Tag Archive for: consciência

en passant

15 Jan
15.01.2020

Há semanas em que os dias correm tão en passant que só tomo consciência de que estou já a meio da semana quando pego na cruzeta “quarta-feira”.

17 Out
17.10.2019 Quanto a mim, adoro o avião, que aguarda o seu Marinetti ou o seu poeta futurista antifascista, pois o avião induz uma outra metafísica, contribui para uma nova perceção do tempo e do espaço. Antes dele, estas formas a priori da sensibilidade kantiana deduziam-se fisicamente, hoje constatam-se experimentalmente: o tempo é espaço, velocidade, deslocação, é a translação num espaço intermédio, bem como uma perceção corporal e subjetiva, uma sensação individual e pessoal. Não há tempo absoluto, nem uma ideia do tempo face à eternidade ou ao movimento, mas apenas a pura consciência de si apreendida em durações variáveis.
Teoria da Viagem. Uma Poética da Geografia de Michel Onfray (página 67)

compêndio de segredos sombrios e factos arrepiantes

30 Nov
30.11.2012

“Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes” de David Soares não é um romance, nem uma colectânea de contos, nem um novela, nem ficção de tuitos, é um LIVRO, com todas as letras em maiúsculas.

Como primeiro apontamento, não deixa de ser engraçado, quando o meu filho me pediu uma frase que revele a importância de Sócrates, o ateniense, eu ter logo arrojado “Sócrates comporta-se como um ‘moscardo’; espicaça as consciências adormecidas no sono fácil das ideias feitas.” de François Châtelet, frase que adoro e que demonstra a luta contra o dogmatismo, ter encontrado na introdução do “Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes” as palavras “são fãs de conhecimento e não receiam procurar a verdade sobre os assuntos, mesmo que isso signifique arruinar concepções enraizadas, mas erradas.

Chegado aqui não sei o que escrever sobre o livro. Tanta coisa para escrever e sem saber como começar. Vou, utilizar, a dica seis de João Barreiros:

Perante o horror de uma página em branco, escrevam nela qualquer coisa para começar. Tipo “O Zezinho era nhónhó”. Esta edificante frase poderá ser utilizada como alavanca inspiradora.

João Barreiros

Aqui está, pois O Zezinho era nhónhó

Ler o “Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes” de David Soares é descobrir um livro dos diabos, no bom sentido do termo… claro, fácil de ler, apesar de ter alguns temas nada ligh, e que revela que o autor nos hipnotiza, facilmente, com palavras (deve ser um discípulo sombrio de Mesmer) – sabe contar histórias.

david soares, uma entrevista

04 Nov
04.11.2012

É com imenso prazer que publico a entrevista realizada a David Soares, no dia seguinte a ter sido premiado na edição deste ano do Amadora BD, com o Prémio Nacional de Banda Desenhada para Melhor Argumento de Autor Português pelo livro «O Pequeno Deus Cego» (uma edição Kingpin Books, desenhado por Pedro Serpa).

O que adoro em todo o seu trabalho, além de uma fantástica imaginação, é a sua capacidade em não nos deixar indiferentes. David Soares é uma referência incontestável na literatura em Portugal – um criador completo. É um autor a descobrir ou a reencontrar.

Não nego a minha grande admiração por David Soares. Possuo todos os seus trabalhos. “Batalha” tenho-a em todas as cores, só me falta comprar a edição da “raposa” e obter “A Conspiração dos Antepassados” com a capa “pessoa”, até tenho impresso em booklet “Um Passeio por Lisboa Triunfante”, e foi, por isso, precisa muita coragem, misturada qb com atrevimento, para lhe colocar algumas perguntas que ele amavelmente acedeu responder.

Agradeço, mais uma vez a David Soares e, pois claro, a todas as editoras que o têm trazido a público.

A entrevista.

