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pois sim!

Ela entra no quarto e vê-me deitado na cama, embrulhado em duas mantas, a olhar impávido, concentrado ao máximo, para o ecrã preto da televisão, de cenho franzido.

“O que estás a fazer aí pasmado a olhar para a televisão?”

“A ligar a televisão com o poder da mente.”

“Não estás com muita força mental! Ah! Ah! Ah!”

“Muitas interferências. Muito wi-fi a atravessar-me o corpo”, e nessa altura estico o meu braço direito e arrojo um rrrrrrrrrrrrrrrhhhh. Ela virou-me as costas e saiu do quarto suspirando um longo “ó nossa senhoraaaa.” Ela quando suspira consegue ainda ser mais sensual. Um dos meus objetivos diários é conseguir da minha amada o maior número de lamentos doces e melodiosos. E a televisão continua em preto.

Recupero o livro, Quando o Cuco Chama, escondido pelas mantas, e recomeço a leitura.

Algum tempo depois ouço passos. É ela a aproximar-se do quarto. E o que vê quando entra? Uma pessoa deitada na cama, embrulhada em duas mantas, a olhar impávida, concentrada ao máximo, para o ecrã preto da televisão, de cenho franzido. “A sério! Vais continuar com essa parvoíce?”

“Sei que vou conseguir em breve. Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrh. Já eliminei alguns dos ruídos de fundo. Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrh.” E não é que a televisão acordou e exibiu orgulhosamente o seu logotipo antes de colorir o quarto com cores 4k.

“Satisfeito?”, disse ela ao atirar o comando da televisão para cima da cama enquanto abandonava ondulantemente o quarto.

Afinal tenho muita força mental, pois sim.

cansaaaaaaaaaaativo!

Quando o sonho tem como personagem principal uma caixa que tem de ser embrulhada com papel que não existe é um tumulto mental – cansaaaaaaaaaaativo!

Quando o sonho tem como personagem principal uma caixa já embrulhada em papel, mas sem fita cola para o manter colado é um tumulto mental – cansaaaaaaaaaaativo!

Odeio estes sonhos tão abstratos, tão estúpidos. Saio sempre desse limbo onírico cansaaaaaaaaaaado. Realmente cansaaaaaaaaaaado.

de lado – 0116

A apophasis permite uma retórica argumentativa poderosa. E mais não digo, porque seria deselegante da minha parte demonstrar que tens problemas mentais que te toldam o discernimento.

from the perverse mind of paulo brito

dr. sono, o filme

Outra história de Stephen King que se perde no grande ecrã. O filme, nem de longe, nem de perto, faz jus ao livro.

Não deixou de ser gratificante ver algumas personagens ter vida fora dos textos, como Rose The Hat (Rebecca Ferguson), perfeita como vilão, e Dan Torrance (Ewan McGregor).

O filme transmitiu-me durante o seu visionamento pouca tensão, exceptuando a batalha mental entre Rose the Hat e Abra Stone e o sacrifício do rapaz do basebol. Estes dois momentos deviam ser o tom normal do filme – uma pena.

O pior acontece quando o realizador, Mike Flanagan, decide percorrer a memory lane através de cenas copiadas do “The Shining”.

Doutor Sono consegue ser uma razoável adaptação, mas utilizou mecanismos que não criaram nem grande tensão, nem grande terror. Filme que não me produziu uma grande estimulação… psicológica.

⭐⭐⭐⭐/10

Quanto a mim, adoro o avião, que aguarda o seu Marinetti ou o seu poeta futurista antifascista, pois o avião induz uma outra metafísica, contribui para uma nova perceção do tempo e do espaço. Antes dele, estas formas a priori da sensibilidade kantiana deduziam-se fisicamente, hoje constatam-se experimentalmente: o tempo é espaço, velocidade, deslocação, é a translação num espaço intermédio, bem como uma perceção corporal e subjetiva, uma sensação individual e pessoal. Não há tempo absoluto, nem uma ideia do tempo face à eternidade ou ao movimento, mas apenas a pura consciência de si apreendida em durações variáveis.
Teoria da Viagem. Uma Poética da Geografia de Michel Onfray (página 67)

a vida feliz de elena varvello

Isto diz tudo:

Uma história que comprime muitos temas e géneros, da violência sobre as mulheres à doença mental, do romance de formação ao livro de suspense – sobre os fantasmas que se materializam ainda, muitos anos depois, quando tudo já acabou.

