Artigos

a especulação imobiliária de italo calvino

Numa pequena cidade da Riviera, que conhece um rápido desenvolvimento económico, começa a falar-se de turismo. Por isso, é inevitável que o mercado imobiliário cresça e o cimento se espalhe de um modo febril e desordenado.
Quinto Anfossi, um intelectual que leva uma vida económica e espiritual muito recolhida, fica fascinado pelo novo espírito que parece ter invadido a Itália, pela energia vital que emana dos construtores e dos homens de negócios, indivíduos que, aos seus olhos representam o homem novo. Esmagado pelos impostos que, pela morte do seu pai, pesam sobre a propriedade da família, transforma-se em empresário imobiliário, seduzido, mais do que pelo dinheiro, por aquilo que interpreta como o novo espírito dos tempos. Para isso associa-se a um certo Pietro Caisotti, um homem rústico e ignorante que conseguiu já fazer uma pequena fortuna.
À medida que o tempo passa, o negócio torna-se mais complicado do que parecia e, depois de muitas vicissitudes legais e burocráticas que levam inclusive à ruptura com o seu irmão, Quinto, cada vez mais preso nas areias movediças da sua relação de negócios com Caisotti, decide chegar a um acordo com o empresário do qual o limitado e vulgar Caisotti sai obviamente vencedor.

Wook

Outro grande conto. Italo Calvino é um mestre – excelente como a corrente do absurdo nos começa a abafar.

Tradução de José Colaço Barreiros

clássico eis a questão

Um clássico é um livro atemporal, que consegue sobreviver para além da época em que foi escrito. Não implica ser, necessariamente, um livro antigo, apesar de isto estar, quase, implícito, porque actualmente os livros falham em qualidade do texto. Claro que a determinação do que é belo é um juízo subjectivo do leitor, com os seus gostos e valores próprios. Mas é fácil concluir que nunca são livros vulgares, são sim livros complexos, inusitados; não que sejam difíceis de ler.

Um clássico teve e continua a ter, sempre que é lido ou relido, uma repercussão na história literária e, porque não, na cultura popular – fica gravado de uma maneira ou outra na memória colectiva pelos temas universais que geralmente abordam.

Um livro editado hoje não pode ser considerado um clássico, porque ainda não resistiu ao teste do tempo.

Numa lista simples posso colocar:

  • O Romance do Genji (1005-1014) de Murasaki Shikibu
  • Dom Quixote de la Mancha (1605-1615) de Miguel de Cervantes
  • Moby Dick (1851) de Herman Melville
  • Os Maias (1888) de Eça de Queirós
  • O Retrato de Dorian Gray (1891) de Oscar Wilde
  • Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) de Marcel Proust
  • O Processo (1925) de Franz Kafka
  • Admirável Mundo Novo (1932) de Aldous Huxley
  • 1984 (1949) de George Orwell
  • As Cidades Invisíveis (1972) de Italo Calvino
  • O Nome da Rosa (1980) de Umberto Eco
  • Memorial do Convento (1982) de José Saramago

béni abbès

Béni Abbès, também conhecida como a Pérola do Saoura, e também como a Oásis Branca, é uma cidade e comuna localizada na província de Béchar, Argélia.

Wikipédia

Béni Abbès é a localidade onde o narrador de “O Amigo do Deserto” se descobre.

Como uma varinha mágica nas mãos erradas, o trânsito transformava minutos em horas, humanos em bestas e qualquer vestígio de sanidade em pura loucura. Istambul não parecia importa-se com isso. Tinha tempo, bestas e loucura de sobra. Mais uma hora, menos uma hora, mais uma besta, menos um louco… a partir de determinada altura, já não fazia diferença
Três Filhas de Eva de Elif Shafak (pág. 13)
Nos dias em que o mar está particularmente límpido e nos revela as suas profundidades, adivinham-se, aqui e além, os contornos de objetos estranhos, destroços, ruínas: facilmente imaginamos então que descobrimos um galeão afundado com a sua preciosa carga, um antigo palácio, os vestígios de uma cidade antiga. Esses contornos incertos são comparáveis à memória, esses destroços à história, essas ruínas ao destino. O Mediterrâneo é um colecionador.
Breviário Mediterrânico de Predrag Matvejevitch (pág. 43)

obelisco inacabado de assuã

O obelisco inacabado de Assuã é um obelisco do Antigo Egito cuja extracção não foi concluída, provavelmente devido ao aparecimento de rachaduras na rocha. Está deitado de lado em uma grande pedreira de granito rosa a cerca de 2 km ao sul da cidade de Assuã, no Egito. O lado inferior não foi destacado da rocha devido ao abandono do projeto. Com quase 42 metros, teria sido o mais alto do mundo se tivesse sido completamente extraído e erguido. Seu peso é estimado em cerca de 1.200 toneladas. Acredita-se que remonta ao reinado do faraó Tutemés III e foi parte de um par de obeliscos cujo segundo exemplar, o Obelisco Laterano, originalmente localizado em Carnaque e agora em Roma, em frente à Arquibasílica de São João de Latrão. A área onde está localizado o obelisco foi declarada como um museu a céu aberto pelo governo egípcio e é visitada continuamente por milhares de turistas.