1. “(…) É preciso coragem para escrever, e a coragem cresce mais pelo nosso próprio exemplo que pelo exemplo dos outros. É preciso coragem porque escrever é confessar (…)” palavras extraídas do livro “Renascimento” de Brian W. Aldiss. Achas, sinceramente, que um escritor se confessa, não no sentido religioso do termo, ao escrever?

capa_romance

conspiração dos antepassados

Acho que, de uma forma ou de outra, tudo aquilo que se escreve terá alguma relação com a experiência de vida do autor, embora essa relação possa ter maiores ou menores graus de aproximação à realidade. No limite, quando se fala em auto-biografia, essa relação será a maior possível, em outras abordagens já não será tão directa ou não será tão directa em todos os momentos ou de maneira tão flagrante. Pessoalmente, não gosto de ler romances directamente auto-biográficos e de escrever histórias auto-biográficas, porque a minha voz autoral, o meu universo autoral, preocupa-se com temas, imagens e ideias que vão totalmente ao encontro daquilo que é exterior à dita realidade, daquilo que é exterior ao convencional. Logo, a minha obra pouco ou nada tem de auto-biográfico, daí achar difícil que se analise nela algo assemelhado a uma confissão. Há algo de confessional, claro, chamemos-lhe isso, mas na composição do meu próprio universo autoral, ao qual a minha obra se dirige. Com efeito, seria muito estranho se o meu universo autoral não tivesse nada a ver comigo, não é? Mas a minha obra, em regra, não se dirige ao auto-biográfico, não se dirige directamente à minha experiência de vida de todos os dias. Dirige-se, sim, à minha vida imaginal, à minha sombra. A obra que escrevi que, até agora, contém maior profusão de elementos auto-biográficos ainda nem sequer está pronta: é a banda desenhada «Palmas Para o Esquilo», que está a ser desenhada pelo Pedro Serpa, o desenhador de «O Pequeno Deus Cego», e que será editada para o ano. Mas mesmo essa história, na qual existem muitíssimos episódios e elementos auto-biográficos, retirados directamente e sem pudor algum da minha infância, não é de modo nenhum uma história auto-biográfica. Todavia, concordo em absoluto que é preciso coragem para escrever, assim como é preciso coragem para desenhar, para compor, para filmar. Ser artista é muito trabalhoso, muito exigente. Cada vez é mais difícil.

2. Quando vejo um David Soares a dominar com mestria o romance fantástico, em que edita de rajada 4 romances em 5 anos, penso naturalmente que estará, certamente, a preparar outro romance. A verdade é que tal não acontece e deparo com trabalhos em banda desenhada, um ensaio e o teu último em spoken word. São experiências autorais que precisas explorar? São temas que foram imaginados especificamente para cada suporte? Ou servem para descansar, no sentido de não serem, em princípio tão exigentes como um romance?

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o evangelho do enforcado

Tens razão, não estou a preparar outro romance: estou a preparar dois romances.
Um encontra-se todo estruturado e até iniciado, mas tive de interrompê-lo, porque o seu tom – o tom da obra – não estava a ir ao encontro do novo ciclo autoral que inaugurei com «Batalha». O que é que isto significa? Significa que, a partir de «Batalha», encontro-me num novo ponto de observação sobre o meu universo autoral: ou seja, sou um autor, tenho um universo autoral próprio, que é composto por determinadas imagens, ideias e referências, e, cingindo-me aos romances, com «A Conspiração dos Antepassados», «Lisboa Triunfante» e «O Evangelho do Enforcado» observei esse mundo autoral, interroguei esse mundo, sob um ponto de vista em particular, mas ao escrever «Batalha» mudei de ponto de observação, embora as imagens, as ideias, os temas e as referências que compõem o meu mundo autoral se mantenham as mesmas.

Sempre criei em ciclos, sempre alterei as minhas coordenadas de observação a partir de uma determinada obra e mantenho o novo ponto de observação até sentir a necessidade de encontrar outro. Nos romances isso aconteceu com «Batalha». Penso que «A Conspiração dos Antepassados», «Lisboa Triunfante» e «O Evangelho do Enforcado», embora sejam romances com intenções diferentes, com personalidades muito distintas, partilham o mesmo ponto de observação sobre o meu mundo, que é um ponto de observação diferente do de «Batalha»; mesmo sabendo que o mundo autoral de «Batalha» continue a ser o mesmo: até consiste no mesmo mundo ficcional – o mundo de «Batalha» é o mundo de «Lisboa Triunfante» e de «O Evangelho do Enforcado». As minhas bandas desenhadas mais recentes também têm um ponto de observação completamente diferente das mais antigas, embora o meu universo autoral continue a ser o mesmo. De maneira que tive de interromper o trabalho no romance todo estruturado e iniciado de que falei no início desta resposta, porque o tom da narração dele estava muito relacionado com o ponto de observação que abandonei com a escrita de «Batalha», logo tenho de encontrar um modo de integrar esse romance interrompido no tom que me interessa explorar neste preciso momento. No tom que, evidentemente, estou a explorar com um novo romance – diferente – que estou a estruturar e a corporizar. Já tenho escritos vários blocos de texto e muitas ideias apontadas e estou, pois, a construir uma estrutura e uma linha narrativa que me estão a dar um prazer enorme. É um romance que conto publicar no próximo ano.

