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fragmento.000458

(…) — Número um: sabe porque é que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra “qualidade”? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem feições. Podíamos analisá-lo ao microscópio, e encontraríamos vida por baixo da lamela uma profusão de vida em movimento. Quanto mais poros, quanto mais registos dos pequenos pormenores da vida tal como ela é encontramos por centímetro quadrado numa folha de papel, mais “literário” é o texto. Essa é, pelo menos, a minha definição. O pormenor revelador. O pormenor fresco. Os bons escritores tocam muitas vezes a vida. Os medíocres apenas lhe passam a mão pelo pelo. Os maus violam-na e deixam-na para as moscas. Vê agora porque os livros são temidos e odiados? Porque mostram os poros do rosto da vida. As pessoas confortáveis querem apenas rostos lisos como cera, sem poros, sem pelos, sem expressão. Vivemos num tempo em que as flores procuram viver à custa de outras flores, em vez de se agarrarem ao solo fértil e subsistirem da chuva.
Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (página 115)

de lado – 0118

Ser pro-activo é abrir o guarda-chuva antes de chover.

from the perverse mind of paulo brito

com esta chuva de annemarie schwarzenbach

Contos de viagens. Textos curtos, quase sempre cruéis que espelham uma palete forte de emoções: solidão, inquietude, paixão, desespero, conformismo.

Com uma linguagem sem luxos a autora cria cenários febris, personagens exóticas – impossível não gostar desta escrita estimulante.

Tradução de Ana Falcão Bastos

o caos

A chuva desliza tão lânguida do céu que as gotículas não conseguem perturbar a placidez das poças de água. Estas permanecem impávidas, sem ondulações; alheias ao toque sedutor da chuva. Uma imagem de harmonia que convida à meditação. Como detesto essas tretas salto para uma das poças de água ao melhor estilo Godzilla e é o caos à solta – água por todo o lado. Um sorriso rasga-me o rosto. O caos também é zen.

de lado – 0093

Com as mãos ocupadas com sacos de lixo reparei que por mais esforço que fizesse não me aproximava do contentor. Estaria a sonhar? Não, porque nenhum sonho conseguiria simular a chuva a colidir com os óculos. Mas a verdade é que o contentor se mantinha impávido e indolente no mesmo sitio e eu não conseguia reduzir a distância. O que se passava? Depois lá percebi: estava parado.

erro de sistema – 0012

o erro de sistema não apanha raios.

estação das chuvas de josé eduardo agualusa

Biografia romanceada de Lídia do Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana, misteriosamente desaparecida em Luanda, em 1992, após o recomeço da guerra civil, transporta-nos desde o início do século até aos nossos dias através de um cenário violento e inquietante. Um jornalista (o narrador) tenta descobrir o que aconteceu a Lídia, reconstruindo o seu passado e recuperando a história proibida do movimento nacionalista angolano; pouco a pouco, enquanto a loucura se apropria do mundo, compreende que o destino de Lídia já não se distingue do seu.

Quetzal Editores

Obra dolorosa da José Eduardo Agualusa.

As diversas personagens do livro são apanhadas no turbilhão do movimento nacionalista angolano e acompanham a violência que ele produz. E se o objectivo do livro não é responder ao que origina a violência é fácil compreender que para uns é a sobrevivência, para outros a fuga de uma vida no inferno, para outros a família, a ganância e até a ilusão.

Estação das Chuvas perturba e choca o leitor. Mas a narração é bem equilibrada. Nos momentos em que o autor escreve sobre a vida de Lídia do Carmo Ferreira temos uma narrativa lúcida (poética). Quando narra episódios relacionados com a guerra civil é-nos apresentada realistamente a loucura da guerra e do ódio..

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(Paulete: «O amor torna as pessoas ridículas. O ódio é um sentimento mais respeitável.»)
Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa (página 127)

no interior: “estação das chuvas”

Vinheta, criada por Rui Rodrigues, de um louva-a-deus no interior do livro “Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa – edição Quetzal.

Ali parado sob a chuva miudinha (…), ocorreu-lhe que as crianças eram melhores em quase morrer, e também eram melhores em incorporar o inexplicável nas suas vidas. Acreditavam implicitamente no mundo invisível.
A Coisa por Stephen King (página 584)