque não havia na biblioteca itinerante Gulbenkian à qual tinha acesso privilegiado. Iniciei-me na letra [A]lain-Fournier e terminei na Stefan [Z]weig – literalmente.

“Os livros da minha vida”, um artigo que recomendo lerem de David Soares na revista Bang n.º 9 (falarei da revista noutra altura), levou-me a pensar nos meus livros; esta é a primeira verdadeira entrada directamente do sótão.

Para terminar entendo que devo concluir esta pequena visita ao sótão dos meus livros com umas palavras que estão escritas num possível livro que está, apenas – para já, para sempre? – a ser-me revelado:

O que é deliciosamente assustador, naturalmente, sem a profusão literária das memórias involuntárias produzidas pelo sabor das migalhas da madeleine de Proust misturadas numa colher com chá, são os pequenos pedaços do meu passado, desencadeados por um cheiro intenso de saudável maresia, que se foram desenrolando na mente enquanto tentava adormecer e outros fragmentos que entretanto surgem enquanto tento descrever essa noite – e não havendo, na verdade, qualquer sequência cronológica e muito menos lógica nas lembranças, são, não obstante isso, os fotograficamente eternos pequenos instantes do meu passado. O que é, afinal, um homem sem memórias? de si e dos outros? Não me imagino a conseguir viver, a continuar a existir, sem a consciência de mim e do meu passado sempre presente. Descubro-me muitas vezes a pensar que são estes meus devaneios que me animam, que diabolicamente, também, me angustiam, mas que, surpreendentemente, dão – ou tentam? dar – algum ténue sentido ao meu viver.

… e neste(s) meu(s) passado(s) os livros têm uma presença constante.

egoísmo ou proactividade?

10 Mai
10.05.2010

Hoje está a chover, não “cats and dogs”, não obstante ser o suficiente para noutra altura andar duzentos metros, tocar à companhia de uma colega, deslocar-me alapado, chegar “seco” à escola.

Hoje está desagradavelmente a chover e vim a pé. Imaginar que ia receber os queixumes mais que habituais numa segunda-feira de manhã, “estava tão bem na cama”, “a chover, que merda, e ter que ir trabalhar”, “fim-de-semana cansativo”, enfim, aquela panóplia de desabafos regulares, mecânicos de auto comiseração, foi o suficiente para em 1 segundo ter aberto o guarda-chuva, enfrentar o tempo a ouvir-me e a sentir em alguns locais por onde passei aquele delicioso cheiro de terra molhada.

Estou feito num “pito molhado” – alegre. Ora aí está!

que diferença?

15 Mai
15.05.2008

Quase todos os dias sigo uma corrente de tarefas rotineiras até sair de casa para trabalhar.
esfrego os olhos. coço os tomates. cheiro as mãos. afasto os lençóis. lassamente saio da cama. chego à sanita. levanto a tampa. e urino tentando acertar sempre na água para admirar ruidosamente o esvaziar da bexiga. lavo a cara. as mãos. os dentes. a língua. e o resto. aproveito para reter água na boca. limpo-me. perco 10 segundos a escolher a roupa. visto-me. procuro pelos óculos durante 2 minutos. passeio até à cozinha. ataco o resto de uma pizza solitária. bebo um copo de leite. saio de casa.

E iniciei esta entrada dizendo quase, porque hoje foi diferente. A rotina foi quebrada. Nada como um rewind para analisar os elos da corrente.
acordo. esfrego os olhos. coço os tomates. cheiro as mãos. afasto os lençóis. lassamente saio da cama. chego à sanita. levanto a tampa. e urino tentando acertar sempre na água para admirar ruidosamente o esvaziar da bexiga. lavo a cara. as mãos. os dentes. a língua. e o resto. aproveito para reter água na boca. limpo-me. perco 10 segundos a escolher a roupa. visto-me. procuro pelos óculos durante 2 minutos. passeio até à cozinha. mimo-me com 4 bolachas integrais. bebo um copo de leite. saio de casa.

A diferença para os mais incautos poderá revelar-se com a escolha de 4 bolachas integrais. Concordo que ao primeiro relance de alguém pouco habituado a uma saudável verbosidade seja essa a conclusão. Mas não. Lamento profundamente. Lamento, mas não profundamente. Sejamos sinceros, perante esta escolha se eu revelar uma qualquer expressão de dor é por cinismo.
A diferença é que foi um dos dias em que acordei antes das 11h00. Quase sempre só me desperto a 50% depois da ingestão de meia-de-leite, a 70% ao almoço e a 90% ao jantar. Naqueles dias em que acordo a 100% o dia começa muito, mas muito mal.

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