os_anormais

os anormais: necropsia de um cosmos olisiponense

No que diz respeito à banda desenhada, à não-ficção e ao ‘spoken word’, são linguagens diferentes da do romance, mas não consistem em linguagens de repouso ou de experimentação. Quando concebo uma ideia para uma nova obra ela já vem com um carácter único que pede uma linguagem específica: ou pede para ser um romance, uma banda desenhada ou um ‘spoken word’. Não forço as ideias a serem obras que elas não querem ser e não as programo no sentido de fazer uma bd a seguir a um romance ou um romance a seguir a uma bd. Se tiver apenas ideias para bd durante um certo período, então só escrevo bd. Se tiver apenas ideias para romances durante um certo período, então só escrevo romances. Não programo estas coisas, as ideias é que surgem e pedem para ser o que são: elas já nascem bandas desenhadas, romances ou ‘spoken word’. É como ser-se menino ou menina. E a banda desenhada é uma linguagem muito exigente, porque escrevo as minhas bandas desenhadas prancha por prancha, vinheta por vinheta, descrevendo todos os planos e sequências, mais os textos: tenho de descrever por palavras, num argumento o mais completo e rigoroso possível, tudo aquilo que imaginei na minha cabeça de modo a ser compreensível para o desenhador. É por isso que também desenho ‘layouts’ dos meus argumentos para os desenhadores compreenderem com mais facilidade o universo autoral que imaginei. Quanto ao ‘spoken word’, o meu novo disco «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» é dos textos mais complexos e desafiantes que já escrevi nos últimos tempos: e não possui nenhum apoio em papel, foi feito para ser ouvido. É tão exigente quanto um romance – talvez mais, porque não tem a familiaridade do papel, é um trabalho que aborda sem tréguas o ouvinte com um texto multi-referencial e ultra-polissemântico.

3. Tens consciência que a tua escrita não é certamente muito acessível para um mercado de leitores mais habituado a, digamos, livros mais fáceis de digerir? Não te assusta saber que o mais certo é existir cada vez menos leitores capazes de te querer ler porque estamos numa época que tolera e recompensa o que é mau? Ou é isto uma falsa questão? Ou a ser um problema não te assusta porque sentes que o que importa afinal são as palavras por mais excêntricas que possam ser e que a exigência e a inteligência acabarão por vencer?

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o pequeno deus cego

Olha, acho que nem sempre a exigência e a inteligência acabam por vencer, para ser sincero. Muitas vezes, se calhar a maioria das vezes, ocorre até o oposto. De facto, a minha abordagem ao ofício da escrita faz-se pela porta grande da polissemântica, da polissemia, da polinização total entre palavras, entre neologismos e arcaísmos. Ao fim e ao cabo, o que é um arcaísmo? Para mim não existem palavras mortas, porque sou um escritor: eu amo as palavras, verdadeiramente. Não quero que elas morram, não sou nenhum coveiro das palavras. Se se é escritor para se ser coveiro, então não vale a pena.

Quando escrevo no Twitter estou a comunicar, por exemplo, mas será que se pode escrever um romance do mesmo modo que se escreve no Twitter? Quer dizer, pode-se e até acho que isso já foi feito, infelizmente, mas será literatura? Claro que não, mas, independentemente disso, anda por aí uma moda muito estúpida relacionada com micro-ficções e com micro-micro-ficções. Isso para mim é a antítese total do que a literatura deve ser. O Alexander Theroux diz que se formos a casa de alguém e virmos que não existe um exemplar do «Dom Quixote» estamos em maus-lençóis e devemos fugir o mais depressa possível e, embora ele esteja a ironizar, tem toda a razão, porque onde não um «Dom Quixote» há certamente um livro escrito por uma celebridade ou por um tarefeiro dos géneros que estejam na moda na altura ou uma micro-ficção ou, pior, poderá nem sequer haver livros.

