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queixas e queixas

Se quando as pessoas não usavam máscara eu já não as reconhecia quando se cruzavam comigo, como é que agora as mesmas se podem queixar?


tão rodeado de pessoas alienadas e estúpidas que até me assusto. (update 17h29)

2 metros

— Meu… por que não usas máscara quando sais de casa?
— Só a uso quando percebo que terei pessoas num raio de dois metros – medido a olho, claro. Até agora só me cruzei com gatos, cães e outros animais que tais.
— A sério?
— Viste que consegui fazer uma rima com ais. Lindo. Mesmo lindoooo!
— Houve lá, não estás comigo desde que deixas a tua casa?
— E?
— E? Então não sou uma pessoa e não estou a menos de dois metros?
— Ah! Ah! Vejamos. Sinceramente. Ah! Nunca te vi muito bem como uma pessoa. Para mim és mais um rato, uma lesma. Uma perturbação na força.
— És doente. Sabias?
— Nem te respondo caracol, mas coloco um máscara – satisfeito? Tens aí uma que me emprestes?
— Uma máscara não se empresta e não, não tenho mais máscaras.
— Então temos de nos afastar dois metros.
— E coomooo se estamos num carrrrroooo.
— Que violência man. Simples.
Parei o carro e pedi educadamente ao caracol que abandonasse a viatura. Fê-lo a exibir uma cara de radiante espanto a raiar a estupidez.
— Satisfeito? — não me respondeu. Não entendo aquelas pessoas que nunca estão satisfeitas.

crescimento

Hoje pela manhã olhei-me ao espelho e a imagem aí impressa assustou-me. Não é que se exibiu perante os meus olhos uma barba descomunal. E não é apenas descomunal. É branca e descomunal. Podem existir muitas explicações para o facto desse crescimento exponencial dos pêlos faciais, mas para mim apenas uma é válida: a humidade da máscara cria um efeito de estufa que optimiza a velocidade do crescimento dos pêlos – simples.

a altura é hoje

Aqui está uma foto que se enquadra nesta época. Moi mascarado.

rotinaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

A pandemia Covid-19 não mudou muito a minha rotina diária.

Regularmente vou trabalhar. E regresso a casa – sempre.

Continuo a beber a minha primeira cerveja e a arrepender-me de a ter bebido. Bebo uma segunda cerveja e arrependo-me… novamente. É cíclico, quase doentio.

A contrição força-me a 40 minutos de exercício na bicicleta elíptica e enquanto isso vou pensando nas próximas cervejas.

Só noto uma pequena e ridícula diferença. Desde que ando na rua com máscara sinto que estou a ser assaltado.

01. referência a edgar allan poe

Adoro estar a ler um livro e este ter uma indicação velada ou directa a Edgar Allan Poe. Neste caso o livro é A Canção de Susannah de Stephen King que tem uma referência ao conto A Máscara da Morte Rubra.

— Estamos numa fortaleza — disse ela. — Mais além fica aldeia de Fedie, agora abandonada, porque morreram todos de Morte Rubra há mais de mil anos. Mais além…

página 110

espelhos

Agora mais do que nunca os olhos são o espelho da alma. Com o uso continuado das máscaras faciais são os olhos o espelho de todas as emoções.

manter a paixão

Desde o início da pandemia que Aleksandro é recebido no hall, assim que chega do trabalho, pela sua mulher Rubena ornada com luvas e máscara cirúrgica. Ela despe-lhe toda a roupa, colocando-a num saco de plástico; a roupa irá posteriormente para a máquina de lavar roupa.

Completamente nu, Rubena inicia uma tarefa que Salas sente ser agora o epítome da paixão. Rubena besunta-lhe o corpo com gel desinfectante com uma solução de 95% de álcool e demora-se pacientemente em todas as partes; sem pressas Aleksandro sente o corpo ser higienizado – sublime. E com um beijo nos lábios do seu marido Rubena dá o trabalho por terminado.

Esta rotina decorreu sem sobressaltos durante catorze dias. Hoje antes do ritual do beijo Rubena coloca uma máscara em Aleksandro e sussurra-lhe sensualmente ‘espera pela surpresa’. De olhos vendados ele aguarda saturado de desejo o regresso de Rubena.

A última frase que Aleksandro ouviu na sua vida antes do raspar de um fósforo foi ‘sente agora o ardor da nossa paixão’.

novas máscaras de uso social

Devido a uma potencial escassez de máscaras tipo respiradores ou máscaras cirúrgicas a DGS (Direcção Geral de Saúde) aconselha a utilização de máscaras não-cirúrgicas, comunitárias ou de uso social desde que certificadas e revela dois exemplos concretos.

— Assustador como o caraças. Alguma vez viste aquele filme sobre o palhaço no esgoto?
Hodges abanou a cabeça. Mais tarde — apenas semanas depois da sua reforma — tinha comprado o DVD do filme e Pete tinha razão. O rosto da máscara era muito semelhante ao rosto de Pennywise, o palhaço do filme.
Mr. Mercedes de Stephen King (pág. 69)

Referência à mini-série de 1990, posteriormente convertida em filme, e que se baseia no livro homónimo de Stephen King escrito em 1986.