Tag Archive for: leituras de 2008

a voz dos mortos

31 Dez
31.12.2008

– Os ossos são duros e, por si sós, parecem mortos e rochosos, mas ao envolvê-los e puxá-los para junto do esqueleto, o resto do corpo executa todas as actividades da vida.

página 160

“A Voz dos Mortos” é uma obra maior da ficção científica, tendo merecido a Orson Scott Card os prémios Nebula (1986) e Hugo (1987). O autor continua aqui a narrativa épica iniciada em “O Jogo Final”. Desta vez, a humanidade prospera, colonizou já vários planetas e apenas sofre com a consciência de ter exterminado a única outra espécie inteligente conhecida, os insectóides. O nome de Ender, antes aclamado como salvador da espécie humana, tornou-se sinónimo de mal absoluto. Mas ter-se-á realmente aprendido com os erros do passado? A descoberta de um outro povo alienígena, os pequeninos, vem testar o verdadeiro significado da tolerância humana e Ender, porta-voz dos Mortos, poderá ter ainda uma palavra a dizer. Extraordinariamente bem construído, o universo de Ender abrange questões antropológicas, filosóficas e religiosas para revelar um cenário a um tempo cativante e terrível, descrevendo com mestria a complexidade das reacções do ser humano quando confrontado com o que lhe é estranho: numa outra cidade, num outro país…ou a milhares de anos-luz no espaço.

Editorial Presença

intermundo

08 Dez
08.12.2008

– Eles têm mesmo uma masmorra de escravos? – perguntou Seymour.
– Claro. De que servem escravos sem uma masmorra?

página 121

Eu, Klox tudo que vê (quase), que tudo sabe (por vezes), quase omnipotente (em certas ocasiões muito circunscritas), avanço em direcção ao meu destino. Naturalmente, tenho grande interesse nisso. Os destinos são difíceis de encontrar.

página 135

Isidore Haiblum, Intermundo // tí­tulo original: Interworld // tradução: Elsa T. S. Vieira // editor: Editora Livros do Brasil, Mai. 2004, Lisboa // isbn: 972-38-2703-4

single & single

17 Ago
17.08.2008

– Porque é que não lhe dá uma saída e poupa assim tempo e trabalho?

página 262

Já não lia Le carré há muitos anos; autor que era considerado, antes da queda do muro de Berlim, um mestre em histórias de espionagem. A compra desta obra foi feita com esse pensamento.
Desiludiu-me. Desiludiu-me porque coloquei a fasquia alta de mais. O prazer tido na leitura de outras suas obras não é colhido nesta leitura – já o sabia de outros autores.
Single & Single é um livro de leitura fácil, relaxante, que me deu o mesmo prazer que o intervalo de um bom jogo de basquetebol. Ou seja ter tempo suficiente para uma “mija” e para buscar uma nova cerveja geladinha.

Single & Single, John Le Carré // tradução: Helena Ramos e Artur Ramos // editor: Círculo de Leitores, Abril 2000

o pintor de batalhas

30 Jul
30.07.2008

A geometria do caos no rosto sereno de uma rapariga moribunda.

página 17

“O Pintor de Batalhas” de Arturo Pérez-Reverte não foi lido como outro qualquer livro. Foi suavemente absorvido. A “tapeçaria” está tão bem urdida que queria chegar rapidamente à morte anunciada, mas fui obrigado a parar para sentir a frescura de uma obra perturbadoramente bela. Pérez-Reverte já me tinha surpreendido com outras obras, mas esta é ainda mais deliciosa. Não é à toa que é o escritor espanhol mais lido sem publicar qualquer trash book.

Nesta obra Pérez-Reverte obriga ou pelo menos a minha ignorância obriga-me as pesquisar sobre as imensas referências que o protagonista se encarrega de mencionar. É uma outra forma de (re)ler “O Pintor de Batalhas”.

O Pintor de Batalhas, Arturo Péres-Reverte // título original: El Pintor de Batallas // tradução: Helena Pitta // editor: Asa Editores, Mar.2007

16 Jul
16.07.2008 – É suficientemente paranóico? Tem a certeza? A paranóia é a vaga do futuro. Fiquem alerta, fiquem paranóicos.
Os Vigilantes do Imaginário por Pat Cadigan (página 25)

Sou um felizardo. Sou possuidor de uma saudável paranóia… saudável?

Os Vigilantes do Imaginário, Pat Cadigan // título original: Mindplayers // editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta, n.º 551

o farol

13 Jul
13.07.2008

Ia rascunhar sobre uma semelhança entre o último livro de P. D. James (The LightHouse) e o anterior (Death in Holy Orders) quando ao pesquisar pelo título original descobri que o meu penúltimo é afinal um antepenúltimo.

