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em chamas

Gostei. Ponto e vírgula.

os jogos da fome

Gostei. Ponto final.

deuses americanos

Em “Deuses Americanos” Neil Gaiman oferece uma road story, digamos, mitológica agradável. Li o livro sem problemas. O enredo está bem construído, deuses com idiossincrasias engraçadas, mas no geral é um livro que não me deixa saudades. Tem pormenores interessantes: adorei a zombie esposa. Faltou-lhe alguma coisa para me deixar uma sensação final de encantamento. Talvez as quebras de ritmo narrativo? Ou simplesmente a ausência de um qualquer ingrediente.

A mais valia é, contudo, a facilidade com que Gaiman brinca ousadamente com os diferentes deuses e os mistura numa salada bem condimentada.

O deus Anansi tem aqui uma presença fugaz; em “Os Filhos de Anansi” Neil Gaiman criou uma história na qual ele é A personagem.

os olhos de allan poe

Quando compro um livro de um autor desconhecido é um risco não calculado – nunca sei o que vai sair dali; a capa é um factor importante porque é aquilo que nos faz pegar naquele livro em particular e não nos outros que estão ao lado (digamos que é uma manobra de acasalamento literário); a sinopse na capa é, contestavelmente, um factor importante que só se concretiza depois da fase visual de acasalamento.

O ano passado após a leitura de um livro e do registo da minha opinião, nada modesta, convenhamos é a minha, opinião, ao coloca-lo na prateleira denoto que nessa estante (a encher) em cada 10 livros 6 são da editora Saída de Emergência, os restantes dançam entre outras editoras – curioso! Nunca tinha reparado naquela simetria de logótipo.

Regresso ano de 2009, mês Junho, dia nove e recordo o meu espanto ao reler o meu comentário ao livro “A Sabedoria dos Mortos” e na altura ter enaltecido com a minha mulher este lançamento e as excelentes notas de tradução – editora Saída de Emergência.


Regresso ao ano de 2010, mês Dezembro, dia quinze e pouso uma excelente obra de steampunk “A Corte do Ar” no foi uma grande coragem editorial e um pesadelo de tradução (superado); desta feita já sabia qual a editora – Saída de Emergência – estive presente no dia do seu lançamento. Nunca é demais relembrar a obra de Philip Reeve publicada pela Editorial Presença (“Engenhos Mortíferos” (2001), “O Ouro do Predador” (2003) e “Máquinas Infernais” (2006). O quatro livro da série “A Darkling Plain”, presumo que, ainda não teve a sua edição em português).

Foi, contudo, em Agosto de 2010 que tomei a devida consciência da editora por detrás do livro que me enriqueceu as férias “O Evangelho do Enforcado”. Desde essa altura que sigo com cuidado os lançamentos desta editora e quando vou “às cegas” é agora um risco calculado – “risco calculado” é quase análogo a certeza de boas leituras com a Saída de Emergência. E isto é escrito sem menosprezar qualquer editora. Não sou pago para dizer bem, nem para maldizer – infelizmente.

E isto precede a minha opinião ao “Os Olhos de Allan Poe”

[…]

“Os Olhos de Allan Poe” (“The Pale Blue Eye” de 2006) é uma grande aposta editorial da Saída de Emergência (espero que seja ganha a nível comercial – para evitar a frase “uns compensam os outros”).

“Os Olhos de Allan Poe” é o nec plus ultra das suas obras, as lidas por mim – naturalmente (três: “Mr. Timothy”, “Fool’s Errand”), que adorava ver editadas em português. Espero que a Saída de Emergência edite, pelo menos, os seus romances mais recentes “The Black Tower” (2008) e “The School of Night” (2011) – não é pedir muito?

“Os Olhos de Allan Poe” tem tudo para ser um sucesso em Portugal: narra uma história de assassinatos tenebrosa; temos magia negra; alguns fantasmas; e tem duas personagens principais (Gus Landor e Poe) com uma densidade psicológica bem retratada que se movem num século XIX maravilhosamente pintado – local do crime: West Point; ano: 1830.

Uma das partes mais divertidas da leitura é certamente encontrar um jovem Poe com um nada saudável gosto pela bebida, mas contrabalançado pelo prazer de arrojar frases em francês. A narração é feita em dois compassos: temos a narração (quase sempre num tom intimista) de Gus Landor e os escritos bombásticos (cheios de eloquência) de Poe (o ajudante de “campo” de Gus Landor) em forma de missivas.

E enquanto Poe e Gus Landor se gladiam intelectualmente, na descoberta dos responsáveis pelos crimes, segredos mútuos vão-se revelando. Fiquei de tal forma embrenhado na história, nas personagens, que o final foi um surpresa final – aquele último gole que nos faz olhar tristemente para o copo que se encontra agora… vazio.

Edgar Allan Poe não precisa de apresentações; e no que diz respeito ao género “policial” criou a primeira aventura dos mistérios de “quarto fechado” com a aventura “The Murders in the Rue Morgue” e nesta mesma aventura “Os Crimes da Rua Morge” (Livros de Bolso Europa-América, n.º 279, 1981) os crimes são investigados pelo Detective Dupin, o pai de Sherlock Holmes. Um conto a ler ou a reler.

