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com esta chuva de annemarie schwarzenbach

Contos de viagens. Textos curtos, quase sempre cruéis que espelham uma palete forte de emoções: solidão, inquietude, paixão, desespero, conformismo.

Com uma linguagem sem luxos a autora cria cenários febris, personagens exóticas – impossível não gostar desta escrita estimulante.

Tradução de Ana Falcão Bastos

o caos

A chuva desliza tão lânguida do céu que as gotículas não conseguem perturbar a placidez das poças de água. Estas permanecem impávidas, sem ondulações; alheias ao toque sedutor da chuva. Uma imagem de harmonia que convida à meditação. Como detesto essas tretas salto para uma das poças de água ao melhor estilo Godzilla e é o caos à solta – água por todo o lado. Um sorriso rasga-me o rosto. O caos também é zen.

de lado – 0090

Com as mãos ocupadas com sacos de lixo reparei que por mais esforço que fizesse não me aproximava do contentor. Estaria a sonhar? Não, porque nenhum sonho conseguiria simular a chuva a colidir com os óculos. Mas a verdade é que o contentor se mantinha impávido e indolente no mesmo sitio e eu não conseguia reduzir a distância. O que se passava? Depois lá percebi: estava parado.

erro de sistema – 0012

o erro de sistema não apanha raios.

estação das chuvas de josé eduardo agualusa

Biografia romanceada de Lídia do Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana, misteriosamente desaparecida em Luanda, em 1992, após o recomeço da guerra civil, transporta-nos desde o início do século até aos nossos dias através de um cenário violento e inquietante. Um jornalista (o narrador) tenta descobrir o que aconteceu a Lídia, reconstruindo o seu passado e recuperando a história proibida do movimento nacionalista angolano; pouco a pouco, enquanto a loucura se apropria do mundo, compreende que o destino de Lídia já não se distingue do seu.

Quetzal Editores

Obra dolorosa da José Eduardo Agualusa.

As diversas personagens do livro são apanhadas no turbilhão do movimento nacionalista angolano e acompanham a violência que ele produz. E se o objectivo do livro não é responder ao que origina a violência é fácil compreender que para uns é a sobrevivência, para outros a fuga de uma vida no inferno, para outros a família, a ganância e até a ilusão.

Estação das Chuvas perturba e choca o leitor. Mas a narração é bem equilibrada. Nos momentos em que o autor escreve sobre a vida de Lídia do Carmo Ferreira temos uma narrativa lúcida (poética). Quando narra episódios relacionados com a guerra civil é-nos apresentada realistamente a loucura da guerra e do ódio..

(Paulete: «O amor torna as pessoas ridículas. O ódio é um sentimento mais respeitável.»)
Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa (página 127)

no interior: “estação das chuvas”

Vinheta, criada por Rui Rodrigues, de um louva-a-deus no interior do livro “Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa – edição Quetzal.

Ali parado sob a chuva miudinha (…), ocorreu-lhe que as crianças eram melhores em quase morrer, e também eram melhores em incorporar o inexplicável nas suas vidas. Acreditavam implicitamente no mundo invisível.
A Coisa por Stephen King (página 584)

O terror, que só terminaria vinte e oito anos depois (se é que terminou), começou, tanto quanto sei ou consigo saber, com um barco feito de uma folha de jornal a flutuar por uma valeta cheia de água da chuva.
A Coisa por Stephen King (página 13, vol. I)

E assim começou uma das obras maiores de Stephen King.

No fim de contas, existiria alguma coisa neste mundo cem por cento correta ou incorreta? Vivemos numa época onde a probabilidade de chuva pode oscilar entre os trinta ou os setenta por cento. Se calhar, com a verdade acontecia o mesmo. Tanto podia haver trinta como setenta por cento de verdade. Os corvos é que tinham sorte! Chover ou não chover era igual ao litro. Percentagens não eram com eles.
A Morte do Comendador por Haruki Murakami (página 331, vol. II)

Delirante.