Corriere della Sera

… uma leitura estimulante.


murderland

Murderland shakes your head. Blows your senses. You won’t be indifferent. And that alone is already grade 10. This is what I want from a book, one that puts my testicles in ice and delivers me electric shocks! Okay, I may be exaggerating, but I can not do a normal review from an unusual book; and “unusual” here is a really good thing.

“Wake Paulo Brito ” and bam, a slap directly from the pages given by Jeremy , and why? I was reading Murderland.

Imagine that you are blindfolded, and it is offered to you, at the style from 9 1/2 weeks, different flavors in words. Can you imagine? Can you hold that picture in your head? Murderland is simply orgasmic reading, that can offer you at the turning of a page something sweet, or bitter, or spicy, or ( … ) that’s right – there’s a time  you do not know how to define what is being served. Stupendous, right?

It is a very well written book. The words come at a perfect pace and are so melodious. Yes, there aren’t any doubts that words have sounds and Garrett Cook is an excellent maestro. Sometimes I get the idea of not knowing what the writer wants to convey. I see chaos and then, a few lines ahead that chaos appears so orderly, so perfect – scary!

Garrett Cook cooked a book 10/10, with well-developed characters, with a story full of stories, with twists and turns and the ending of the book is so brutal; I thought I was attending a fireworks festival – sublime.

I just wanted to write a good review, one that does justice to the book. I’m afraid I could not. I am the one to blame. Garrett Cook had nothing to do with this fault of mine.

o raio dos maios

A minha apavorante vizinha do décimo quarto andar não se cansa de depositar surpresas encostadas à porta blindada de entrada para o meu apartamento. São donuts, pães árabes, pães ázimos, pães franceses, pães integrais, decorados ora com uma vela, um palito colorido, um stick luminoso, pêssegos paraguaios, marmelos, mas também deixa artigos não comestíveis, como um fálico candeeiro lâmpada de lava vermelha, um broche em prata e outras coisas de que já não tenho memória. Não sei o que se passa naquela cabeça. Não consigo compreender, e tenho dois dedos de testa, o que ela quer conseguir com aquelas oferendas.

Já lhe disse com a menor simpatia que tenho que deve mudar de atitude, que é uma exagerada, que o que faz não tem qualquer sentido, que se deseja ter sexo comigo isso nunca vai acontecer, não porque seja feia (também não é bonita, até tem um corpo de pedir por mais), apenas odeio saber que tenho uma amante no prédio onde habito obcecadamente possessiva.

– A sua sorte é eu ainda ser boa pessoa e isto ser saboroso – respondi-lhe, na sexta-feira passada, após dar uma última trincadela na oblação, um donut caramelizado. Viro-lhe as costas e subo em passo de corrida pelo elevador até ao meu reduto.

Passados que foram dois dias do último donut olho para o espanto dos espantos; completamente apalermado fiquei a encarar um pito amarelo, de laço vermelho ao pescoço, num cesto de vime repleto de ovos de chocolate. Pego no cartão preso à asa e leio “Big, ofereço-lhe esse inocente pito como prova do meu apreço. A sua vizinha 14C“. Aquela prenda tinha a mensagem mais clara de todas. Senti que tinha de terminar com os abusos. As dádivas atingiram outro patamar pela ausência de subtileza; de inocente não tinha nada e o pito, ou mais correctamente o frango, da oferecida, que deve ser tudo menos cândido, foi-me oferecido em vermelho.

Mal sabia que o pior estava para vir. Hoje, 30 de Abril, lá descobri refastelado no chão um cesto de verga castanho com imensas maias ou maios, enfim ramos de giestas amarelas. Fiquei assustado. Odeio rituais, até os pagãos. Iniciei um laborioso processo mental, só como eu sou capaz, e concluí que o ritual tem como objectivo último impedir a entrada do Burro, do Maio ou do Carrapato nas casas; afastar as entidades maléficas, os demónios. Chegado a esta ilação uma paz interior colou-se ao corpo. Finalmente a 14C ia deixar-me em paz. Coloco os maios e desvio a vizinha carrapata da minha porta – pensei. Grande burra acabou de dar um tiro no pé; deu, mas foi, um tiro nos dois pés e caiu de frente. O susto já era uma miragem e comecei a gargalhar todo satisfeito quando o tiimmm do elevador antecipando a abertura das portas interrompeu a quarta risada e vi lá dentro a 14C vestida de branco, coroada com flores, descalça, diáfana, a exalar fertilidade. As portas fecharam-se e o elevador desceu. Se eu fosse o Reed Richards os queixos tinham-me caído literalmente ao chão.

