Tag Archive for: dor

libertação

05 Set
05.09.2011

LIBERTA, SENHOR, A HUMANIDADE SOFREDORA
MAS LIBERTA-ME PRIMEIRO A MIM, QUE SOU QUEM MAIS SOFRE
Basta andar alguns quilómetros na automotora para descobrir isso. Se não puderem queixar-se de mais nada, queixam-se das suas estúpidas doenças, das dores nos joelhos, das pedras na vesícula, das úlceras, das veias inflamadas, dos soluços e das azias, das diarreias e das caganitas empedernidas que até fazem barulho ao bater no fundo do penico
e imaginam, enquanto falam de tudo isto, que alguém lhes dá importância só por se queixarem.
IDIOTAS DE MERDA

A Morte de Um Apicultor, Lars Gustafsson

cheiros

18 Abr
18.04.2011

Ao entrar na Rua de Santa Marta pressagiei um ataque demoníaco às fossas nasais tal era o cheiro abominável de bicho morto que o bolbo olfactivo processou. Passeei os olhos pelas bermas à procura do emissor daquele cheiro. Àquela altura do dia (07.30) gostava de deslocar-me pelo meio da rua, evitava os inúmeros excrementos depositados na noite anterior pelos canídeos domésticos no passeio do lado esquerdo, por isso a pesquisa estava facilitada – a visão periférica disparava harmonicamente nos dois sentidos. Não encontrei nada que justificasse aquele odor que se diluía enquanto continuava a subir a rua.

Quando abandonei a Rua de Santa Marta e desaguo na Avenida de Santa Marta que beija durante alguns metros um dos muros do cemitério, fui, novamente, vítima inocente, como deve ser qualquer vítima, do putrefacto aroma que não vinha do contentor de lixo situado logo ali à minha direita.

Aquele cheiro a morte, que tinha (sim) de ter uma qualquer razão (porque “onde há fumo há fogo”), incomodou-me. Parecia que o meu olfacto estava marado; que a minha cabeça estava a quer transmitir, pouco sub-repticiamente, alguma coisa (pois onde há fumo há bem mais que fogo“). Não tenho problemas com a morte; vivi (vivo?) com ela demasiado tempo na minha mente, mas o cheiro nauseabundo molestou-me. E enquanto os meus passos ressoavam, agora, no espaço claustrofóbico da Avenida de Santa Marta – de um lado, esquerdo, o muro do cemitério do outro lado, direito, a parede branca, mas pouco imaculada, do estádio Adelino Ribeiro Novo – senti-me numa camisa de força tão típica da época vitoriana. Fui cambaleando e chocando irregularmente contra o muro esquerdo até que perante a visão assimétrica do cedro plantado em frente à entrada do cemitério me vi num espaço mais amplo absorvendo uma claridade que aquecendo (cegando) me livrou da mortificação grosseira que sofri por breves, mas subjectivamente longos, segundos.

Agora que escrevo isto continua sem explicar os cheiros e a minha fraqueza.
Talvez não haja explicação ou talvez não queira explicação.

29 Out
29.10.2010

(…) Deus tem de responder por muitas coisas. A morte, por exemplo, um ultraje não pode haver nunca perdão para quem inventou o sistema. O processo de envelhecimento é ridículo e degradante para toda a gente. Além destes, poderia enumerar mais uma dezena de outros processos existentes na Terra que foram criados de uma forma tão amadora, que são positivamente lamentáveis. O criador do Universo precisa de fazer um exame à cabeça. Devia ser julgado por altos crimes e punido correspondentemente.

Computador Universo por A. E. Van Vogt

23 Out
23.10.2010 Bandeiras sobre vinte e quatro caixões e discurso: morreram cumprindo o seu dever… morreram cumprindo o seu dever… morreram cumprindo o seu dever… para os outros acreditarem nessas mortes, na morte por causa desse dever, tudo para que a mística do assassínio se justifique e ganhe razões especiais.
O Grande Cidadão por Virgílio Martinho

23 Out
23.10.2010 Por vezes os comandantes retóricos são apenas um nariz ou uma metralhadora…
O Grande Cidadão por Virgílio Martinho

