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rotinas

Sou uma pessoa de rotinas e quando me deito, à hora do costume, gosto de ter pensamentos positivos. Não é que uma destas noites veio-me à memória um poema (?) lido há mais de 30 dias numa casa-de-banho em Coimbra. Foram minutos e minutos de gargalhadas. Ora veja-se:

A cagar fiz um charro
A cagar o acendi
A fumar caguei para ti.

dissertação escusada sobre a solidão das árvores

É com enorme satisfação que me encontro com um novo livro de José Ilídio Torres nas mãos. Já leio a sua poesia desde os 17, ainda aluno na Escola Secundária de Barcelos, mas é com 18 anos, em Coimbra, que mergulho de cabeça na sua escrita. Como pessoa pouco me surpreende, como poeta… ufa… as letras são outras. Ele escreve aquilo que eu adoro ler. Claro que não escreve para mim, não ouso pensar isso, um pouco talvez, mas sinto que ao ler as suas palavras ele pensou em mim porque fala do que eu sinto, do que me vai na alma, como um espelho que reflecte o meu real ou… o que imagino ser real, ou talvez nem isso.

José Ilídio Torres teve a ousadia de em 1987/1988(?) fazer uma fogueira com centenas de poemas. Foi um dia de alegria para Coimbra que viu a poesia livre, como deve ser toda a poesia, a esvoaçar em forma de cinza. Acho que esse dia, e nos seguintes, na Real República dos Pyn-Guyns só se falava da loucura do poeta de Barcelos. Insultei-o e principalmente à vizinha do lado. A culpa na vida de um poeta é sempre da vizinha que se esfrega a nós e se ela não existe inventa-se uma – haja poeta! Desse tempo, ainda tenho comigo, uma folha A4 com um poema escrito por um jovem de 20 anos.

Hoje temos um poeta, alguns anos mais velho, mas capaz de agrafar a qualquer folha A4 uma poesia jovem, fresca, cruel… sim, até visceral (mas sempre a pulsar, porque José Ilídio Torres manipula com mestria as letras de A a Z e desta forma a sua poesia celebra-se a si mesmo.)

Dissertação escusada sobre a solidão das árvores, o seu novo livro, vem embrulhado de “isto e aquilo“, de tudo e de nada. O poeta atreve-se a afirmar que trata o poema por tu. Não me importo que o poema seja um seu “velho amigo“, desde que eu seja um seu velho leitor. Ontem tinha apenas uma folha, hoje tenho imensas; ainda o posso insultar, mas apenas para que escreva mais e mais.

Respondo por ti se não te importas:” – obrigado José Ilídio Torres.

as atribulações de um português no porto

E antes que digam que existe um livro com um nome semelhante ao título desta entrada, eu coloco-o aqui: “Les Tribulations d’un Chinois en Chine” de Jules Verne. Pronto!

Ontem o dia correu muito bem. O almoço do Leituras de BD estava devidamente condimentado; espectacular companhia.

Quanto ao MAB – Festival Internacional de Multimédia, artes e BD, como ia com o pessimismo instalado, até gostei. Teria alguns aspectos negativos a apontar, mas o facto de ter efectuado umas boas compras, conhecido pessoal fantástico, e ter trazido uns valentes rabiscos, evita frases mais tristes. Além do mais tive o prazer de ver em primeira mão a exposição de Zakarella.

Contudo este post não servirá para falar do MAB – Festival Internacional de Multimédia, isso ficará para outro, mas das minhas aventuras malucas, que comprovam muita coisa ou nada.