Quem é que hoje em dia lê o «Dom Quixote»? Ou o «Gargantua» do Rabelais? O «Ada» do Nabokov? Ou o Laurence Sterne, o Dante, o Joyce, o Barão Corvo? O que mata a arte é achar-se que ela tem de ser um mimetismo do real – e o que mata a literatura é achar que um livro tem de ser uma coisa muito perceptível, muito escorreita, muito entretível. “Lê-se como um romance”, diz-se quando se quer sublinhar a faculdade que uma obra tem de ser de dócil assimilação, como se o romance fosse o epítome da docilidade, da mansidão. Até já vi à venda um livro que tinha uma cinta promocional com a frase «um livro muito fácil de ler» – isto é rigorosamente verdadeiro, o que é espantoso. Enfim, como é que se luta contra isto?

É claro que nem toda a gente tem capacidade para ler títulos como «Don Renato: An Ideal Content», escrito pelo Barão Corvo em 1909, que mistura inglês, italiano, latim e grego na mesma frase – às vezes na mesma palavra! – e apresenta um dos vocabulários mais intrincados e luxuriantes que tive oportunidade de encontrar num livro. Nem toda a gente tem capacidade para ler o «Ulysses», quanto mais o «Finnegans Wake», muito menos o ultra-erudito «Darconville’s Cat», mas isso, ao fim e ao cabo, é um problema dos leitores, não é um problema dos escritores. Eu escrevo aquilo que tenho vontade e necessidade de escrever: se me percebem, óptimo. Se não percebem… Que posso eu fazer? Não se pode ser compreendido por toda a gente ao mesmo tempo, não é verdade? Não posso é, entre aspas, descer a minha fasquia para ir ao encontro da média, digamos assim. Isso é impossível. Nesse sentido, fico feliz por saber que também tenho cada vez mais leitores, mesmo com toda a excentricidade e erudição do meu vocabulário e da multiplicidade de camadas dos meus livros. É sinal que ainda há muita gente que sabe ler e que procura livros que lhes estimulem o intelecto, livros que lhes venham a pertencer. Isto é muito importante, a pertença. A construção da biblioteca interior.

batalha

batalha

No século XVIII e ainda no século XIX os leitores andavam com um livro em branco no qual copiavam trechos mais significativos das leituras que iam fazendo e quem não tinha um caderno desses era considerado um bárbaro. Era uma espécie de construção do homem através do livro, da leitura. O homem era o somatório do que lia. Hoje ninguém se constrói a partir dos livros: constroem-se a partir dos maus filmes de entretenimento, dos jogos de vídeo, da má música popular, dos desportos de massas. Cultiva-se a aparência, mais do que o corpo saudável: o que interessa é parecer bem, não é estar bem, e, nessa óptica, devota-se mais tempo ao ginásio do que à biblioteca. Vivemos numa espécie de período neo-romano, em que o que interessa é o carácter utilitário e prático das coisas. Se algo não tem um propósito prático, imediato, então não serve, não presta. E sob essa égide rasura-se o ensino da filosofia dos currículos escolares, por exemplo. Falta compreender aquilo que os gregos sabiam e que os romanos desaprenderam: que até as coisas práticas têm de ser belas, têm de ter poesia. Se assim não for, é um vazio muito grande. É, de facto, a era do vazio, mas não do vazio construtivo, aquele vazio ocioso que nos permite ouvir, ver e ler com atenção e com propriedade memorativa. É, antes, o triunfo do vazio sorvedouro, do vazio aniquilador ao toque.

4. Concluo, pelo que vou lendo, que é muito importante para ti uma apurada investigação sobre o que te propões narrar. Não te aborrece saber que isso te impede de escreveres mais livros?

A investigação não me impede de escrever, de forma alguma. Pelo contrário, o ofício da escrita faz-se escrevendo e lendo. Quem não lê, não poderá escrever, mas é ler a sério, ler muitíssimo. Ler e pensar sobre o que se leu. Memorizar, reflectir. Isto é importantíssimo, andar a pé com a cabeça cheia de livros. Ao fim e ao cabo é a construção da biblioteca interior, como disse na resposta anterior. A coisa mais triste do mundo é um escritor inculto. O James Joyce dizia que tinha a mente de um ajudante de merceeiro. Deve ter sido numa altura em que os ajudantes de merceeiro seriam os fulanos mais geniais do mundo, de certeza. Estas falsas modéstias, enfim, fazem mais mal que bem, sinceramente, mas é imperdoável que o ajudante de merceeiro não saiba pesar os artigos e fazer contas (de merceeiro), não é? Porque é o trabalho dele, evidentemente. Se não sabe fazer contas e pesar os artigos está a ser um mau ajudante de merceeiro. Ora, o ofício do escritor é lidar com as palavras, com o conhecimento. Se não se domina estas áreas, se não se é bom com palavras e com o conhecimento, então também se está a ser um mau escritor. E quando é assim, não vale a pena insistir. Não vale a pena insistir, porque a arte sai de dentro para fora, logo não pode ser forçada. E não vale a pena insistir, também, porque a concorrência é numerosa e ferocíssima. A arte não se compadece com indivíduos de fraca vontade: ou se é artista ou não se é – e quando se é, é-se em todos os momentos, todos os dias, por mais difícil e angustiante que isso possa ser. O artista não é um indivíduo normal. Eu não sou um indivíduo normal. A normalidade usa fatos de treino para ir às compras ao supermercado, lê jornais desportivos e vê “reality shows”. A normalidade não me interessa.

