Tag Archive for: dor

os cinco e os dois testículos

04 Fev
04.02.2010

vasectomia, fase um

Por motivos de força externa – a saúde da minha mais-que-tudo – tive de ser submetido a uma vasectomia; intervenção cirúrgica menos agressiva do que a laqueação de trompas e muito mais simples.

À semelhança de Dave, interpretado por Vince Vaughn no fraco Couples Retreat, que foi “beijado” por um tubarão e está vivo para contar a história eu faço, agora, parte de um grupo de elite – aqueles homens que voluntariamente decidiram colocar o falo, o escroto e o resto ao alcance de um bisturi!

pulseira de controlo

Não foi fácil estar todo nu e vulnerável a ser “barbeado” nas partes baixas por um enfermeiro. A única satisfação que tive nessa altura da minha travessia do deserto foi verificar que outro profissional da enfermagem desviou o olhar ao constatar o quanto bem constituído eu sou; outros poderão dizer que foi do choque por ter entrado no quarto errado e me descobrir ali deitado e nu a ser electricamente depilado – não liguemos a essas vozes maliciosas.

O bloco operatório não foi um oásis a descobrir, que bem precisava depois da travessia, mas sim um inferno. Não chegava o cirurgião, o anestesista, o assistente do cirurgião, não chegava, ainda foram precisas as duas enfermeiras. Não sei se hei-de mais alguma vez ter fantasias com enfermeiras. Fiquei, como que ligeiramente, traumatizado porque nunca pensei que o meu pénis fosse capaz de hibernar de tal forma que seria necessário uma lupa de filatelista para o descobrir.

cueca de rede modelo genérico

Fiquei com as “bolas” totalmente trucidadas que pareciam ter sido mordidas por uma enfermeira praticante de sadomasoquismo atropeladas por um camião.
O aspecto visual final era o que se vê – vestia apenas uma branca, mas elegante e voluptuosa cueca de rede modelo genérico; a listra superior em azul dava o seu devido requinte; a rede deixava ainda transparecer a franja de gaze que delicadamente aconchegava a bolsa escrotal.

Hoje já me sinto melhor.
Não “os” sinto já tão doridos – o que doí é saber que estarei +/- 10 dias de dieta sexual.

as aranhas douradas

02 Nov
02.11.2009

— Não me consultaste — prosseguiu Wolfe com frieza. — Descobrir que um dos meus pratos preferidos foi radicalmente alterado, sem qualquer espécie de aviso. é um choque desagradável. Talvez seja comestível, mas não estou com disposição para correr esse risco.

páginas 5 e 6

Foram 174 páginas lidas em poucas horas. A noite de ontem, e a de hoje vai pelo mesmo caminho, não puxava o sono. Daí que me tenha socorrido de um companheiro solitário para servir distracção, mas foi pouca distracção para me permitir adormecer.

Apenas pelas 07.?? é que fechei os olhos bastante ensonado e cansado.

rastilhos

26 Set
26.09.2009
  • Só há dois motivos indesculpáveis para uma pessoa ser desconfiada: a ignorância e a maldade.
  • Só ontem percebi a fobia com a gripe H1N1v quando um familiar não me cumprimentou como medida profiláctica. E analisando de lado, por linhas laterais, vejo o meu filho com um spray desinfectante na pasta da escola. Ao que isto chegou.
  • A minha filha recusou-se a beijar as minhas lindas bochechas porque a “babara” pica. Ao que isto chegou. Fui obrigado a desfazer uma linda e colorida barba. Claro, que virei-me para o câmara do telemóvel e registei para a posteridade a minha “babara
  • o McDonald’s abriu em Barcelos. E foi um acontecimento social, gastronómico e cultural único nesta aldeia com muitas casas. Houve esperas de mais de 30 minutos para um hambúrguer. O MacDrive exibia uma fila assustadora. Sei que não devia brincar com a fome de pessoas que se pouparam durante 7 dias, pela não ingestão de comida, para este evento. Por favor(!) o que abriu foi mais um McDonald’s.
  • As razões para alguém fazer uma tatuagem devem ser diversas.
    Eu desde que vi no excelente e espectacular Highlander os Watchers com uma marca (era gravada a fogo, mas isso fogo!) nos pulsos fiquei fascinado.
    Após mais de 20 anos ganhei coragem e fiz uma tatuagem no pulso direito. Já passaram cerca de 5 anos desde essa altura de grande coragem e/ou estupidez; é chegado, talvez, o momento de fazer outra. Afinal esta não doeu nada? A dor é tão, mas tão subjectiva; ou doeu e abafei a dor subjectiva no lugar mais escuro da minha mente para dar a ideia de que sou um gajo com uma coragem do caraças.

comer gelados

09 Set
09.09.2009

Relutantemente acordado, ainda eram 14.05, feri de morte um gelado perna-de-pau.
O calor a isso me obrigou. E é sempre adorável sentir nos lábios e na língua uma doce frescura. E ao trincar a ponta do gelado reflecti se o jeito como atacamos um gelado diz algo sobre a nossa personalidade.

Andarei a revelar os segredos da minha alma pela forma como mordo os gelados?

09 Jun
09.06.2009 LIBERTA, SENHOR, A HUMANIDADE SOFREDORA
MAS LIBERTA-ME PRIMEIRO A MIM, QUE SOU QUEM MAIS SOFRE
Basta andar alguns quilómetros na automotora para descobrir isso. Se não puderem queixar-se de mais nada, queixam-se das suas estúpidas doenças, das dores nos joelhos, das pedras na vesícula, das úlceras, das veias inflamadas, dos soluços e das azias, das diarreias e das caganitas empedernidas que até fazem barulho ao bater no fundo do penicoe imaginam, enquanto falam de tudo isto, que alguém lhes dá importância só por se queixarem.
IDIOTAS DE MERDA
A Morte de Um Apicultor por Lars Gustafsson (página 87)

banho matinal

29 Set
29.09.2008

Há, pelos menos, duas más razões para detestar tomar banho de manhã.
.fico sempre enregelado. Depois de um noite boa ou mal dormida o corpo está letargicamente acordado.
.fico sempre avermelhado. O meu organismo tem perante qualquer gel / champô / sabonete / sabão uma sensibilidade anormal.
Há, pelo menos, uma boa razão para detestar tomar banho de manhã.
.tenho de acordar mais cedo.