Os apontamentos:

    1. Fui de comboio
    2. Como tipo precavido que sou, depois de ver o horário do comboio de regresso, marquei como alarme a hora de partida no meu Nokia x6 para não o perder.
    3. Às 17h45m o alarme disparou. No visor indicava 18h00. Com apenas 15m para chegar ao destino e como não sabia a forma mais rápida de chegar à estação de São Bento pedi indicações à diabólica Virgulina Labareda.
    4. Recordei-me que tinha deixado na mão do João Mascarenhas o Punk Redux, o novo álbum do Menino Triste. Fiquei mais que doido.
    5. Pesquei o marcador de livros da Dr. Kartoon, telefonei para a loja de Coimbra, pedi o número de telemóvel do João Miguel Lameiras e pedi-lhe para deixar o álbum com Nuno Amado – agora vou ter mesmo de pagar os portes!
    6. Perdi-me, temporariamente. Sabia que a rua de referência tinha uma data, mas só me lembrava do 25 de Abril. Como fui capaz de me esquecer de um livro!
    7. Quando me lembrei do 31 de Janeiro foi sempre abrir – claro que a descer ajuda.
    8. Chegado à estação de São Bento, pisco os olhos para o relógio de pulso que me indica 18h30m – merda, perdi o comboio.
    9. Ataco a tabela de horários Porto-Vigo para ver a alternativa e reparo que não existe qualquer comboio às 18h00, mas sim às 18h45m
    10. Amaldiçoo o Nokia x6 e especialmente o sujeito que gravou o alarme. Depois desta confusão ainda tenho 15m – nada mal!
    11. Na bilheteira: “Um bilhete para Barcelos”.
    12. “Não há hoje mais comboios para Barcelos devido à greve”.
    13. “Greve! Mas está no placard o comboio das 18h45m para Braga”.
    14. “Não tem ligações para os regionais.  A greve é dos regionais a partir das 16h00. Só tem comboio até Nine.”
    15. Ainda na bilheteira: “A sério?!! Que seja. Um bilhete para Nine.”
    16. Continuando na bilheteira: “Mas, mas… depois o senhor não tem comboio para Barcelos!”
    17. “Faço o resto do percurso a pé pela linha. O meu Nokia servirá de lanterna.” Fiquei um pouco melhor com a expressão do homem, apesar de ele ter a obrigação de não revelar qualquer surpresa perante um simples sujeito de chapéu aparentemente amalucado.

Ainda tive tempo de beber um capuccino extraído daquelas máquinas automáticas e comprar uma garrafa de 1,5l antes de entrar para o Comboio. Ufa!!!

que calções de banho!

sagos_malhas

sagos malhas

Foram ontem para o lixo uns calções de banho que me acompanharam em imensos mergulhos nos mais diversos lugares.

Tenho fotografias com esses calções tinha eu ainda 20 anos!!! (pois exclamações triplas) o que significa que duraram por entre mergulhos, lutas na areia, pesquisas por rochedos na praia, mais de 22 anos. E foi uma aresta marota de um mexilhão parcialmente comido que rasgou o tecido.

Os calções tinham a etiqueta “Sagos Malhas” e demonstram a força de uma marca. E o mais lindo foi descobrir que a marca é da empresa Santiagos, lda (Coimbra) que existe desde 1938 e que ainda labora.

joão aguiar

Do escritor João Aguiar (1943-2010) apenas li a “A Voz dos Deuses” (1984).
Com apenas 16 anos li fascinado as aventuras de Viriato.

Nesta onda li, e sempre através da biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian, “A Casa do Pó” (1986) do escritor Fernando Campos. Acabei por comprar os livros num alfarrabista em Coimbra a preço da chuva; a satisfação dessa leitura está guardada num bom local da minha memória.

Nunca mais viajei por qualquer outra obra destes dois escritores.


a questão?

Descobri no baú um poema oferecido por um amigo de Coimbra: José Ilídio Torres.
Arrisco-me a afirmar que seja um seu “original” perdido no tempo e na memória.
Não sei o ano em que foi escrito – apenas tem assinalado no final da página: José Ilídio Torres – Barcelos, Dez/23.
E se é um original perdido deve ser feito ou não refém?