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lisboa triunfante


5. Sentes que a tua literatura não é descartável e que envelhece bem?

Claro. Tenho o cuidado e o engenho de escrever livros que dificilmente se deixarão datar.

6. Não te assusta o rótulo de seres considerado o melhor autor português de literatura fantástica? E achas que o és não apenas por que escreves livros inteligentes, mas, acima de tudo, por que não tratas o leitor como um imbecil?

A minha obra insere-se no género fantástico, porque o meu universo autoral, próprio, distinto, pessoal, se preocupa com ideias, temas e imagens que vão ao encontro do inrotineiro, do sobrenatural, do esotérico, mas a minha obra não assenta e nunca assentou em lugares-comuns ou referências associadas a este ou àquele género literário, por isso, sim, pode considerar-se literatura fantástica, se se quiser, e com muito gosto da minha parte, mas por via do meu universo pessoal, não por via do mimetismo referencial – chavânico – que está na base do preconceito crítico contra a literatura de género.

De facto, a maioria desses livros é péssima e tem como único objectivo vender-se, não tem como objectivo ser literatura. Mas o mesmo pode dizer-se da maioria da literatura contemporânea, que também é uma maioria má que se farta, daí que a pertinência e qualidade de um livro não se relacionam com a sua taxonomia num ou em outro género. No que diz respeito à literatura dita fantástica, às vezes encontro mais imaginação e arrojo em livros que parecem estar fora dela, pois possuem uma imaginação mais desafogada, livre das tais cavilhações de género que só servem finalidades comerciais, porque o cliché, enquanto unidade constitutiva, por força da familiaridade, tem sempre mais aceitação imediata que algo exótico. Quantos fãs de literatura fantástica já terão lido obras verdadeiramente originais, como o maravilhoso «The Chess Garden» de Brooks Hansen, em vez das inanidades pseudo-medievaleróticas e quejandos que passam por fantásticas hoje em dia? De fantástico terão pouco, de facto, e de literatura, então, nada têm. Pode ser ingenuidade minha, mas fico muitas vezes surpreendido com a impunidade com que se publica o lixo que ocupa espaço nas livrarias.

Mas, na verdade, se acham a minha obra fantástica ou não, no fundo, não me interessa nada. É fantástica, é desfantástica? É o que quiserem que seja, porque a interpretação é exterior à obra, não a contamina. Os livros estão escritos, são lidos, apreciados, criticados, fica aquilo que quem os ler for capaz de entender e retirar. Se forem leitores cultos, inteligentes, que gostem de ler, que não se sintam diminuídos por aprenderem coisas e palavras novas, vão retirar bastante, ao contrário daqueles que apenas querem encontrar coisas e palavras que não os desafiem, aqueles que querem apenas entreter-se na acepção mais elementar.

No fundo, comunicar não me interessa. Nenhum artista autêntico está interessado em comunicar, nem poderá esperar que isso aconteça, a não ser que esteja disposto a ir bater à porta de todo o seu público a perguntar a cada indivíduo o que achou da obra, porque isso é que é comunicar. Ora, eu estou interessado em transmitir, que é diferente. É por ser artista, por ser escritor, que tenho ideias para transmitir, ideias que eu considero importantes para o público. Acho que a diluição da fronteira entre artistas e público está a matar a arte. Bem sei que estamos na era do Facebook, do Twitter e afins, que são mais ou menos úteis em divulgar aquilo que se faz, mas acho que faria bem a todos se se reforçasse essa fronteira.

