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pois sim!

Ela entra no quarto e vê-me deitado na cama, embrulhado em duas mantas, a olhar impávido, concentrado ao máximo, para o ecrã preto da televisão, de cenho franzido.

“O que estás a fazer aí pasmado a olhar para a televisão?”

“A ligar a televisão com o poder da mente.”

“Não estás com muita força mental! Ah! Ah! Ah!”

“Muitas interferências. Muito wi-fi a atravessar-me o corpo”, e nessa altura estico o meu braço direito e arrojo um rrrrrrrrrrrrrrrhhhh. Ela virou-me as costas e saiu do quarto suspirando um longo “ó nossa senhoraaaa.” Ela quando suspira consegue ainda ser mais sensual. Um dos meus objetivos diários é conseguir da minha amada o maior número de lamentos doces e melodiosos. E a televisão continua em preto.

Recupero o livro, Quando o Cuco Chama, escondido pelas mantas, e recomeço a leitura.

Algum tempo depois ouço passos. É ela a aproximar-se do quarto. E o que vê quando entra? Uma pessoa deitada na cama, embrulhada em duas mantas, a olhar impávida, concentrada ao máximo, para o ecrã preto da televisão, de cenho franzido. “A sério! Vais continuar com essa parvoíce?”

“Sei que vou conseguir em breve. Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrh. Já eliminei alguns dos ruídos de fundo. Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrh.” E não é que a televisão acordou e exibiu orgulhosamente o seu logotipo antes de colorir o quarto com cores 4k.

“Satisfeito?”, disse ela ao atirar o comando da televisão para cima da cama enquanto abandonava ondulantemente o quarto.

Afinal tenho muita força mental, pois sim.

em casulo

Deitado no sofá do meu antigo escritório, tapado por uma manta, mãos enfiadas nos bolsos das calças, com o termoventilador a espirrar farrapos de calor, comecei a sentir uma saudável languidez a assaltar-me o corpo. Saí para trabalhar já crisálida.

Naquele casulo e durante 15 minutos tive o melhor momento do dia.

limão…

Apenas tenho a dizer que hoje me sinto adocicado. Se eu ficar em lume brando e for bem misturado com sumo de limão sinto que serei transformado numa verdadeira mousse de limão. E mais coisas pessoais não direi.

de lado – 0036

Se as hóstias fossem muffins eu ia todos os dias à missa – ou não.

de lado – 0015

Comprei um sino em Lilliput. É pequeno e por isso apenas serve para um doce propósito: confundir o silêncio com delicadas badaladas.

evil mind

I’ve a sweet heart, but an evil mind.

melodious interview to teri lee kline

Just knowing Teri Lee Kline by what she writes is easy to see that she’s full of vitality, humanity and with a heart of an intoxicating sweetness. She is also a writer that can, easily, dazzled me. See, for instance, the work “Snakes At His Feet”.

A while ago I did a little acrostic with the word Teri, and here it is:
Today we
embrace with
rejoicing the
illuminated presence of Teri Lee Kline.

1. Do you have a specific writing style?

My writing is intensely personal. I try to go directly to the heart of the matter. This is especially important, for obvious reasons, in very short fiction. This does hold true for me, however, regardless of the form I am utilizing. My longer fiction, creative non-fiction, journalistic pieces and even the interviews I conduct have this as the hallmark, as well. My heart is forever on my sleeve for all to see.

2. What books have most influenced your life?

When, in my youth, I read To Kill a Mockingbird and The Grapes of Wrath I was unalterably set on a course to view the world in a certain way. They were monumental books for my education and evolving character. Then, as a teenager, reading To The Lighthouse, Mrs. Dalloway, The Waves, A Room of One’s Own, I was blown away with the possibilities in language, words, and literature. It was after reading these Virginia Woolf classics that I began my lifelong love affair with reading and writing. Lastly, James Agee’s A Death in the Family, my favorite novel, taught me about writing from the truest depth of my heart, how to evoke mood, and power. Phenomenal book.

3. If you had to choose, which writer would you consider a mentor?

I consider teachers, more than other writers, my mentors. I had a teacher in my youth, Mrs. Delphine Johnson, who recognized in me an innate talent for expressing myself through the written word. She was the first to identify this and encouraged me throughout my school years. My English professor at the University of Minnesota worked endlessly with me and was at my side when I won the Best Freshman Writer scholarship that year. I will never forget these teachers. Of late, a dear friend, Jason Rolfe, encouraged me to submit my work for publication. He is a wonderful writer, mentor and mensch! I am forever indebted to him.

4. What are your current projects?

I always have several projects brewing at any given moment. Presently, I am collecting my very short fiction pieces and will begin the process of looking for a publisher. I am also at work on a book length project about very small towns of the world. I also love conducting interviews and doing profiles of writers and artists. I usually have one of those in the works. I would love to start my own journal of food related fiction, non-fiction, poetry, and photography. I’m working towards that goal, as well.

5. How much research do you do?

It depends on the project, but I normally choose projects that do not require much research.