Eu queria escrever um poema
com palavras crescendo em suor.
Um poema
que as minhas mãos sujassem
ao tocar.
Que eu fosse um operário
do poema que não tem patrão.
(…)

Ainda bem que existe a www para descobrir mais verdades sobre ele.

eu babo-me e tu?

Ao reler Incal pensei no que me leva a gostar de tal forma de uma história que serve não apenas de referência para todas as outras que vou lendo, mas, também, como ponta de lança numa conversa quando falo, completamente babado, sobre a 9º arte ou sobre a 6º arte; já não tão babado, claro.

Apenas recorrendo à memória e não às estantes aponto como os meus autores de BD de excelência: Moebius, Druillet, Pratt, Bilal [1], Goscinny e Greg; e Alexandre Dumas, Walter Scott, Tolstoi, Nietzsche, Kafka, Eça, Hubbard, Heinlein, Robert Silverberg, Camus, Sartre, Gautier, Balzac, Sthendal e Flaubert na literatura. [2]

Starwatcher

Starwatcher (1)

Sei que se fosse agora mesmo às estantes iria descobrir outros autores tão espectaculares quanto estes, mas a verdade é que são estes e não outros autores que foram aqui escritos.

.Moebius
A primeira história que li era passada num mundo estranho. Havia um menino numa janela; uma personagem impassível. E um gato. E uma águia. O desenho é fascinante. O argumento assombroso. O conjunto é uma história com uma narração cinematográfica de um surrealismo magnético. É uma obra a duas cores, metálicas, que se lê em 5 minutos, como um filme(?), mas que deixa uma sensação inesquecível. A primeira aquisição que tenho de Moebius é, pois, “Os Olhos do Gato” (Martins Fontes, 1987); o argumento é de Alejandro Jodorowsky, o mesmo argumentista do Incal.

Incal Negro

Incal Negro (2)

Depois veio o Incal. A paixão pelo Incal começou logo na prancha 1bis (2 página d’ “O Incal Negro”, Editorial Futura, 1983).
Após isto com Moebius aka Giraud ou Giraud aka Moebius foi sempre a abrir. Tenho praticamente todo o Moebius – ainda não comprei, mais por preguiça, acho eu, Arzach – não tanto Giraud, apesar de adorar Blueberry.
A grande aquisição que tenho de Moebius é “Starwatcher”, Edition Aedena, 1986; o livro é uma reedição “De la Mémoire du Futur” inteiramente revista e ampliada.

Moebius é para mim dentro da excelência a maior referência na banda desenhada.

.Druillet
Foi descoberto a ver revistas Écho des Savanes. Não foi uma história, mas uma entrevista. Os desenhos eram diferentes. Tinham vida própria. De Druillet apenas tenho Salammbô, mas os desenhos são um desespero visual.

. Hugo Pratt
“A Balada do Mar Salgado”, editada pela Bertrand (1982) e emprestada por um colega (Ilídio Torres [IT]) em Coimbra, foi amor à primeira vista. Na mesma altura lembro-me de ler o “Silêncio” de Didier Comès, mas foi com Pratt que fui descobrir outro universo de BD. Pratt é O autor que cria com uma tal intensidade uma BD que podemos dizer que estamos perante um romance de aventuras em forma de BD. Corto Maltese é o herói/anti-herói que vive aventuras de sonho num mundo real(?).

.Enki Bilal
“O Cruzeiro dos Esquecidos”. Mais uma vez Coimbra e IT. Bilal com um desenho de sombras único cria personagens que são de tal forma psicologicamente credíveis que nos contaminam com os seus medos; vivem num futuro com características assustadoramente reais e possíveis.

.Réne Goscinny
Coimbra e as revistas Tintin perdidas em desleixo na Real República dos Pyn-Guyns onde residia IT. Goscinny é Humor + Humor + Fantasia. Uma simplicidade a contar histórias que nos faz sonhar ao quadrado.