16 Out
16.10.2010 (…) o poço da criação. O reservatório da vida, que é Deus. Alguma vez pensaste que acreditas em Deus? Acordastes alguma vez no meio da noite a dizer Sim, sim, no fim de tudo “há” qualquer coisa. Creio, creio! Não falo de ir à igreja, compreendes-me. Ir à igreja, hoje, não é mais do que um reflexo condicionado, um trejeito, um tique. Falo da fé. Da crença. O estado de iluminação. Também não falo de Deus como se fosse um velho de longos bigodes brancos. Refiro-me a qualquer coisa abstracta, uma força, uma potência, uma corrente, um reservatório de energia por detrás de tudo e ligando tudo. Deus é esse reservatório (…) está cheio de calor e poder, é acessível àqueles que sabem como chegar até ele. Platão soube alcançar o reservatório. Van Gogh, Joyce, Schubert, El Greco. Alguns poucos felizes sabem como alcançar. A maior parte de nós não sabe. Para os que não podem Deus morreu. Pior: para eles, Deus nunca existiu. Ó Cristo como é terrível estar encurralado numa época em que toda a gente se comporta como se fosse uma espécie de morto-vivo (…) Odeio-a. Odeio todo este fedorento século XX, sabes? Estou a falar com algum sentido? Pareço terrivelmente bêbado? Estou a envergonhar-te (…)
Os Jogos do Capricórnio por Robert Silverberg

eu e uma tattoo

22 Set
22.09.2010

tattoo, fase um

Ontem foi a minha vez de me colocar nas agulhas de Marco Martins (no mês anterior foi a minha irmã que se ofereceu uma nova tatuagem no pulso).

Fui sempre com a ideia de que me ia doer um pouco; apesar da minha tattoo anterior não me ter doído nada, excepto numa parte; ou recalquei a dor para ficar com a ideia de que não doeu – é uma ideia.

Desta vez doeu como ó caralho. Deve ser a idade? ou do local em que decidi colocar a tatuagem.

tattoo, fase dois

Se soubesse que doía tanto não seria isso que me negava uma nova tatuagem, mas ao menos ia mentalmente anestesiado.

O Marco logo no início da sessão tenha dito que ia doer, mas o tipo é um brincalhão. Pensei que era piada de tatuador. E o que é “doer”? É tão subjectivo!

tattoo, fase três

Doeu.
Não o suficiente para me arrepender. Não o suficiente para não pensar fazer outra. E, ainda, aproveitei para colocar os olhos dos três corvos da minha primeira tatuagem de vermelho – ficaram mais diabólicos.
O branco com que tinham sido pintados anteriormente não tinham estilo e muito menos piada.

tattoo, fase final

Recomendo o Marco Martins para a vossas tatuagens. E se ele disser que vai doer não acreditem… ele é um brincalhão.
E o que custa fazer uma tatuagem a ouvir uma música para relaxar? Nada, pois! A “dor” é tão nossa, tão subjectiva. Mas nada como experimentar…

corvos

corvos com os olhos de vermelho

porquê sr. matias? (excerto)

01 Set
01.09.2010

Já não era apenas quando chegava de férias que encontrava o meu porta lápis desprovido de canetas, de lapiseiras, de lápis, de tesoura, de corrector, de réguas, de afia lápis, de corta papel, de borrachas, de tira-agrafos, de x-acto, mas tal coisa nunca me ralou, apenas perdia por tradição alguns minutos a pensar quem teria levado o material tendo em conta que eu era o único funcionário no escritório, por que assim começava o trabalho com novo material e adoro especialmente afiar o novo lápis, a ponta fica fina como um estilete; é a única tarefa que realizo com imensa atenção e prazer, mas actualmente era a qualquer momento que as minhas coisas saíam do lugar e o culpado tinha agora rosto. Quando dou por mim até a minha dedeira de borracha estava a ser usada pela minha nova colega de escritório. A sua mesa de trabalho está colada ao tampo angular colocado à direita da minha secretária. Eram ainda 09h45m e depois de diligentemente alfabetizar uma série de documentos e esticar a mão para pegar numa pinça clipe que sabia estar, cegamente, sempre naquele sítio da secretária encontro o espaço vazio. A pinça clipe estava, agora, pendurada no lado esquerdo do calendário de mesa da nova colega, que publicita aquele restaurante que serve comida intragável, sem qualquer objectivo que não uma pretensa decoração. Para agravar o meu estado de espírito enquanto fui buscar outra pinça clipe uma das folhas alfabetizadas foi virada de costas para a colega tomar nota de um número de telefone – usou uma caneta. Pressentia nas costas uma sensação de gozo silenciosa sempre que me deslocava para trazer novo material de trabalho. Suava nessas deslocações. Não pensava num buraco, mas numa enorme cratera. Não sou cobarde. O que detesto são confrontações físicas; penso que a inteligência supera qualquer adversidade.