Que se fodessem os maios, que não eram precisos. O diabo já estava dentro de casa, dentro de mim. E o demónio em mim entrou em parafuso. Tresloucado desci, imagine-se, pelas escadas, abalroei a porta do 14C para a encontrar sentada, sensual, num trono de flores. Lancei-me a ela de arpão em riste, rasguei-lhe a parca cobertura; de costas para mim e com as mãos apoiadas nos braços da poltrona florida enfiei numa líquida vulva um sequioso pénis com tanta facilidade que quase perdi o equilíbrio não me tivesse agarrado a dois seios tesos, ausentes de artificialismos. Com a coluna a arquear a cada investida minha senti que estava a gostar da viagem de tobogã; e quando comecei a despejar 117 milhões de demónios, contagem do meu último espermograma, ri-me em deliciosos sobressaltos da imagem mental que me surgiu, assim do nada: um pito amarelo, de laço vermelho a afogar-se num taça cheia de manteiga.

Abandonei-a sufocada por suspiros, sabendo que os meus demónios irão morrer pacificamente em suave agonia em 24 horas – maios para quê.

Finalmente exorcizei-a.

o vosso exorcista: BigPole

que dia foi hoje na semana passada

Foram duas noites em que o dormir tem sido complicado.
Tenho adormecido, mas o sonhar não me tem deixado dormir convenientemente.

ontem – sonhei que tinha acordado 181 vezes. fiquei na dúvida, quando a contagem ia em 182, se estava a sonhar ou se realmente apontei mentalmente todas as vezes que acordei.

hoje – sonhei que estava numa selva. a sonho tanto fui atacado directamente ao pescoço por uma enorme serpente. acordei depois de dar um salto (acho eu!) e com as mãos a agarrar o vazio em frente ao meu pescoço.

Acho isto tudo altamente marado.

que ousadia! (excerto)

Acordei com a mão esquerda a segurar os tomates. Nada de anormal este meu acordar; gosto de coçar, acariciar os meus tomates (poderia dizer testículos, mas essa palavra transmite uma ideia de inocência; e os meus tomates são tudo menos inocentes) – gosto de os sentir como contrafortes de um membro que mesmo em hibernação revela respeito.

Saí do sono verdadeiramente satisfeito, a abraçar de braços abertos as minhas almofadas king size Reykjavik-Eider em seda e com metade do corpo acariciado por um edredão Jon Sveinsson; não sou pessoa de gostos elitistas, mas gosto de me vestir com a cama – será um fetiche?

A noite anterior foi economicamente produtiva; até, para variar, sexualmente angustiante; e enquanto depenicava a ponta do pénis a lembrança tornou-se clara.

Seguindo a recomendação de uma cliente habitual aceitei marcar uma noite para a sua amiga necessitada de alguma “distracção”; garantiu-me, “Ela é muito linda.”

A amiga de nome Adalgisa, contrariando a minha sugestão reservou o quarto num hotel que eu desconhecia. Insisti um pouco pois gostava da familiaridade dos meus locais de nidificação, mas perante a sua exigência ou atrevimento? cedi – quem era capaz de pagar pelos meus serviços bem que podia ficar com a ideia de que gozava de algum domínio.

Pelas 21h00, utilizei o elevador, subi ao sétimo piso do hotel e bati à porta do quarto 701 imitando com o melhor empenho possível as quatro primeiras notas do primeiro movimento da 5ª de Beethoven; a batida secreta. Entrei a encarar arregalado (ainda sou susceptível a surpresas) para uma pouco comum máscara veneziana bauta feita de papel machê, de cor ocre, preta e dourada, decorada na testa com um medalhão de ouro e com plumas que ocultava o rosto da minha Adalgisa; o corpo estava vestido com uma longa capa preta que cobria a totalidade do corpo – todo o quadro era iluminado apenas pelas luzes do corredor; a única luz existente no quarto soprava de uma vela. Enquanto fechava a porta não pude deixar de pensar nas palavras “Ela é muito linda.” Seria? A dúvida foi, momentaneamente, relegada para segundo plano quando ordenou “Deite-se de costas na cama. ” “Ah!” “Como pode ver há ali uma cama.” A Adalgisa mordia!

informações: apenas um extracto da história