.Greg
Achille Talon com naturalidade. Ainda adoro dizer/escrever o “espirrar baboseiras pelo nariz”. Greg (Michel Regnier) é Humor + Aventura + Fantasia. Experimentou com sucesso todos os géneros. Grandes heróis de aventuras têm a sua marca: Chick Bill, Spirou e Fantasio, Bernard Prince, Luc Orient, Bruno Brazil, Comanche, Spaghetti e muitos mais.

A Armadilha Diabólica

A Armadilha Diabólica (3)

Se com os autores acima descritos foi sempre amor à primeira vista houve pelo menos dois autores que tive dificuldade em comer à primeira, segunda e até terceira vez:
– um foi Edgar E. Jacobs e “As Aventuras de Blake e Mortimer”; tanto texto, mas tanto texto que me assustava sempre que folheava um álbum, mas quando finalmente ganhei coragem foi uma paixão para sempre.
Haverá alguém que não fique com suores frios ao descobrir n’ “Armadilha Diabólica” (Meribérica/Liber, 1987) a prancha da página 38?

– o segundo foi Tardi com “As Aventuras Extraordinárias de Adéle Blanc-Sec”. O desenho de “Adéle e o Monstro” (Bertrand, 1978) não me convidava, sabe-se lá porquê, a avançar. Foi muito mais tarde, quando ganhei a colecção completa a IT, que me senti obrigado a ler “Adéle” e adorei.

Graças a este esforço e persistência adorei, mais tarde, Alix de Jacques Martin e não perdi na (A Suivre) as aventuras de “Nestor Burma” baseadas nos livros de Léo Malet.


[1] descobri na sequência de estar a ler “A Viagem de Théo” (Circulo de Leitores, pág. 63) que Bilal, um escravo negro, foi um dos primeiros convertidos aos ensinamentos do profeta Maomé.
[2] falarei destes escritores noutro post.
imagem (1) – descrição: imagem retirada da edição Starwatcher”, Edition Aedena, 1986
imagem (2) – descrição: prancha (página 2) retirada da edição da Editorial Futura, 1983
imagem (3) – descrição: prancha (página 38) da da edição da “Armadilha Diabólica”, editada pela Meribérica/Liber, 1987.

que som!

A minha filha hoje comeu a sopa a ver vídeos no youtube e quando me sentei em frente ao pc iniciei uma pesquisa por:

stoa (sempre Stoa). ouvi partus (o sempre excelente álbum Porta VIII).

viajei para So Many Clouds do novo álbum editado em 2008. terminei em Mors.

regressei ao youtube e pesquisei por doors adagio. lindo!!! e cliquei, também, em The Severed Garden.

Wow, I’m sick of doubt
Live in the light of certain
South
Cruel bindings.
The servants have the power
Dog-men and their mean women
Pulling poor blankets over
Our sailors

I’m sick of dour faces
Staring at me from the tv
Tower, I want roses in
My garden bower; dig?
Royal babies, rubies
Must now replace aborted
Strangers in the mud
These mutants, blood-meal
For the plant that’s plowed.

They are waiting to take us into
The severed garden
Do you know how pale and wanton thrillful
Comes death on a strange hour
Unannounced, unplanned for
Like a scaring over-friendly guest you’ve
Brought to bed
Death makes angels of us all
And gives us wings
Where we had shoulders
Smooth as raven’s
Claws

No more money, no more fancy dress
This other kingdom seems by far the best
Until it’s other jaw reveals incest
And loose obedience to a vegetable law.

I will not go
Prefer a feast of friends
To the giant family.

naturalmente seguiu-se the end, apocalipse now e

I love the smell of napalm in the morning.

ataquei outra onda e pesquisei Odetta e ouvi o lindo Water Boy. e já agora porque não
Muddy Watters. e o Hoochie-Coochie Man (uau!!!!!!!!!!!!!)
e de seguida apeteceu-me ouvir o Run to The Hills, Iron Maiden e
porque não os Nazareth Telegram). (uau!!!!!!!!!!)



depois Aqualung ao vivo com os sempre Jethro Tull

regressei ao adagio de Albinoni, desta feita no filme Gallipoli. foi em Coimbra que ouvi o Adagio pela primeira vez.