16 Jul
16.07.2008 – É suficientemente paranóico? Tem a certeza? A paranóia é a vaga do futuro. Fiquem alerta, fiquem paranóicos.
Os Vigilantes do Imaginário por Pat Cadigan (página 25)

Sou um felizardo. Sou possuidor de uma saudável paranóia… saudável?

Os Vigilantes do Imaginário, Pat Cadigan // título original: Mindplayers // editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta, n.º 551

hoje

03 Jul
03.07.2008

hoje
mais uma vez
acordei. mas

ontem
fechei os olhos e
estagnei o pensamento
numa ideia. de que

hoje
continuaria
a dormir. mas

viver
é sofrer
também
com esta leviandade.

os livros de vidro dos devoradores de sonhos

28 Fev
28.02.2008

— Que será do mundo quando um homem não obedecer aos seus superiores e se recusar a morrer quando lhe derem ordem para tal?

página 318

Gordon Dahlquist, Os Livros de Vidro dos Devoradores de Sonhos // título original: The Glass Books of the Dream Eaters // editor: Círculo de Leitores, Amadora, 2007 // isbn: 978-972-42-4097-8

livre-arbítrio

19 Fev
19.02.2008

Os baptizados são realizados em pessoas, em crianças, que não têm a possibilidade de dizer não ou sim. Não têm qualquer consciência das implicações do acto que lhes é imposto pela sua família.

A religião cristã defende que o homem é responsável pelas suas acções. Deus deu-lhe uma arma poderosa o livre-arbítrio. Ele não impõe a sua vontade nas nossas escolhas, no nosso caminho, na nossa estrada da vida. Como é que esta imposição baptismal é conciliada com o livre-arbítrio?

Este livre-arbítrio existe igualmente na estrada do amor.

Why is commitment such a big problem for a man? I think that for some reason when a man is driving down that freeway of love, the woman he’s with is like an exit, but he doesn’t want to get off there. He wants to keep driving. And the woman is like, “Look, gas, food, lodging, that’s our exit, that’s everything we need to be happy… Get off here, now.” But the man is focusing on sign underneath that says, “Next exit 27 miles,” and he thinks, “I can make it.” Sometimes he can, sometimes he can’t. Sometimes, the car ends up on the side of the road, hood up and smoke pouring out of the engine. He’s sitting on the curb all alone, “I guess I didn’t realize how many miles I was racking up.”

Mas, e sem descurar a importância do amor, quero é falar do primeiro livre-arbítrio, o concedido por Deus. Este livre-arbítrio é uma “coisa” muito boa, especialmente para Ele. Ele nunca faz asneiras. Somos sempre nós que as cometemos. Quer seja por omissão, quer seja por acção ele irá sempre dizer:
– “A estrada que seguias levou-te a uma encruzilhada. Havia o caminho da direita e o caminho da esquerda. A escolha foi tua, meu filho.”
– Sim, a escolha foi minha. E essa escolha que ditou todo o meu futuro ficava como todas as decisões “na encruzilhada do bom e do mau caminho”[1] e como sempre não basta “choose wisely”[2]. Faltou, falta, sempre, um pormenor, que como todos os pormenores é um pormenor de merda.
As guerras, os desastres, a fome, a miséria humana não são culpa de Deus. Dele nunca. São culpa nossa. Como filosofia é uma coisa espectacular. Como isenção de culpa é uma coisa ainda melhor. Sem esquecer que Ele até nos dá linhas orientadoras, um código de conduta, uma constituição moral, os 10 mandamentos.

Há filhos que se podem orgulhar de pais, mais ou menos, semelhantes a esta presença/ausência divina.

Há filhos que têm pais sentinela, não os vemos, não os cheiramos, mas eles estão lá para nos premiarem com uma bofetada por alguma acção “potencialmente” mal feita. Nunca sabemos a razão da marca gravada a quente na cara. O pai sentinela não informa. Faz-nos pensar. Faz-nos crescer. Magoa-nos.

Há, também, os pais faróis, firmes, hirtos, iluminam o nosso caminho – “i’m the light“, mas mudam de direcção com uma regularidade constante. São defensores do cinzento, do “nim” e estão lá para nos premiarem com uma iluminada bofetada por alguma acção que já pode ter sido boa, mas que já não o é. Nunca sabemos a verdadeira razão do ardor na cara. O pai farol não informa. Faz-nos pensar na volatilidade das nossas acções. Faz-nos crescer. Faz-nos políticos.

E, já agora, porque é que me estou a queixar? Sou ateu. Bem, sou mais agnóstico. Porque um agnóstico é um ateu politicamente correcto. E o meu pai é o meu Pai.

[1] Vinicius de Moraes, O terceiro filho
Em busca dos irmãos que tinham ido
Eu parti com pouco ouro e muita bênção
Sob o olhar dos pais aflitos.
Eu encontrei os meus irmãos
Que a ira do Senhor transformou em pedra
Mas ainda não encontrei o velho mendigo
Que ficava na encruzilhada do bom e do mau caminho
E que se parecia com Jesus de Nazaré…”

[2] Palavras ditas pelo Cavaleiro do Graal no filme Indiana Jones and the Last Crusade.

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