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É possível, à distância, manter a ficção da antiga felicidade – infância ou tempos de escola – e depois volta-se a um antigo cenário, os anos vão caindo e vemos como éramos amargamente infelizes.
O Grande Bazar Ferroviário de Paul Theroux (página 273)

estou obsoleto

Actualmente os meus filhos já me utilizam para os ajudar nos trabalhos da escola.

O mais velho sabe agora mais de programação do que eu.

A mais nova pede antes ajuda ao irmão a inglês.

A mim vão-me oferendo uns restos de “lê sff para ver se está bem escrito.” – pois!

de 2016

Fotos recuperadas de um trabalho que a Margarida fez em 2016.

A certa altura entra uma jovem, uma visitante. Desconhecendo o protesto, pensa estar diante de uma exposição, talvez até de uma proposta para uma nova escola pictórica. Detém-se perante todos os quadros, isto é, perante todos os panos pretos, afaste-se e aproxima-se para observar melhor, senta-se e toma diligentemente notas; esta nova pintura parece agradar-lhe e convencê-la.
Instantâneos de Claudio Magris (págs. 23/24)

Neste instantâneo intitulado de “Na galeria de Castelli” Claudio Magris acha piada ao engano(?) da visitante. Não vejo qualquer motivo para tal, porque nos dias que correm tanto é arte uma banana presa com fita adesiva, como panos pretos de diferentes tamanhos pendurados numa galeria de arte, ou até uma sanita parcialmente partida. Desde que um monte de areia decorada com uma pedra esteja dentro de uma galeria de arte é… arte. É a arte moderna no seu brilhante esplendor. A estupidez suprema.

e tenho 60 anos?!

— Ligaram para o meu marido a dizer que o meu não estava inscrito em nenhuma escola! Mas eu tratei com um senhor que tem umas tatuagens e tem pra aí uns 60 anos.
— Eu aparento 60 anos? E eu que dava à senhora uns 30 anitos.

À noite a cirandar pela Feira de Artesanato sou chamado a atenção por uma menina com: “Jovem não quer vir provar uma ginga?”
— Não posso porque a minha mãe não deixa e hoje não é Domingo — respondi.
— E o pai não quer — foi dito por entre uma gargalhada pela jovem.

Isto, claro, que amenizou o acontecimento da manhã.

festas e comemorações

Quando terminei a quarta classe a recompensa foi ter terminado a quarta classe.
Quando terminei o 6º ano (o ciclo) a recompensa foi um gelado Corneto.
Quando terminei… não houve nada.

Actualmente existe a festa de finalistas da pré-escola, do 1º ciclo, do 2º ciclo, do 3º ciclo, do secundário, viagens de finalistas, até do 2º ciclo. Já não chegavam, também, as festas de aniversário, de casamento, baptizado, comunhão, descobri, também, festas de divórcio. Para quando em Portugal as festas de funeral?

A vida é tão miserável que tenha que ser compensada com futilidades? As crianças, adolescentes, adultos, velhos precisam de comemorar qualquer feito por irrelevante que seja?

Estarei errado?

lol, camuflagem 10.0 – desvio

Apesar de ter criado uma história. Não a publico. Fica apenas a imagem de um lol tirolês.

eu e ela

O desenho da Margarida num dos livros que me ofereceu.

e…
o meu desenho de uma cebola na roupa que a Margarida utilizou na escola.

uma cebola

uma cebola

com rodinhas

Durante o 1º ciclo e o 2º ciclo é permitido aos alunos usarem pastas escolares com rodinhas; está dentro da moda autorizada.

No decorrer do 3º ciclo e até terminarem o secundário o uso de pasta com rodinhas é podre e só um verdadeiro azeiteiro as usa. Vade retro Satana às rodinhas. As pastas são, agora, exibidas em costas curvadas sobre o peso de 20 quilos de material escolar – ufa.

Mas as rodinhas são pacientes! E sabem manter-se em estado latente, como alguns animais do deserto australiano que podem esperar durante anos pela chuva.

E eis que quando menos se espera começam novamente, pois claro, a pulular rodinhas que premiando a entrada dos alunos no ensino superior aparecem em malas de viagem.

recordações

  • Há casais que guardam na caixinha das recordações o primeiro dente de leite que caiu do amoroso filho.
  • Há casais que conservam na caixinha das recordações o primeiro caracol loiro, preto, castanho, ruivo do filho desbastado pela tesoura do cabeleireiro.
  • Há pais que colaram na parede o primeiro postal do Dia do Pai criado na pré-escola.
  • Há mães que têm na gaveta dos soutiens e dentro de uma caixinha de cartão, que já teve um relógio gravado com os dizeres “amo-te para todo e sempre” do marido traidor, com publicidade da ourivesaria da esquina, o primeiro pedaço de barro esculpido na pré-escola comemorativo do Dia da Mãe.
  • Há madrinhas que mantêm encerrada na caixa original a vela do baptismo do afilhado.
  • Há ex-noivas, agora viúvas, casadas, divorciadas, amantizadas que mantêm pendurado no guarda-fatos o vestido de noiva.

Eu, o vosso poderoso, BigPole, guarda emoldurado numa linda caixa hermética o primeiro preservativo usado numa verdadeira luta sexual, que encerra dentro o esperma expulso e colados dois pêlos pubianos ruivos da minha amante, actualmente sem rosto.

do vosso coleccionador: BigPole