What are your legs?
Springs. Steel springs.
What are they going to do?
Hurl me down the track.
How fast can you run?
As fast as a leopard.
How fast are you going to run?
As fast as a leopard.
Then lets see you do it.

e não sei porquê lembrei-me de Matrix, conclusão. tive
Rob Zombie, Dragula
Rage Against The Machine, Wake up
e terminei com Ramstein, Du Hast. não odiei esta viajem sonora.

Soube bem. A repetir um dia destes.

quando o homem-aranha encontra o homem-aranha

.um farrapo verbal à guisa de explicação.
Adoro banda desenhada e sempre adorei desde que me lembro. E recuando ao meu antigamente, não ao estilo high magic de Harry Potter, constato que as primeiras bandas desenhadas que devo ter lido, porque aparecem dentro daquela névoa mental própria de bons tempos idos, foram:

  • a Garra de Aço [Steel Claw]. Recordo a garra de aço negra suspensa no ar a combater o crime
  • e umas revistas com o Homem-Bala [BulletMan]

Eram as minhas personagens preferidas. Haviam outras, como o Tex, Mandrake, mas a Garra de Aço e o Homem-Bala faziam-me verdadeiramente vibrar.

Não guardo nenhuma revista, porque eram emprestadas pelo meu querido Tio João e o que maroto fez delas não sei; foram para o lixo provavelmente, grande sacana. E quem, assim, se recorda do que lia é um eterno apaixonado. E quem me conhece sabe que gosto muito de falar, menos emprestar porque demoram tempo a regressar, o bilhete é de ida-e-volta, mas o comboio de volta deve estar sempre lotado, da minha colecção de bd e dos meus autores/heróis preferidos, quase todos descobertos nos meus tempos de Coimbra. Uau, isto agora foi mesmo à quase Saramago.

garra de aço

Ia dizendo; e neste meu umbigo virtual sempre que para aí a memória, ou uma qualquer conversa puxava lá escrevia sobre bd, mas nunca tão abundantemente quanto agora. O(s) motivo(s) é(são) simples, a descoberta do lançamento de um novo “Cidades Obscuras” e da paixão encontrada nos posts do bongop. Fiquei com o desejo ardente de escrever, também e porque não, sobre a minha paixão: banda desenhada.

Escrevo isto hoje, já o deveria ter feito, eu sei, porque é a forma com que eu estou na vida e nesta, às vezes, (im)pessoal, internet; daí que envio, também, para mal dos meus pecados, porque escrevo primeiramente para o meu próprio gozo, o meu agradecimento ao bongop pelo post que me espicaçou a escrever.
.fim de um farrapo verbal à guisa de explicação.

Marvel 2099 teve o primeiro lançamento em 1992 e a revista Spider-Man 2099 foi a que me chegou primeiro aos olhos e às mãos.
Gostei do que li. Da sociedade controlada por gigantescas corporações, do submundo, da cultura cyberpunk.
Já não fui convencido com o novo Hulk 2099, os novos X-Men 2099, o novo The Punisher 2099 e muito menos com novo Thor. O aborrecido desta série para mim é a recriação de heróis e vilões num contexto temporal, social, politico e religioso diferente. São os mesmos heróis, os mesmos vilões com um ruído de fundo diferente. E por vezes, quase sempre, o guisado não funciona. No Spider-Man 2099 temos, também, o Abutre 2099. Poderia haver um pouco mais de imaginação. Reconheço que desta forma é facilitada a empatia do leitor ao novo universo, mas um esforço teria sido bem vindo.

