Artigos

fragmento.00043

O ténue véu da dignidade humana fora desfeito e nós éramos tão miseráveis e infortunados como uma colónia de formigas envenenadas por um jardineiro de cuja existência nem sequer tinham percepção.
página 153

Edmund Cooper, A Vinda do Futuro // título original: Tomorrow Came // tradução: Eurico da Fonseca // editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta n.º 477, Lisboa, Jun.1997

fragmento.00042

É por isso que continuo a caminhar. Porque, como vêem, ser um vagabundo é o que há de mais próximo de ser um fantasma. Depois, como um autómato, continuei a caminhar tentando afastar do meu espírito o amargo conhecimento de que não tinha para onde ir…
página 158

Edmund Cooper, A Vinda do Futuro // título original: Tomorrow Came // tradução: Eurico da Fonseca // editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta n.º 477, Lisboa, Jun.1997

a vinda do futuro

Como num transe, caminhou pelas avenidas, misturando-se com a louca e infinda torrente de nova-iorquinos. Sob o transe, sem consciência da passagem do tempo, foi levado a uma intemporal peregrinação a parte alguma.

página 118

Neste livro estão reunidos os seguintes contos:

  • Welcome Home
  • Death Watch
  • The Piccadilly Interval
  • The Mouse That Roared
  • Nineteen Ninety-Four
  • When the Saucers Came
  • The First Martian
  • The Lizard of Woz
  • The Life and Death of Plunky Goo
  • Judgement Day
  • Vertical Hold
  • The Doomsday Story

Edmund Cooper, A Vinda do Futuro // título original: Tomorrow Came // tradução: Eurico da Fonseca // editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta n.º 477, Lisboa, Jun.1997

fragmento.00036

(…) o suicídio é ao mesmo tempo considerado um insulto a Deus que nos deu vida e à sociedade que tudo faz pelo bem-estar dos seus membros.
A História do Suicídio de George Minois

fragmento.00034

Fracos humanos como folhas ligeiras, imponentes criaturas amassadas em lodo e privadas de asas, pobres mortais condenados a uma vida efémera e fugitiva como a sombra ou um sonho ligeiro, escutai as aves, seres imortais, aéreos, isentos de velhice, ocupados em pensamentos eternos.
página 58

Aristófanes, As Aves // tradução: A. Lobo Vilela // editor: Editorial Inquérito, Lisboa, 1984

insónia v.3

It was starting to end, after what seemed most of eternity to me.
I attempted to wriggle my toes, succeeded. I was sprawled there in a hospital bed and my legs were done up in plaster casts, but they were still mine.
I squeezed my eyes shut, and opened them, three times.
The room grew steady.
Where the hell was I?
Then the fogs were slowly broken, and some of that which is called memory returned to me. I recalled nights and nurses and needles. Every time things would begin to clear a bit, somenone would come in and jab me with something. That’s how it had been. Yes. Now, thought, I was feeling halfway decent. They’d have to stop.
Wouldn’t they?
The thought came to assail me. Maybe not.
Some natural skepticism as to the purity of all human motives came and sat upon my chest. I’d been over-narcotized, I suddenly knew. No real reason for it, from the way I felt, and no reason for them to stop now, if they’d been paid to keep it up. So play it cool and stay dopey, said the voice which was my worst, if wiser, self.
So I did.

página 1

Roger Zelazny, The Great Book of Amber // editor: Avon Books, New York, Dez. 1999 // isbn: 0-380-80906-0

bons augúrios

(…) um tipo pensa que está no topo do mundo e, de repente, pregam-lhe com o Armagedão em cima. A Grande Guerra, a Derradeira Batalha. Céu contra Inferno, três assaltos, uma queda, sem apelo. E era tudo. Deixava de haver mundo. Porque era isso que o fim do mundo significava. Não haver mais mundo. Só um céu infindável ou, dependendo de quem vencesse, um infindável Inferno. Crowley não sabia qual seria o pior.
Bom, por definição, o Inferno era pior, claro. Mas Crowley lembrava-se de como era o céu e a verdade é que tinha muitas coisas em comum com o Inferno. Logo para começar, não era possí­vel arranjar-se uma bebida decente em nenhum deles. E o tédio que havia no céu era quase tão mau como a excitação que havia no inferno.
Mas não havia maneira de se escapar. (…)
Bem, pelo menos não ia ser naquele ano. Ainda teria tempo para fazer algumas coisas. Para já, vender acções de longo prazo.