Recomendo vivamente “Os Olhos de Allan Poe” por tudo o que escrevi e pelo resto que cada um irá acabar de descobrir.

os dados estão lançados

Com uns miseráveis 7 anos comecei a ler “Guerra de Paz”; apenas 7 anos depois é que retomei a leitura e a terminei.

Com uns deliciosos 10 anos li – oferta da minha mãe – “Esplendores e Misérias das Cortesãs” e uma obra, rapinada ao meu Tio João, “Os Dados Estão Lançados”, que me catapultou para outros níveis; muito mais tarde consegui comprar só para mim uma edição (5ª edição) da obra de Sartre.

De seguida li o “Despertar dos Mágicos” cujo número de páginas não me assustou. Se percebi metade do que li, claro que não, acho que nem um terço.

Depois, com este impulso, comi avidamente todos os clássicos literários/ensaios, etc. Se algum ficou de fora foi por que não havia na biblioteca itinerante Gulbenkian à qual tinha acesso privilegiado. Iniciei-me na letra [A]lain-Fournier e terminei na Stefan [Z]weig – literalmente.

“Os livros da minha vida”, um artigo que recomendo lerem de David Soares na revista Bang n.º 9 (falarei da revista noutra altura), levou-me a pensar nos meus livros; esta é a primeira verdadeira entrada directamente do sótão.

Para terminar entendo que devo concluir esta pequena visita ao sótão dos meus livros com umas palavras que estão escritas num possível livro que está, apenas – para já, para sempre? – a ser-me revelado:

O que é deliciosamente assustador, naturalmente, sem a profusão literária das memórias involuntárias produzidas pelo sabor das migalhas da madeleine de Proust misturadas numa colher com chá, são os pequenos pedaços do meu passado, desencadeados por um cheiro intenso de saudável maresia, que se foram desenrolando na mente enquanto tentava adormecer e outros fragmentos que entretanto surgem enquanto tento descrever essa noite – e não havendo, na verdade, qualquer sequência cronológica e muito menos lógica nas lembranças, são, não obstante isso, os fotograficamente eternos pequenos instantes do meu passado. O que é, afinal, um homem sem memórias? de si e dos outros? Não me imagino a conseguir viver, a continuar a existir, sem a consciência de mim e do meu passado sempre presente. Descubro-me muitas vezes a pensar que são estes meus devaneios que me animam, que diabolicamente, também, me angustiam, mas que, surpreendentemente, dão – ou tentam? dar – algum ténue sentido ao meu viver.

fragmentos de um paradoxo

… e neste(s) meu(s) passado(s) os livros têm uma presença constante.

quimera

Valerio Massimo Manfredi fornece em “Quimera” uma história sem qualquer originalidade, mas que não deixa de servir um doce propósito: distracção pura e simples (aquela sem floreados) como qualquer banho gelado em pleno verão.
É, sem dúvida, uma história cativante, mas que se arruma na estante sem pensarmos mais nisso.

Claro que simbolicamente o livro vale mais, muito mais – foi a oferenda do meu filho pelos meus anos.

Comecei a limpar da mesinha de cabeceira livros meio comidos/lidos. Já só devo ter mais uns dezanove.

Quimera, Valerio Massimo Manfredi
título original: Chimaira
tradução: José J. C. Serra
editora: Editorial Presença, 1ª edição 22.02.2005, 232 páginas
isbn: 972-23-3328-3

fragmento.00116

(…) ver uma coisa não é o mesmo que admiti-la.
A Amante do Tenente Francês por John Fowles

fragmento.00115

Todos escrevemos poemas; acontece simplesmente que os poetas são aqueles que os escrevem com palavras.
A Amante do Tenente Francês por John Fowles

a estranha vida de nobody owens

“A Estranha Vida de Nobody Owens” é outra maravilhosa obra de Neil Gaiman editada pela Editorial Presença oferta da minha filha mais nova – tem um dedicatória ainda hoje indecifrável?

Nobody Owens podia ser um rapaz perfeitamente normal não fosse o facto de viver num cemitério e ter como família adoptiva uma série de fantasmas, almas penadas e outras entidades semelhantes que o educam e cuidam dele. Owens não se pode gabar de nunca se ter metido em sarilhos, mas é para além das grades do cemitério que residem os verdadeiros perigos, pois é aí que vive Jack – o homem que nunca desistiu de procurar Owens desde aquela sinistra noite em que matou toda a sua família…

É uma história muito bem contada. As ilustrações de Chris Riddell pecam por serem poucas.

Incompreensível é a tradução do título “The Graveyard Book” para “A Estranha Vida de Nobody Owens”. Mas o que sei eu disso.

imagem (1)
descrição: capa do livro “A Estranha Vida de Nobody Owens” por Chris Ridell do escritor Neil Gaiman
título original: The Graveyard Book
tradução: Fátima Andrade
editor: Editorial Presença, colecção Estrela do Mar, n.º130, 1ª edição (maio.2010)

a cidade das sombras, o filme

Após ter lido o livro vi o filme. O filme “City of Ember” não é catita, nem razoável – foi uma grande desilusão e não acredito que o facto de ter lido o livro tenha tido alguma influência na minha opinião. O mundo visionado no ecrã não me convenceu, as actuações são fracas.

Fico-me pela leitura dos livros da saga que deverão ser lidos em inglês já que não prevejo a editorial Presença a editar os restantes.