Wikipédia

O que mais me encantava em África era a circunstância de parecer inacabada, muda mais imponente, como o gigantesco obelisco da pedreira de Assuão – uma pedra bela e imperfeita incorporada na rocha, que se fosse erigida, teria uma altura de 15 metros; para mim, era o símbolo mais adequado da África que eu conhecia.

Viagem por África de Paul Theroux (página 392)

À semelhança daquelas pessoas que são de tal maneira pobres e oprimidas que perderam o respeito por si próprias e o sentido da vergonha, também as cidades africanas nem sequer pretendiam ser outra coisa senão enormes bairros de lata. Antigamente, cada cidade tinha um aspeto próprio; Nairobi tinha um estilo arquitetónico de casas de estuque com telhas, Kampala ostentava as suas harmoniosas colinas, Dar es Sallam era uma cidade colonial costeira, com edifícios de paredes grossas concebidos para protegerem do calor. Estes estilos conferiam às cidades uma atmosfera própria e uma aparência de ordem de que a esperança não estava completamente ausente.
Agora, todas as cidades se pareciam umas com as outras, porque um bairro de lata é um bairro de lata.
Viagem Por África de Paul Theroux (pág. 324)

igrejas de lalibela

o templo de são jorge

As igrejas escavadas na rocha de Lalibela constituem um Património Cultural da Humanidade situado na Etiópia, a 640 km ao norte da capital, Adis Abeba, e a 1.500 m de altitude. Onze igrejas e um mosteiro, além de vários sepulcros e outros lugares sagrados formam uma cidade labiríntica escavada no subsolo. Cada um destes templos foi talhado na rocha da montanha, como se fossem esculturas. O templo de São Jorge, um monólito em forma de cruz grega, é o principal.

Wikipédia

o templo de são jorge

A Etiópia tem uma das mais antigas tradições cristãs. Para seus fiéis, de tradição copta, a peregrinação a Lalibela tem o carácter de uma viagem a Jerusalém. As igrejas transformaram a cidade em um lugar de orgulho e de peregrinação para os fiéis da Igreja Ortodoxa Etíope, atraindo 80.000 a 100.000 visitantes por ano. Nesses dias, a Fasika, Páscoa etíope, torna Lalibela o centro do país.

Lalibela ficava para norte, a grande distância; tratava-se da longínqua zona onde ficavam situadas as belas igrejas coptas do sécul XII esculpidas em rocha vulcânica e que figuram em todos os cartazes que dizem «Venham visitar a Etiópia». A cidade ficava nas montanhas Lasta (…)

Viagem por África de Paul Theroux (página 171 )


[1] Lalibela: map of the site, showing the location of the churches (numbered) and the areas of spoil (in colour) resulting from the cutting of the monuments (satellite photograph: Google Earth. Geomorphological observations and mapping: L. Bruxelles/INRAP/CFEE)

Quanto a mim, adoro o avião, que aguarda o seu Marinetti ou o seu poeta futurista antifascista, pois o avião induz uma outra metafísica, contribui para uma nova perceção do tempo e do espaço. Antes dele, estas formas a priori da sensibilidade kantiana deduziam-se fisicamente, hoje constatam-se experimentalmente: o tempo é espaço, velocidade, deslocação, é a translação num espaço intermédio, bem como uma perceção corporal e subjetiva, uma sensação individual e pessoal. Não há tempo absoluto, nem uma ideia do tempo face à eternidade ou ao movimento, mas apenas a pura consciência de si apreendida em durações variáveis.
Teoria da Viagem. Uma Poética da Geografia de Michel Onfray (página 67)
(…) A chegada à cidade de comboio, penetrar na manhã fresca e na luz que refulgia no rio e se apaziguava nos telhados e na perspetiva das ruas era o princípio imaculado e definitivo de qualquer coisa, a primeira página de um romance, a plenitude do mundo recém-iniciado.
Como a Sombra que Passa de Antonio Muñoz Molina (pág. 125)