# Death in Holy Orders (2001) – Morte em Ordens Sagradas
# The Murder Room (2003) – A Sala do Crime

Commander Adam Dalgliesh is already acquainted with the Dupayne–a museum dedicated to the interwar years, with a room celebrating the most notorious murders of that time–when he is called to investigate the killing of one of the family trustees. He soon discovers that the victim was seeking to close the museum against the wishes of the fellow trustees and the Dupayne’s devoted staff. Everyone, it seems, has something to gain from the crime. When it becomes clear that the murderer has been inspired by the real-life crimes from the murder room–and is preparing to kill again–Dalgliesh knows that to solve this case he has to get into the mind of a ruthless killer.

# The Lighthouse (2005) – O Farol

Mas a premissa, de alguma forma, mantém-se.
– Morte em Ordens Sagradas desenrola-se num colégio teológico anglicano situado numa região desolada da costa de East Anglia.
– O Farol tem o seu enredo na isolada ilha de Combe, “perdida ao largo da costa da Cornualha.”

Quanto a mim P. D. James cresceu como escritora de histórias de crime e mistério com Devices and Desires (1989).[1] E o mais engraçado é que nesta história também temos:

Commander Dalgliesh of Scotland Yard has just published a new book of poems and has taken a brief respite from publicity on the remote Larksoken headland on the Norfolk coast in a converted windmill left to him by his aunt.

P. D. James nestes títulos coloca o homicídio em zonas inóspitas e isoladas o que reduz, aparentemente, o leque de suspeitos, mas aumenta, consideravelmente, a dificuldade de o leitor encontrar a solução. Penso que isto não é subgénero de histórias de crime e mistério, mas mais uma opção da autora.
Relembro, como parênteses, que a história de crime mais célebre que ocorre num local pouco “hospitaleiro” é sem dúvida “The Hound of the Baskervilles”.[2]

Estes locais trazem um condicionamento espacial interessante às histórias, mas que não alcança a especificidade dos mistérios de “quarto fechado”.[3]

Espero que “O Farol” me divirta imenso como o seu antepenúltimo livro.

[1] .título em português “Intrigas e Desejos”. Edição de 1990 pelo Círculo de Leitores.
[2] .a edição sobre a qual verti os meus sedentos olhos faz parte da colecção “As Aventuras de Sherlock Holmes” do Círculo de Leitores. Colecção de 1982/1983 composta por 7 volumes. No volume 4 temos a história O Cão dos Baskervilles.
[3] .o senhor dos mistérios de “quarto fechado” é com naturalidade John Dickson Carr aka Carter Dickson. “A Flecha Assassina” (Colecção Vampiro, n.º 571, 1995) foi o último livro que li.
É “The Murders in the Rue Morgue” a primeira grande história deste subgénero. “Os Crimes da Rua Morge” (Livros de Bolso europa-américa, n.º 279, 1981) é um conto de Edgar Allan Poe no qual os crimes são investigados pelo Detective Dupin, o pai de Sherlock Holmes. Um conto a ler ou a reler. O .pdf deste conto pode ser descarregado aqui.

mission child

08 Jul
08.07.2008

Não apreciei o livro Renascer editado em 2002 pelos Livros do Brasil (n.º 539 e 540 da colecção Argonauta).
Acredito que Maureen F. McHugh escreve um bom livro, mas eu não fiquei convencido. Ou melhor dizendo não me toca. E não é por ser um livro, digamos, “lento”.

Pensei que a partir da página 46 a história me levasse a outros trilhos, mas acabei por descobrir que é mais uma viagem interior sem o meu “tabasco” preferido. Pensei durante algum tempo n’ Os Arquitectos do Cosmos, Frank Herbert, o que, também, não ajudou à leitura.

Janna não deixa de ser uma personagem forte capaz de ultrapassar e crescer com os horrores das guerras.

I felt so bad for that boy. I didn’t know which was worse: to die or to survive the plague and be alone. He was in the land of the dead, now, and when he came back nothing would ever be the same. I had brought Ming Wei out of the land of the dead, and that was good. But nobody was going to bring that boy out of the land of the dead. No one had ever brought me out of the land of the dead. Here I was, neither man nor woman, foreigner with no home. Maybe that was what I was for, to be a guide out of the land of the dead. Crazy thoughts.

Mas a verdade é que sou mais um leitor de Majipoor [1].