informações: apenas um extracto da história

o evangelho do enforcado

16 Ago
16.08.2010

O pouco que aprendi, mas sou um tipo novo, com apenas uns simpáticos 4? anos, sobre a crítica ou os críticos em Portugal é que existem quase em exclusivo dois tipos quando tratam de autores portugueses:
# 1 – há aqueles que dizem bem por dizer (talvez pensando que assim lhe tecerão críticas igualmente boas)
# 2 – há aqueles que dizem mal porque sim (possivelmente porque a editora não lhes ofereceu um exemplar ou na melhor das hipóteses por pura inveja; não se iludam que esta existe e é visceral)

Existe um terceiro tipo de crítico que escreve com sinceridade, são poucos, mas felizmente são bons. Escrevo isto porque já li tantos disparates críticos que só são concebíveis com este “tipo” de críticos.

Evidente que quando falo em críticos são aqueles que têm um estatuto?, digamos, de crítico institucionalizado.

No fim da pirâmide (fico na dúvida se na base ou no topo) temos o leitor anónimo, como eu, que opina como pode ou sabe sobre o que lê. E é neste sentido que irei tecer algumas palavras sobre “O Evangelho do Enforcado” de David Soares.

David Soares não precisou de muito para que eu ficasse convencido que estava perante uma obra grande. Logo no primeiro capítulo consegue sem dificuldade narrar um nascimento fantasticamente perturbador que é o perfeito comburente para continuar a minha leitura – depois “daquilo” o que mais David Soares me vai oferecer?

Oferece-me não apenas uma Lisboa deliciosamente nauseabunda, mas igualmente um Portugal sem alma. A cobiça pérfida pelo poder da nobreza é narrada magistralmente e ficaria convencido se não estivesse a ler uma romance que as conversas ocorreram mesmo daquela forma. E quando intervém a personagem Henrique quase que sinto o seu bafo, a sua transpiração a pulsar nas páginas. É a personagem mais loucamente saudável – se tal é possível dizer-se – e que se torna nesta sua alienação a mais consistente com o mundo que a rodeia; a frase “sobrevivência do mais apto” poderia ter sido criada para Henrique.

Naturalmente que Nuno Gonçalves, o pintor maldito dos misteriosos Painéis de São Vicente, é o nec plus ultra das personagens que vivem na obra “O Evangelho do Enforcado”. É impossível não sentir empatia com este assassino que consegue ser genial na pintura e esplendoroso nas mortes que executa.

“O Evangelho do Enforcado” foi um dos melhores livros que li este ano. Poderá não ser uma leitura fácil para muita boa gente porque David Soares não tem qualquer tipo de inibição a narrar o que quer que seja: morte, violação, sodomia, necrofilia.
Há quem se preocupe obsessivamente em colar ao “O Evangelho do Enforcado” um estilo. Eu resolvo? o problema afirmando que é uma amálgama de estilos que só David Soares é capaz de criar; o que se passará naquela cabeça?

Não posso deixar, igualmente, de salientar o trabalho de paginação e as fontes utilizadas no livro nas conversas de Geronte com Nuno Gonçalves.

Recomendo vivamente a leitura do livro “O Evangelho do Enforcado”.

E nada como dar um ar de erudito e colocar a propósito do romance “O Evangelho do Enforcado” esta frase

He cried in a whisper at some image, at some vision—he cried out twice, a cry that was no more than a breath—”The horror! The horror!”

Joseph Conrad, Heart of Darkness

apenas formigas…

26 Jul
26.07.2010

Sempre adorei formigas.
Quando era miúdo tinha um labirinto feito com legos cheio de formigas e entretinha-me a colocar nessa casota? outros insectos para admirar o poderio das formigas a desmembrarem, comerem, arrasarem aranhas, centopeias e outros bichos que tais.

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