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os herdeiros da terra de ildefonso falcones

Considero este livro superior ao primeiro (A Catedral do Mar). Ambos movimentam-se na mesma época e podem ser lidos isoladamente apesar de algumas linhas os ligarem. Não o aconselho, contudo, pois neste, o autor tem uma escrita mais elegante – é fascinante assistir a esta evolução.

Com uma história, violenta e cruel, na qual a maldade e a bondade são servidas em molho béchamel, Ildefonso Falcones oferece uma romance cativante, poderoso.

Sem grandes gralhas a apontar e que me irritaram na leitura d’ A Catedral do Mar este livro proporcionou uma excelente leitura.

Tradução de Paulo Ramos e Gonçalo Neves

a catedral do mar de ildefonso falcones

A história é épica. “A Catedral do Mar” de Ildefonso Falcones tem todos os ingredientes clássicos para envolver o leitor: tragédia, revolta, esperança, vingança, superação, paixão, traixão.

Barcelona e a Catedral Santa Maria do Mar são duas personagens que testemunham as desventuras de Arnau. Personagens fortes, bem delineadas, e uma narração bem cadenciada oferecem uma história emotiva.

Não desgostei.

Tradução de José Vala Roberto e de João Quina Edições

Nessa noite fui nadar. Nadei durante mais de uma hora, sob o olho único de uma Lua imensa. Nadei até que as luzes, na praia, se misturaram à confusa torrente de estrelas. Então, estendi-me de costas, a flutuar, puxado para o alto pela força da Lua. Se ela estivesse um pouco mais perto talvez me arrancasse da água. Eu ficaria levitando, um corpo solto, entre as estrelas e o mar.
Hossi esperava por mim, sentado na areia.
— Nunca sei se voltas.
— Nunca sei se volto. Mas sempre que volto, maninho, volto mais livre.
A Sociedade dos Sonhadores Involuntários de José Eduardo Agualusa (pág. 135)

Fernando Pessoa exprimiu antes de nós as razões pelas quais preferimos aos de hoje os barcos de outrora (ou antes, neste caso, as cartas antigas às modernas):

Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista
    veleiros e barcos de madeira,
De não saber doutra vida marítima que a antiga
    vida dos mares!


Ode Marítima publicada sob o heterónimo Álvaro de Campos

Breviário Mediterrânico de Predrag Matvejevitch (págs. 266/267)
Como uma varinha mágica nas mãos erradas, o trânsito transformava minutos em horas, humanos em bestas e qualquer vestígio de sanidade em pura loucura. Istambul não parecia importa-se com isso. Tinha tempo, bestas e loucura de sobra. Mais uma hora, menos uma hora, mais uma besta, menos um louco… a partir de determinada altura, já não fazia diferença
Três Filhas de Eva de Elif Shafak (pág. 13)
Nos dias em que o mar está particularmente límpido e nos revela as suas profundidades, adivinham-se, aqui e além, os contornos de objetos estranhos, destroços, ruínas: facilmente imaginamos então que descobrimos um galeão afundado com a sua preciosa carga, um antigo palácio, os vestígios de uma cidade antiga. Esses contornos incertos são comparáveis à memória, esses destroços à história, essas ruínas ao destino. O Mediterrâneo é um colecionador.
Breviário Mediterrânico de Predrag Matvejevitch (pág. 43)
(…) Não se pode explicar o que nos leva a tentar, ainda e sempre, reconstituir o mosaico mediterrânico, estabelecer mais uma vez o catálogo das suas componentes, verificar o sentido de cada uma delas isoladamente ou verificar o sentido de cada uma delas em relação às outras: (…)
O Mediterrâneo não é apenas uma história.
Breviário Mediterrânico de Predrag Matvejevitch (págs. 22 e 23)

a substância do amor e outras crónicas de josé eduardo agualusa

A crueldade feminina fascina os homens. Amar uma mulher sem veneno é como jogar à roleta-russa com uma pistola fulminante. A obscura força que leva um sujeito a lançar-se da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, preso a uma frágil lona (um parapente ou um asa-delta), em direção ao imenso abismo azul, aos prédios aguçados, às areias luminosas da praia do Pepino, é a mesma que o precipita, indefeso e nu, para os braços de uma mulher. 

Quando o louva-a-deus encontra a sua deusa e esta lhe diz vem, vou-te comer, o infeliz sabe que aquilo não é uma metáfora. Mesmo assim, seguro de que depois do amor será servido ao jantar, o louva-a-deus persigna-se e vai. É o que nós fazemos – homens e mulheres -, à procura do amor, em fuga do amor, desencontrados.

Wook

Sei que já li em livros anteriores de José Eduardo Agualusa:

  • A Velha Esperança morreu sentada (conto)
  • O Último Andar (conto)
  • Dançar outra vez (crónica)
  • e outras referências

Qual a importância disso? Nenhuma e alguma – serve para sossegar a minha obsessão por pormenores, pois claro.

E quanto ao livro A Substância do Amor de José Eduardo Agualusa? Uau formidável; delirante – fantástico. Tanta coisa boa em poucas páginas.

nadar

No site xkcd é garantido encontrar cenas sempre maradas.

sal-gema

O que tive fazer para ajudar…

Fui à praia para encontrar
uma rocha especial,
com sabor a sal.

Descobri muitas rochas.
Umas em forma de ovelhas,
outras em forma de borrachas.
Umas eram velhas.
Outras pareciam novas:
polidas e brilhantes,
muito elegantes.

Fiquei com pena
por não encontrar
uma rocha sal-gema.


mas não era isto que se desejava… nova tentativa:

O sal-gema é uma rocha
especial
com sabor a sal.


Forma-se pela evaporação
das águas marinhas.
E a isto chama-se precipitação.


É uma rocha sedimentar
com aplicação alimentar
que fui encontrar na cozinha
a temperar a sardinha!