7. O que podemos esperar para breve de David Soares no futuro próximo?

Consideremos o próximo ano como esse futuro próximo: um novo romance e um novo livro de banda desenhada.

a luz fantástica

03 Fev
03.02.2012

A Luz Fantástica (The Light Fantastic, 1986) de Terry Pratchett é o segundo livro da excelente série Discworld.
É uma obra super divertida. Mais explicações? Só lendo. (e já escrevi isto anteriormente)

(…) a inconsciência do homenzinho em relação a todas as formas de perigo fazia de alguma modo o perigo sentir-se de tal maneira desencorajado que acabava por desistir e ir-se embora.

página 20

Esta é a lista dos livros que já li do universo Discworld que está a ser lida sem ordem.

  • Luz Fantástica (The Light Fantastic, 1986)
  • Ritos Iguais (Equal Rites, 1987)
  • Mort (Mort, 1987)
  • As Três Bruxas (Wyrd Sisters, 1988)

vaporpunk

06 Dez
06.12.2011

“VaporPunk – Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades” é uma antologia de ficção curta com história de autores brasileiros e portugueses que têm por base o género steampunk.
Como qualquer antologia é positivo descobrir de rajada diversas história escritas por vários escritores, diversos estilos; adoro descobrir sempre novas formas de abordar o contar.

Organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luis Filipe Silva VaporPunk oferece 1 conto e sete noveletas:

  • A fazenda-relógio, Octavio Aragão
  • Os oito nomes do deus sem nome, Yves Robert
  • Os primeiros aztecas na lua, Flávio Medeiros Jr.
  • Consciência de ébano, Gerson Lodi-Ribeiro
  • Unidade em chamas, Jorge Candeias
  • A extinção das espécies , Carlos Orsi
  • O dia da besta, Eric Novello
  • O sol é que alegra o dia, João Ventura

Deste conjunto há, naturalmente, história que apreciei mais do que outras. No geral é uma antologia bem conseguida a todos os níveis; até a nível gráfico o livro é um must.

O livro foi uma pechincha tendo em conta que veio pelas mãos de um amigo directamente do Brasil. Pena ele não ter trazido DieselPunk.

Vaporpunk, diversos autores // organização: Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva // editor: Editora Draco, 1ª edição 2010 // isbn: 978-85-62942-12-9

os olhos de allan poe

20 Mai
20.05.2011

Quando compro um livro de um autor desconhecido é um risco não calculado – nunca sei o que vai sair dali; a capa é um factor importante porque é aquilo que nos faz pegar naquele livro em particular e não nos outros que estão ao lado (digamos que é uma manobra de acasalamento literário); a sinopse na capa é, contestavelmente, um factor importante que só se concretiza depois da fase visual de acasalamento.

O ano passado após a leitura de um livro e do registo da minha opinião, nada modesta, convenhamos é a minha, opinião, ao coloca-lo na prateleira denoto que nessa estante (a encher) em cada 10 livros 6 são da editora Saída de Emergência, os restantes dançam entre outras editoras – curioso! Nunca tinha reparado naquela simetria de logótipo.

Regresso ano de 2009, mês Junho, dia nove e recordo o meu espanto ao reler o meu comentário ao livro “A Sabedoria dos Mortos” e na altura ter enaltecido com a minha mulher este lançamento e as excelentes notas de tradução – editora Saída de Emergência.


Regresso ao ano de 2010, mês Dezembro, dia quinze e pouso uma excelente obra de steampunk “A Corte do Ar” no foi uma grande coragem editorial e um pesadelo de tradução (superado); desta feita já sabia qual a editora – Saída de Emergência – estive presente no dia do seu lançamento. Nunca é demais relembrar a obra de Philip Reeve publicada pela Editorial Presença (“Engenhos Mortíferos” (2001), “O Ouro do Predador” (2003) e “Máquinas Infernais” (2006). O quatro livro da série “A Darkling Plain”, presumo que, ainda não teve a sua edição em português).

Foi, contudo, em Agosto de 2010 que tomei a devida consciência da editora por detrás do livro que me enriqueceu as férias “O Evangelho do Enforcado”. Desde essa altura que sigo com cuidado os lançamentos desta editora e quando vou “às cegas” é agora um risco calculado – “risco calculado” é quase análogo a certeza de boas leituras com a Saída de Emergência. E isto é escrito sem menosprezar qualquer editora. Não sou pago para dizer bem, nem para maldizer – infelizmente.

E isto precede a minha opinião ao “Os Olhos de Allan Poe”

[…]

“Os Olhos de Allan Poe” (“The Pale Blue Eye” de 2006) é uma grande aposta editorial da Saída de Emergência (espero que seja ganha a nível comercial – para evitar a frase “uns compensam os outros”).