6. Do you write full-time or part-time?

I write as often as I can. My notebook is ever ready.

7. Where do your ideas come from?

My ideas come from many places: my observations of people, from observing nature, from my dreams, from stories in the news. Most often my best ideas come to me when I am in that blessed and magical state between wakefulness and sleep. It is usually in moments of silence that my muse speaks.

8. How can readers discover more about you and you work?

I have found Facebook and Twitter to be useful tools for connecting with readers and especially with other writers and artists. My posts are generally very personal in nature. People respond well to this and for this I am pleased and grateful. I am quite new to the world of publishing so therefore do not have a long list of credits. I was very happy to be featured on the pages of Literary Orphans multiple times, Sein und Werden and also, the Utter Nonsense issue of the international journal of experimental and absurdist literature and art, The Black Scat Review.

vozes…

Não me senti louco quando principiei a ouvir vozes atrás de mim; primeiro num chilrear, depois em cacofonia. Agora ouvia ruídos do lado esquerdo, do lado direito e pelo andar da carroça iria sofrer o mesmo tormento à minha frente. O vozeirão estava insuportável. Os meus ouvidos já não tinham capacidade para absorver a notável desordem sonora. A suculenta ideia de estar sozinho, para repensar na inconstância da vida, mas acompanhado transformou-se em frustração.

Deveria ter adivinhado que um estádio de futebol nunca serviria o doce propósito de sublimação zen.

the box

Uma caixa de supresas? Um caixa de doces? A caixa de Pandora? Não!

Uma verdadeira caixa de almas – pedir perdão a um Deus.

bolachas maria

Que me perdoe Umberto Eco, mas não consigo digerir o seu livro “A Ilha do Dia Antes”. É culpa minha eu sei, mas devo dizer que tentei por diversas vezes avançar uma página e outra página e mais outra, sem resultado. Não me sinto tão culpado se não me esquecer que adorei ler “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foucault”.

Agora falo assim porque finalmente compreendi tudo do meu corpo. Estudo-o dia após dia, sei o que se passa nele, salvo que não posso intervir, as células já não me obedecem. Morro porque convenci as minhas células de que não há regras, e de que de cada texto se pode fazer o que se quiser.

O Pêndulo de Foucault, ed. Círculo Leitores, 1990, pág. 497

Mas será que, afinal, ando temporariamente sem paciência para este tipo de literatura ou é algo de definitivo? Este pensamento já me tinha vindo à mente quando escrevi o post a diaba. Na altura pensei, como é que tive paciência para ler isto? O isto é o “Doutor Fausto” de Thomas Mann. Ao seu lado está encostada a Divina Comédia de Dante, traduzida por Vasco Graça Moura, em edição cuidada do Círculo de Leitores (1998). Como consegui continuar a sua leitura depois de

No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida.

Divina Comédia de Dante

ainda está por explicar ou tem duas simples explicações:

– não fui obrigado a ler Dante, como o fui, por exemplo, a ler Luís de Camões ou Eça. Fraca explicação porque adorei de tal maneira Eça que depois d’ “Os Mais” “papei” tudo que era de Eça;

– sou saudavelmente fascinado por ambientes góticos – ver inclusive a minha tatoo – e o inferno é na sua essência algo de dark. Esclareço que posso ser, sem grande esforço, um gótico hedonista – o prazer é bom e deve ser perseguido pelo homem; também posso ser um gótico niilista, mas aqui a culpa é desse Nietzsche e da falsa moral cristã que me quiseram impor a ferro-e-fogo. Posso ter perdido os valores de Deus, mas não perdi o sentido da moral. “Deus está morto!” e serviu um doce propósito, ser superado.

São explicações pobres. São, contudo, as que entendo existir, e como não desejei mais continuar a sofrer mandei-me de cabeça, feito tolo, ao livro “A Viagem De Théo” de Catherine Clément.

Assim, ontem ou antes de ontem, ou mais tarde, não me lembro, estava então a ler “A Viagem De Théo” quando fui bafejado por uma chávena de cevada e 6 parcas bolachas Maria entregues pela minha mulher – não digo esposa porque o meu professor de português castigou-me no 10º ano, a propósito de sei lá o quê, dizendo que esposa (sponsa, lat.) significa a prometida, aquela que assumiu um compromisso, enfim, coisas.

Com prazer imerso até metade duas bolachas na cálida cevada e essa metade despega-se e cai dentro da chávena. Não desistindo afundo de uma só vez as 4 bolachas restantes e consigo sem problema leva-las à boca. Continuo a saga mergulhando, mas sempre até metade, as 4 meias bolachas e pumba na boca novamente. Decidido a testar mais arduamente a minha experiência saco de um pacote de bolachas Maria.

Constatei, sem qualquer dúvida, não só que se deve mergulhar sempre 4 bolachas Maria na cevada quente para que estas não se partam, mas também que um pacote inteiro de bolachas Maria sabe muito melhor do que 6 bolachas Maria.