Tag Archive for: dor

16 Jul
16.07.2008 – É suficientemente paranóico? Tem a certeza? A paranóia é a vaga do futuro. Fiquem alerta, fiquem paranóicos.
Os Vigilantes do Imaginário por Pat Cadigan (página 25)

Sou um felizardo. Sou possuidor de uma saudável paranóia… saudável?

Os Vigilantes do Imaginário, Pat Cadigan // título original: Mindplayers // editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta, n.º 551

hoje

03 Jul
03.07.2008

hoje
mais uma vez
acordei. mas

ontem
fechei os olhos e
estagnei o pensamento
numa ideia. de que

hoje
continuaria
a dormir. mas

viver
é sofrer
também
com esta leviandade.

os livros de vidro dos devoradores de sonhos

28 Fev
28.02.2008

— Que será do mundo quando um homem não obedecer aos seus superiores e se recusar a morrer quando lhe derem ordem para tal?

página 318

Gordon Dahlquist, Os Livros de Vidro dos Devoradores de Sonhos // título original: The Glass Books of the Dream Eaters // editor: Círculo de Leitores, Amadora, 2007 // isbn: 978-972-42-4097-8

livre-arbítrio

19 Fev
19.02.2008

Os baptizados são realizados em pessoas, em crianças, que não têm a possibilidade de dizer não ou sim. Não têm qualquer consciência das implicações do acto que lhes é imposto pela sua família.

A religião cristã defende que o homem é responsável pelas suas acções. Deus deu-lhe uma arma poderosa o livre-arbítrio. Ele não impõe a sua vontade nas nossas escolhas, no nosso caminho, na nossa estrada da vida. Como é que esta imposição baptismal é conciliada com o livre-arbítrio?

Este livre-arbítrio existe igualmente na estrada do amor.

Why is commitment such a big problem for a man? I think that for some reason when a man is driving down that freeway of love, the woman he’s with is like an exit, but he doesn’t want to get off there. He wants to keep driving. And the woman is like, “Look, gas, food, lodging, that’s our exit, that’s everything we need to be happy… Get off here, now.” But the man is focusing on sign underneath that says, “Next exit 27 miles,” and he thinks, “I can make it.” Sometimes he can, sometimes he can’t. Sometimes, the car ends up on the side of the road, hood up and smoke pouring out of the engine. He’s sitting on the curb all alone, “I guess I didn’t realize how many miles I was racking up.”

Mas, e sem descurar a importância do amor, quero é falar do primeiro livre-arbítrio, o concedido por Deus. Este livre-arbítrio é uma “coisa” muito boa, especialmente para Ele. Ele nunca faz asneiras. Somos sempre nós que as cometemos. Quer seja por omissão, quer seja por acção ele irá sempre dizer:
– “A estrada que seguias levou-te a uma encruzilhada. Havia o caminho da direita e o caminho da esquerda. A escolha foi tua, meu filho.”
– Sim, a escolha foi minha. E essa escolha que ditou todo o meu futuro ficava como todas as decisões “na encruzilhada do bom e do mau caminho”[1] e como sempre não basta “choose wisely”[2]. Faltou, falta, sempre, um pormenor, que como todos os pormenores é um pormenor de merda.
As guerras, os desastres, a fome, a miséria humana não são culpa de Deus. Dele nunca. São culpa nossa. Como filosofia é uma coisa espectacular. Como isenção de culpa é uma coisa ainda melhor. Sem esquecer que Ele até nos dá linhas orientadoras, um código de conduta, uma constituição moral, os 10 mandamentos.

Há filhos que se podem orgulhar de pais, mais ou menos, semelhantes a esta presença/ausência divina.

Há filhos que têm pais sentinela, não os vemos, não os cheiramos, mas eles estão lá para nos premiarem com uma bofetada por alguma acção “potencialmente” mal feita. Nunca sabemos a razão da marca gravada a quente na cara. O pai sentinela não informa. Faz-nos pensar. Faz-nos crescer. Magoa-nos.

Há, também, os pais faróis, firmes, hirtos, iluminam o nosso caminho – “i’m the light“, mas mudam de direcção com uma regularidade constante. São defensores do cinzento, do “nim” e estão lá para nos premiarem com uma iluminada bofetada por alguma acção que já pode ter sido boa, mas que já não o é. Nunca sabemos a verdadeira razão do ardor na cara. O pai farol não informa. Faz-nos pensar na volatilidade das nossas acções. Faz-nos crescer. Faz-nos políticos.

E, já agora, por que é que me estou a queixar? Sou ateu. Bem, sou mais agnóstico. Porque um agnóstico é um ateu politicamente correcto. E o meu pai é o meu Pai.

[1] Vinicius de Moraes, O terceiro filho
Em busca dos irmãos que tinham ido
Eu parti com pouco ouro e muita bênção
Sob o olhar dos pais aflitos.
Eu encontrei os meus irmãos
Que a ira do Senhor transformou em pedra
Mas ainda não encontrei o velho mendigo
Que ficava na encruzilhada do bom e do mau caminho
E que se parecia com Jesus de Nazaré…”

[2] Palavras ditas pelo Cavaleiro do Graal no filme Indiana Jones and the Last Crusade.

doeu?