“Os Olhos de Allan Poe” é o nec plus ultra das suas obras, as lidas por mim – naturalmente (três: “Mr. Timothy”, “Fool’s Errand”), que adorava ver editadas em português. Espero que a Saída de Emergência edite, pelo menos, os seus romances mais recentes “The Black Tower” (2008) e “The School of Night” (2011) – não é pedir muito?

“Os Olhos de Allan Poe” tem tudo para ser um sucesso em Portugal: narra uma história de assassinatos tenebrosa; temos magia negra; alguns fantasmas; e tem duas personagens principais (Gus Landor e Poe) com uma densidade psicológica bem retratada que se movem num século XIX maravilhosamente pintado – local do crime: West Point; ano: 1830.

Uma das partes mais divertidas da leitura é certamente encontrar um jovem Poe com um nada saudável gosto pela bebida, mas contrabalançado pelo prazer de arrojar frases em francês. A narração é feita em dois compassos: temos a narração (quase sempre num tom intimista) de Gus Landor e os escritos bombásticos (cheios de eloquência) de Poe (o ajudante de “campo” de Gus Landor) em forma de missivas.

E enquanto Poe e Gus Landor se gladiam intelectualmente, na descoberta dos responsáveis pelos crimes, segredos mútuos vão-se revelando. Fiquei de tal forma embrenhado na história, nas personagens, que o final foi um surpresa final – aquele último gole que nos faz olhar tristemente para o copo que se encontra agora… vazio.

Edgar Allan Poe não precisa de apresentações; e no que diz respeito ao género “policial” criou a primeira aventura dos mistérios de “quarto fechado” com a aventura “The Murders in the Rue Morgue” e nesta mesma aventura “Os Crimes da Rua Morge” (Livros de Bolso Europa-América, n.º 279, 1981) os crimes são investigados pelo Detective Dupin, o pai de Sherlock Holmes. Um conto a ler ou a reler.

Recomendo vivamente “Os Olhos de Allan Poe” por tudo o que escrevi e pelo resto que cada um irá acabar de descobrir.

a conspiração dos antepassados

10 Mai
10.05.2011

Ele seguia em missão, em busca do género de sabedoria que mais lhe aprazia, mas quem eram aquelas homens e mulheres de olhos vagos, senão cadáveres adiados que procriavam, vivendo sem sabor e sem surpresas? Sem saltos na criação?

página 113

Terminei a leitura da obra “A Conspiração dos Antepassados” e agora é fácil perceber por que o tal site se chama “Cadernos de Daath”; e, assim, acabei de ler os romances de David Soares pelo princípio.

Estou aborrecido com David Soares e já tinha dito que me iria vingar após esta última leitura. Assim sendo qual a sua desculpa para o 1º romance ter 363 páginas, o 2º romance 408 páginas e o 3º 341 páginas? Sabendo que em ambos são usados caracteres Minion corpo 12.

[…]

A primeira e a última impressão com que fiquei depois de ler “A Conspiração dos Antepassados” (ou qualquer das outras suas obras) é de ESPANTO. Inicialmente não compreendo por que ele escreve aquele palavra, discorre aquele diálogo/monólogo, narra um evento – aparentemente descontextualizados; com o decorrer da história as peças do puzzle completam um quadro magistralmente pintado.

David Soares com “A Conspiração dos Antepassados” criou uma história sem pontas soltas; as palavras estão delicadamente colocadas no sitio certo, criando com isso uma narrativa articulada, tal como um artesão relojoeiro monta um relógio. “A Conspiração dos Antepassados” não é uma leitura fácil, nenhuma obra que li de David Soares é; com isto é afirmar que seja de difícil compreensão? Não, de forma alguma. Apenas, e é um apenas gigantesco, David Soares com uma narrativa pormenorizada, estudada, fundamentada não poupa nada e ataca sem dó nem piedade os nosso sentidos, as nossas convicções, a nossa moral, a comodidade de uma história de Portugal sombriamente dogmática.

(…) comporta-se como um “moscardo”; espicaça as consciências adormecidas no sono fácil das ideias feitas.

François Châtelet

… e isto não é fácil de aceitar. O caminho, mais fácil é olhar a obra de soslaio (não a ler) e tecer críticas por que sim; o vulgo onanismo literário.

