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de lado – 0126

Ele deixou o sol bronzear a sua barriga tão bem depilada. Acabou por sucumbir ao cansaço de uma noite mal dormida e adormeceu no jardim ao bzzz monótono das abelhas. Acordou mais tarde e descobriu que alguns caracóis confundiram o monte branco da sua barriga com uma pista de esqui.

cansaaaaaaaaaaativo!

Quando o sonho tem como personagem principal uma caixa que tem de ser embrulhada com papel que não existe é um tumulto mental – cansaaaaaaaaaaativo!

Quando o sonho tem como personagem principal uma caixa já embrulhada em papel, mas sem fita cola para o manter colado é um tumulto mental – cansaaaaaaaaaaativo!

Odeio estes sonhos tão abstratos, tão estúpidos. Saio sempre desse limbo onírico cansaaaaaaaaaaado. Realmente cansaaaaaaaaaaado.

de lado – 0125

Qual o melhor método para evitar o ressonar? Não dormir, claro!

from the perverse mind of paulo brito

zapping

Chegas a casa depois de um esgotante dia de trabalho. Trocas de roupa e vestes algo mais confortável. Cortas um pedaço de queijo emmental e abres uma garrafa de chardonnay. Instalas-te no sofá da sala e ligas a televisão. Acompanhado pelo emmental e por um copo de chardonnay viajas por diversos canais. Petiscando dessas duas iguarias vês segundos e segundos de imagens sem te fixares em nada. Sentes crescer um torpor. É aquela sonolência reconfortante, sem hora marcada. Colocas a televisão em mute no Nautical Channel. Deitado e aconchegado até ao pescoço por um cobertor de papa deixas-te finalmente conquistar pela modorra e adormeces.

de lado – 0108

I accuse
the alchemist,
the alcoholic,
the anthologist.
the antagonistic,
the alienist.

I accuse the lack of sleep…

from the perverse mind of paulo brito

(…) Odeio dormir, de qualquer modo (e quem me dera não sonhar tanto). Nem sei porque é que ainda me ralo com isso. Tudo pode acontecer quando se está a dormir. Dormir só serve para apanharmos areia nos olhos.
Sucesso de Martin Amis (página 37)

time for bed

O aviso que o meu Iphone dá para mim ir para a cama dormir.

zzzz zzz zzzzz

Há mais de 10 anos que tomava o Zolpidem porque não conseguia adormecer. Os meus fantasmas presenteavam a noite com a sua presença. Sobrevoavam como moscas sob carne putrefacta a minha cabeça; zumbindo – zzzz zzz zzzzz.

Esse zumbido não me deixava adormecer. O Zolpidem resolvia o problema.

De um momento para o outro, sem aviso prévio, sem explicação, pelo menos uma que eu entenda, o zzzz zzz zzzzz silenciou-se, puf!

Decidi no dia seguinte não tomar mais o medicamento. Não tive qualquer problema com o desmame. [1]

E estas últimas três noites têm sido uma delicia. Não me sinto adormecer, nem a sonhar – fantástico!


[1] Desmame – o tratamento deve ser retirado gradualmente. A síndrome de curta duração pode ocorrer quando é interrompida a toma, no qual os sintomas que levaram inicialmente ao tratamento com Zolpidem voltam com maior intensidade. Pode ser acompanhada de outros sintomas como alterações de humor, ansiedade e inquietação.

Infarmed

O QUE FAÇO AGORA, MINHA SANTA?
Mato-me?
Devíamos poder morrer temporariamente, como quem vai de férias. Não, não como quem dorme! Como quem dorme, não! Não digas disparates. Dormir é viver sem a opressão da consciência, e às vezes nem isso. Em sonhos também sofremos com remorsos. Também temos medo de morrer. Também adormecemos. Também morremos. Eu queria morrer de verdade, deixar de existir, de forma que durante algum tempo tudo fosse nada. Nada em mim e à minha volta. Eu flutuando no infinito nada.
Barroco Tropical por José Eduardo Agualusa (página 163)

— Quanto tinha cinco anos, caí doente de hoxa e o papá fez promessa à Senhora de Muxima em como se eu escapasse nunca procuraria mulher. Agora o velho esgota a virilidade para descumprir o juramento mas é tudo desgraçadamente inútil. Fui muximado pela dona, sagrou-me o corpo sua graça. — E depois, cofiando a pera: — Sabes que os tubarões não dormem nunca? Pois eu depois que sarei aconteceu-me como aos tubarões: caí em perpétua vigília. Passo as noites a amar, a beber e a jogar porque outra coisa não posso fazer. O sono é a imitação da morte e é a morte que dá sentido à vida. Por isso a minha vida não tem sentido nenhum! Vivo para esquecer que vivo; e para contrariar a vontade de meu pai.
A Conjura por José Eduardo Agualusa (página 35)