página 28

Neil Gaiman; Terry Pratchett, Bons Augúrios // título original: Good Omens // tradução: Carlos Grifo Babo // editor: Editorial Presença, Nov. 2004, Lisboa // isbn: 972-23-3280-5

fragmento.00028

(…) Eu só procuro saber a razão por que os homens não se atrevem a matar-se, e nada mais. Não tem importância nenhuma.
— Não se atrevem? Pois não há bastantes suicídios?
— Muito poucos.
— Acha?
Não me respondeu, levantou-se e pôs-se a passear de um lado para outro.
— Que é que, na sua opinião, impede os homens de se suicidarem? — indaguei.
Olhou-me com ar abstracto, como se quisesse lembrar-se do que estávamos a falar.
— Pouco… pouco sei. Há dois preconceitos que os prendem, duas coisas só: uma é mínima, a outra considerável. Mas a mínima também é considerável.
— Qual é?
— A dor.
— A dor? É assim tão importante?
— Primordial. Existem duas categorias de suicidas: uns matam-se por excesso de melancolia ou por irritação, ou por loucura, não importa. Esses fazem-no sem vacilar. A loucura não os detém, matam-se logo, agem imediatamente. Quanto aos que o fazem com reflexão, pensam demasiado no caso.
— Então existem os que se destroem por reflexão?
— São muitos. Se não houvesse preconceitos, haveria ainda mais, muito mais, toda a gente.
— Quê? Toda a gente?
Kirilov calou-se uns instantes.
— Haverá meio de morrer sem dor?
— Imagine — respondeu ele, parando diante de mim, imagine uma rocha com as dimensões de um edifício colossal. Está suspensa sobre nós, que estamos por baixo. Se nos caísse em cima da cabeça, chegaríamos a sofrer?
— Uma rocha dessas dimensões? É horrível.
— Não falo do medo, refiro-me à dor.
— Uma rocha tão grande… evidentemente que não sentiríamos dor.
— Mas se de facto se encontrasse debaixo dessa pedra suspensa, o senhor teria medo de sofrer. Todos o teriam, médicos, sábios, fosse quem fosse. Sabem que não haveria dor e, no entanto, assustam-se.
— E a segunda causa, a mais considerável?
— É o outro mundo.
— Alude ao castigo?
— Tanto faz. O outro mundo é bastante.
— Há ateus que não crêem nisso.
O homem calou-se de novo.
— Julga talvez por si mesmo?
— Cada qual só pode julgar por si mesmo — retorquiu, corando. — Só existirá liberdade completa no dia em que for indiferente viver ou não viver. Eis o fim, o alvo de tudo.
— Nesse caso, ninguém desejaria viver.
— Ninguém — confirmou Kirilov, em tom decidido.
— O homem receia a morte porque ama a vida, eis como eu vejo as coisas — repliquei. — Assim dispôs a natureza.
— Logro vil. — exclamou, de olhos brilhantes. — A vida é a dor, a vida é o medo, e o homem é infeliz. Tudo é dor e medo. O homem, agora, ama a vida porque ama a dor e o medo. Criaram-no assim. Dá-se a vida a troco da dor e do medo, e eis aí o embuste. O homem de hoje não é ainda um homem. Há-de haver um dia o homem novo, orgulhoso, feliz, a quem será indiferente viver ou não; eis o homem novo. Esse vencerá a dor e o medo e será o próprio Deus. Deixará de haver outro Deus.
— Mas Deus existe, na sua teoria?
— Não existe, mas é. Não há dor numa pedra, mas no medo da pedra há dor. Deus é a dor do medo da morte. Aquele que vencer a dor e o medo será o próprio Deus. Surgirá então uma vida nova, um homem novo. Tudo será novo. A história dividir-se-á em duas partes: do gorila à destruição de Deus, e da destruição de Deus.. .
— Ao gorila?
— … à transformação física da Terra e do homem. O homem será Deus; transformar-se-á fisicamente. O Mundo também se transformará, assim como as acções e as ideias e todos os sentidos. Que lhe parece isto da transformação física do homem?
— Se for indiferente viver ou não viver, todos se hão-de matar, e aí está a sua grande transformação.
— Nem mais. E mata-se a trapaça em que vivemos. Qualquer homem que deseje liberdade deverá atrever-se ao suicídio. O que ousar tal coisa desvendará o mistério do embuste. Fora disso, não há liberdade: está tudo aí; o que ousa matar-se é Deus, de modo que cada qual pode fazer com que deixe de haver Deus. E não haverá. Mas ninguém ainda experimentou.
— Tem havido milhões de suicidas.
— Todos por outra coisa, todos por medo, e não por isto que digo. Nunca para matar o medo. Aquele que se matar só para matar o medo tornar-se-á imediatamente Deus.
— Talvez não tenha tempo — observei.
(…)

páginas 71/72

Fiódor Dostoiévski, Os Demónios // tradução: Reis Madeira // editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Set. 1983

fragmento.00026

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrí­vel. Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Cesário Verde, Contrariedades

fragmento.00025

La poésie délivre l’alme de cet asservissement aux passions, en le rendant pour ainsi dire perceptible et palpable.

Friedrich Hegel, Esthétique