O que adoro na escrita de David Soares além de uma fantástica imaginação (poderia elogiar a suas representações fantásticas e adjectivar com um, ainda, “doentia”) é a sua capacidade de não nos deixar indiferentes: ou se odeia ou se ama o livro. David Soares não é um Marcel Proust, nem poderia sê-lo, como Marcel Proust nunca poderia ser, e não é por estar morto, um David Soares. Ambos são ímpares nos universos que constroem e nessa genialidade está a única semelhança.

David Soares continua, para mim, a ser A referência do fantástico em Portugal, mas para isso tive de o ler; e isso custa… pois.

os dados estão lançados

04 Mai
04.05.2011

Com uns miseráveis 7 anos comecei a ler “Guerra de Paz”; apenas 7 anos depois é que retomei a leitura e a terminei.

Com uns deliciosos 10 anos li – oferta da minha mãe – “Esplendores e Misérias das Cortesãs” e uma obra, rapinada ao meu Tio João, “Os Dados Estão Lançados”, que me catapultou para outros níveis; muito mais tarde consegui comprar só para mim uma edição (5ª edição) da obra de Sartre.

De seguida li o “Despertar dos Mágicos” cujo número de páginas não me assustou. Se percebi metade do que li, claro que não, acho que nem um terço.

Depois, com este impulso, comi avidamente todos os clássicos literários/ensaios, etc. Se algum ficou de fora foi por que não havia na biblioteca itinerante Gulbenkian à qual tinha acesso privilegiado. Iniciei-me na letra [A]lain-Fournier e terminei na Stefan [Z]weig – literalmente.

“Os livros da minha vida”, um artigo que recomendo lerem de David Soares na revista Bang n.º 9 (falarei da revista noutra altura), levou-me a pensar nos meus livros; esta é a primeira verdadeira entrada directamente do sótão.

Para terminar entendo que devo concluir esta pequena visita ao sótão dos meus livros com umas palavras que estão escritas num possível livro que está, apenas – para já, para sempre? – a ser-me revelado:

O que é deliciosamente assustador, naturalmente, sem a profusão literária das memórias involuntárias produzidas pelo sabor das migalhas da madeleine de Proust misturadas numa colher com chá, são os pequenos pedaços do meu passado, desencadeados por um cheiro intenso de saudável maresia, que se foram desenrolando na mente enquanto tentava adormecer e outros fragmentos que entretanto surgem enquanto tento descrever essa noite – e não havendo, na verdade, qualquer sequência cronológica e muito menos lógica nas lembranças, são, não obstante isso, os fotograficamente eternos pequenos instantes do meu passado. O que é, afinal, um homem sem memórias? de si e dos outros? Não me imagino a conseguir viver, a continuar a existir, sem a consciência de mim e do meu passado sempre presente. Descubro-me muitas vezes a pensar que são estes meus devaneios que me animam, que diabolicamente, também, me angustiam, mas que, surpreendentemente, dão – ou tentam? dar – algum ténue sentido ao meu viver.

fragmentos de um paradoxo

… e neste(s) meu(s) passado(s) os livros têm uma presença constante.

29 de abril de 2011

29 Abr
29.04.2011

ainda com 210 anos, maravilhas da biotecnologia – sou mais máquina do que verdadeiro tecido humano – recordo sem dificuldade o dia 29 de abril de 2011 (o implante cibernético que grava agora a nossa vida recuperou sem problemas as recordações até ao primeiro momento de consciência in utero. onde estavas tu a 29 de abril de 2011? é uma das perguntas dos meus trisnetos sempre que me visitam nos retrógados festejos de anos. respondo, sempre perante os olhares incrédulos, que estava, entre outras coisas, a ver umas fotografias da última ceia dos condenados à morte: last suppers

não entendo como podem esperar outra resposta – continuamente. que acontecimento importante ocorreu a 29 de abril de 2011? muitas mortes. muitos nascimentos. muitas juras de amor. muitos casamentos. muitos funerais. muitos… só se esperam que lhes fale de um casamento real que em tons de fada embruteceu milhões de pessoas “até que a realidade os absorva novamente e se mentalizem, mais uma vez, que o benfica, não ganhará o campeonato de futebol, que os fritos ainda fazem mal, que o iva ainda vai subir mais, que o pato donald ainda não casou com a margarida, que ainda não foi descoberta a velocidade da escuridão, que a gasolina continua cara, que clicar rapidamente no botão de chamada do elevador não o faz chegar mais rápido, que os juros não descem, que o super-homem é na verdade um herói de collants, que continuará a existir anedotas sobre loiras.

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