[1] O Castelo de Lorde Valentine (n.º 542 e n.º 543 da colecção Argonauta);
As Crónicas de Majipoor (n.º 59 e n.º 60 dos Livros de Bolso, série Ficção Científica das Publicações Europa-América)

direcção: santiago

11 Abr
11.04.2008

Chegou-me às mãos um livro – “Guia para Pequenos Caminhantes do Caminho Português de Santiago” – bastante interessante. O livro da responsabilidade da Xunta de Galicia é de muito fácil leitura para os mais pequenos.

barcelos_02

Nele constam algumas imagens da cidade de Barcelos que destaco.

filmes tristes

21 Mar
21.03.2008

Pergunto-me porque é que não me mato? Pergunto-me porque é que me pergunto, depois digo para comigo que não devo pensar assim e acendo um cigarro.

Filmes Tristes por Mark Lindquist (página 7)

Tento concentrar-me no mar. O maior corpo de água do mundo inteiro. De repente, decido não acreditar na evolução. Não consigo tomar uma decisão quando se trata de encomendar alguma coisa no sushi bar, mas no que respeita às Grandes Questões sou rápido.
Pergunto-me em que é que acredito.

Filmes Tristes por Mark Lindquist (página 8)

Mark Lindquist, Filmes Tristes // título original: Sad Movies // tradução: Tomaz Vaz da Silva // editor: Círculo de Leitores, 1990 // isbn: 972-42-0094-9

bênçãos roubadas

11 Mar
11.03.2008

As galinhas é que põem ovos, não são as gajas. Essas têm bebés.
– E donde raio achas tu que vêm os bebés? – riposta Solly. – Se calhar é a cegonha que os traz, não? O bebé forma-se num ovo, não é Nick?
– Correcto. Cada mulher produz um óvulo. Não é um ovo como o das galinhas, com casca e tudo, é uma coisinha tão minúscula que se agora estivesse aqui em cima da mesa nós não o víamos. Bem, a mulher é fornicada, e, quando o homem se vem, o seu esperma está cheio de muitos milhões de espermatozóides, que parecem girinos. Basta que um destes girinos entre no óvulo da mulher e, bingo., aí temos nós um bebé. Mas o problema é que há muitas mulheres que não conseguem produzir esse óvulo; talvez por doença ou por terem a canalização enferrujada … Mas querem ter um filho. Então, o que é que fazem? Pedem um óvulo emprestado a uma amiga. Bom, talvez não seja bem emprestado, porque esse óvulo nunca mais será devolvido. Uma amiga dá-lhe um óvulo ou, então, compram-no a uma profissional.
– Cum diabo. – exclama Solly. – Queres tu dizer que há mulheres que ganham a vida a vender os seus ovos?
– Não, por enquanto ainda não, mas são capazes de arranjar um dinheirinho, para aí uns quinhentos dólares, vendendo os seus óvulos a uma mulher que queira ter um filho. Então, o que se faz é o seguinte: o marido desta mu­lher vem-se dentro de uma proveta, combina-se quimicamente o esperma do tipo com o óvulo que foi doado e, quando o bebé, que é mais pequeno que uma cabeça de alfinete, começa a formar-se, enfia-se lá para dentro e a mu­lher fica grávida. Que tal?
Dumbo sacode a cabeça.
– Continuo a não perceber. Sei quem é o pai, é o gajo da proveta, mas, quem é a mãe?.
– Bom, na verdade, a criança vai ter duas mães: a que doou o óvulo e a que a deu à luz. Mas esse problema não é teu. Vamos facturar a sério com estes óvulos, quando os raptarmos e pedirmos o resgate. Os ovos mais famosos do mundo. Já pensei em tudo e não vai falhar. Vamos ganhar uma fortuna.

página 10

Lawrence Sanders [1920-1998] que editou o seu primeiro livro com 50 anos sabe convencer e provocar.
Aconselho vivamente a sua leitura. Assim, quem quiser ler alguns dos seus livros editados em Portugal pode obter dois no site da Editora Livros do Brasil – A Estatueta Fatal e Os Crimes de Panda e Bambu – os outros editados pelo Círculo de Leitores podem ser adquiridos, possivelmente, em algum alfarrabista.

Lawrence Sanders, Bênçãos Roubadas // título original: Stolen Blessings // tradução: Lucinda Santos Silva // editor: Círculo de Leitores, Ago. 1991 // isbn: 972-42-0287-9

© 1999.2020 porta VIII. todos os direitos reservados. alimentado pelo wordpress | alojamento por oitava esfera
beam me up, scotty!