A série teve um fulgor inicial, mas acabou por terminar em 1996 no seguimento de um controlo de custos pela Marvel.

dois spider men

Spider-Man 2099 ainda é uma revista que vale a pena folhear. A personagem está bem recriada. Mantendo, até, inalterável o seu sentido de humor. Spider-Man 2099 (Miguel O’Hara) é o carácter que menos perde e o que mais ganha incluindo uma projecção holográfica da Marilyn Monroe.

spider man 2500

Em 1995 Peter David (escritor), Rick Leonardi (desenhador) e Al Williamson (arte finalista) trazem uma aventura one-shot inteligente.

“Spider-Man 2099 Meets Spider-Man” é uma história relaxante e carregada de frivolidades tão próprias de Peter David.
O aparecimento do Homem-Aranha (Peter Parker) em 2099 e do Homem-Aranha (Miguel O’Hara) em 1995 cria situações de conflito engraçadas, mas ambos se adaptam perfeitamente a ambientes hostis tão díspares.

No final da aventura os nossos heróis conhecem o especular Homem-Aranha 2500. O que é uma surpresa para eles e um triplo bónus para o leitor.
Pessoalmente acho ser um Homem-Aranha pouco original; muito parecido com o seu melhor inimigo o Dr. Octopus. Mas que dizer de uma simples imagem? apenas que em 2500 ainda haverá aventuras do Homem-Aranha.

o fadista

Tinha 20 anos e fui em Agosto de 1988 uma semana de férias a Lisboa a convite de um colega. Durante esses dias fui um clandestino na sua residência estudantil porque não era aceite a frequência nocturna de estranhos. E eu não me sentindo um estranho era um estranho numa terra estranha. Foi a semana de directas atrás de directas. De tal forma que quando aterrei em Coimbra na minha cama privada de lençóis de seda adormeci ao som do Adagio e sonhei durante 18 horas. Foi uma semana de descobertas. Uma semana bem passada no lindo ano de 1988. Foi o ano do incêndio do Chiado. O ano em que a deputada italiana Chicholina afirmou que ter sexo com preservativo é o mesmo que comer uma sande envolvida em plástico. Sim. Foi nesse ano que descobri pela primeira vez Lisboa. O espaço Gulbenkian com os seus jardins a convidaram à contemplação e ao ócio. O Bairro Alto de ruelas e mais ruelas tortas. Assimetricamente perfeitas. Imbuído de cheiros estranhos e potencialmente mortais. E aí numa quelha pouco poética a transpirar urina descobrimos, eu e o colega Durães, sujeito pequeno de barba grande e rija, uma tasca com um amontoado de gente a desejar entrar. Eram empurrões. Tropeções. Calcadelas. Fungadelas. Palavrões. Aproximando-me da entrada ao som de injurias para tentar compreender o motivo daquela tasca estar tão in sou atingido com uma pontaria admirável no ouvido esquerdo com “Deixem-me passar sou um fadista”. Estas duas palavras ditas de boca molhada por um senhor de alguma idade, de olhar escorregadio, com as pontas dos dedos amareladas, barba mal escanhoada, olhos semicerrados pelo fumo que expelia pelos lábios, libertaram o músico que existia em mim. Agarrei-o pelos ombros e disse-lhe. Gritei-lhe, tamanho barulho saía das gargantas da populaça, que se ele é “um fadista” eu seria nessa noite o seu guitarrista. Entrei na taberna à boleia daquele habitante nocturno de cotovelos afiados que disparando contundentes e certeiras cotoveladas rasgou caminho para o covil “fadista” com a mesma facilidade com que engulo caracóis. E devo dizer que foi uma noite divinal. Fomos um dueto ímpar se é que isso seja possível ou imaginável. Ele não cantava e eu não tocava. E esta perfeita simbiose de dotes musicais encantou não só o público, que duplicava a cada gole de cerveja super-bock demasiado quente, mas, especialmente, os elefantes cor-de-rosa. Esses estavam enlouquecidos pelo nosso espectáculo.

Sim. 1988 foi um bom ano.