18 Jul
18.07.2007

Na segunda-feira o meu filhote convidou um amigo igualmente fã de wrestling para jantar. Tendo em conta a regra de ouro em que ninguém pode jogar xbox logo após o jantar, fomos, mesmo assim, condescendes e deixamos a televisão ligada na Sic Radical. O z. explicou-me que apesar de a maioria dos combates serem a fingir há alguns que não o são.
— Sabe pai do Luís… há combates em que eles tomam medicamentos para não terem dor e esses combates são a sério.
— Se se atirarem de um prédio abaixo nem morrem… — continuava z. com a sua explicação.
Depois parou por uns momentos a pensar na última frase e emendou-se:
— Bem… morrer morrem, mas não sentem dor…

30 Jun
30.06.2006

(…) Eu só procuro saber a razão por que os homens não se atrevem a matar-se, e nada mais. Não tem importância nenhuma.
— Não se atrevem? Pois não há bastantes suicídios?
— Muito poucos.
— Acha?
Não me respondeu, levantou-se e pôs-se a passear de um lado para outro.
— Que é que, na sua opinião, impede os homens de se suicidarem? — indaguei.
Olhou-me com ar abstracto, como se quisesse lembrar-se do que estávamos a falar.
— Pouco… pouco sei. Há dois preconceitos que os prendem, duas coisas só: uma é mínima, a outra considerável. Mas a mínima também é considerável.
— Qual é?
— A dor.
— A dor? É assim tão importante?
— Primordial. Existem duas categorias de suicidas: uns matam-se por excesso de melancolia ou por irritação, ou por loucura, não importa. Esses fazem-no sem vacilar. A loucura não os detém, matam-se logo, agem imediatamente. Quanto aos que o fazem com reflexão, pensam demasiado no caso.
— Então existem os que se destroem por reflexão?
— São muitos. Se não houvesse preconceitos, haveria ainda mais, muito mais, toda a gente.
— Quê? Toda a gente?
Kirilov calou-se uns instantes.
— Haverá meio de morrer sem dor?
— Imagine — respondeu ele, parando diante de mim, imagine uma rocha com as dimensões de um edifício colossal. Está suspensa sobre nós, que estamos por baixo. Se nos caísse em cima da cabeça, chegaríamos a sofrer?
— Uma rocha dessas dimensões? É horrível.
— Não falo do medo, refiro-me à dor.
— Uma rocha tão grande… evidentemente que não sentiríamos dor.
— Mas se de facto se encontrasse debaixo dessa pedra suspensa, o senhor teria medo de sofrer. Todos o teriam, médicos, sábios, fosse quem fosse. Sabem que não haveria dor e, no entanto, assustam-se.
— E a segunda causa, a mais considerável?
— É o outro mundo.
— Alude ao castigo?
— Tanto faz. O outro mundo é bastante.
— Há ateus que não crêem nisso.
O homem calou-se de novo.
— Julga talvez por si mesmo?
— Cada qual só pode julgar por si mesmo — retorquiu, corando. — Só existirá liberdade completa no dia em que for indiferente viver ou não viver. Eis o fim, o alvo de tudo.
— Nesse caso, ninguém desejaria viver.
— Ninguém — confirmou Kirilov, em tom decidido.
— O homem receia a morte porque ama a vida, eis como eu vejo as coisas — repliquei. — Assim dispôs a natureza.
— Logro vil. — exclamou, de olhos brilhantes. — A vida é a dor, a vida é o medo, e o homem é infeliz. Tudo é dor e medo. O homem, agora, ama a vida porque ama a dor e o medo. Criaram-no assim. Dá-se a vida a troco da dor e do medo, e eis aí o embuste. O homem de hoje não é ainda um homem. Há-de haver um dia o homem novo, orgulhoso, feliz, a quem será indiferente viver ou não; eis o homem novo. Esse vencerá a dor e o medo e será o próprio Deus. Deixará de haver outro Deus.
— Mas Deus existe, na sua teoria?
— Não existe, mas é. Não há dor numa pedra, mas no medo da pedra há dor. Deus é a dor do medo da morte. Aquele que vencer a dor e o medo será o próprio Deus. Surgirá então uma vida nova, um homem novo. Tudo será novo. A história dividir-se-á em duas partes: do gorila à destruição de Deus, e da destruição de Deus.. .
— Ao gorila?
— … à transformação física da Terra e do homem. O homem será Deus; transformar-se-á fisicamente. O Mundo também se transformará, assim como as acções e as ideias e todos os sentidos. Que lhe parece isto da transformação física do homem?
— Se for indiferente viver ou não viver, todos se hão-de matar, e aí está a sua grande transformação.
— Nem mais. E mata-se a trapaça em que vivemos. Qualquer homem que deseje liberdade deverá atrever-se ao suicídio. O que ousar tal coisa desvendará o mistério do embuste. Fora disso, não há liberdade: está tudo aí; o que ousa matar-se é Deus, de modo que cada qual pode fazer com que deixe de haver Deus. E não haverá. Mas ninguém ainda experimentou.
— Tem havido milhões de suicidas.
— Todos por outra coisa, todos por medo, e não por isto que digo. Nunca para matar o medo. Aquele que se matar só para matar o medo tornar-se-á imediatamente Deus.
— Talvez não tenha tempo — observei.
(…)

páginas 71/72

Fiódor Dostoiévski, Os Demónios // tradução: Reis Madeira // editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Set. 1983

acordado?

27 Mai
27.05.2006

São engraçadas aquelas pessoas que gostam de telefonar a alguém a horas estranhas tipo 02.00am a perguntar: “Estás acordado?
Já é aborrecido o sonho e o sono ser interrompido na melhor parte.

Mas, mesmo irritante é o pé esquerdo chocar com a ombreira da porta do quarto de dormir. Isso dói bastante. Claro, que não dói tanto como prender a pele do escroto no fecho das calças. Bem, mas o que interessa é que dói o suficiente.
– Agora estou bem acordado e a gemer. Diz o que queres.

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