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entre abraços

O postigo abriu-se e uns olhos inspectivos fizeram uma pergunta silenciosa. Respondi, “Sorrir e acenar.” A porta foi aberta e na minha imaginação esperava ouvir um assustador rangido, mas nada se ouviu; deslizou silenciosamente. Na antecâmara um cartaz informava que me devia despir – fi-lo. De seguida passei por uma portada que me mediu a temperatura e me aspergiu o corpo com desinfectante. Vesti um fato-macaco descartável, antiepidémico e antibacteriano. Quando fiquei totalmente artilhado a luz existente por cima de outra porta acendeu verde. Abri-a e entrei num espaço mais que amplo e brilhante. Solucei em face do que vi: um paraíso de abraço e mais abraços. Exibiam-se casais abraçados, abraços em grupo. Ah! Que visão. Aproximei-me de um casal e cerquei-os com dois braços desejosos de contacto humano. Chorei quando o meu contacto foi retribuído e ali naquele momento senti-me o mais feliz dos mortais. Já não me recordava o quanto um abraço é especial. Abraçado e a abraçar rosnei uma prece de ódio à maldita pandemia.

crescimento

Hoje pela manhã olhei-me ao espelho e a imagem aí impressa assustou-me. Não é que se exibiu perante os meus olhos uma barba descomunal. E não é apenas descomunal. É branca e descomunal. Podem existir muitas explicações para o facto desse crescimento exponencial dos pêlos faciais, mas para mim apenas uma é válida: a humidade da máscara cria um efeito de estufa que optimiza a velocidade do crescimento dos pêlos – simples.

em linha directa

Tenho uma colega sentada à minha frente. Linha directa quatro metros. Tapada por um monitor de 19”. Sentada não a vejo (é pequena). Mas ouço-a – irritantemente. O som que emite é um grasnar e um zurrar demoniacamente combinados. Se isso já não pernicioso per si ainda se dedica a trautear as músicas que passam na rádio. Uma vaca a caminho do matadouro consegue ser menos dramática. Hoje, não sei como, está a ser mais colérica. Não sei quanto tempo mais aguento. Atirei-lhe um agrafo que ficou abafado na enorme peruca a que chama cabelo. Arremessei uma régua de dez centímetros que colidiu contra o monitor. Nem se mexeu. Nada de grave. Peguei no meu teclado QWERT e sem qualquer sobressalto enfiei-o à velocidade da escuridão no lado esquerdo da sua cara. Ela começou a sangrar da boca. Gemeu uns gemidos nauseabundos. Pumba e carreguei-lhe novamente com o teclado. Calou-se. E desfalecida encontrou o chão. Do teclado saltou apenas a tecla F1 que ficou languidamente pousada ao lado da sua cara. Sentei-me na cadeira vazia. E de olhos fechados esperei. Sosseguei. Esperei.

espelhos

Agora mais do que nunca os olhos são o espelho da alma. Com o uso continuado das máscaras faciais são os olhos o espelho de todas as emoções.

(…) Odeio dormir, de qualquer modo (e quem me dera não sonhar tanto). Nem sei porque é que ainda me ralo com isso. Tudo pode acontecer quando se está a dormir. Dormir só serve para apanharmos areia nos olhos.
Sucesso de Martin Amis (página 37)

santuário de santa rosália

Descrição de Goethe na sua “Viagem a Itália“.

À luz frouxa de algumas das lamparinas descobri uma bela Virgem.
Estava numa espécie de êxtase, os olhos meio fechados, a cabeça solta e pousada sobre a mão direita adornada de muitos anéis. Não me cansava de olhar para esta imagem, que me parecia ter encantos muito especiais. O manto é de folha dourada que imita muito bem um tecido rico de ouro. A cabeça e as mãos, em mármore branco, são, não direi de estilo elevado, mas trabalhadas de forma tão natural e agradável que pensa-mos que a todo o momento ela vai respirar e mexer-se.
Tem ao lado um anjinho que parece abaná-la com um pé de lírio.

página 310

felicidade 1.0

Felicidade é estar deitado no sofá com a cabeça hospedada no colo da mulher que amas, fechares os olhos e relaxares com os sons e os movimentos do seu respirar. É uma comoção de oásis.

de lado – 0039

Por favor não digam que sou bom porque, assim, terei os canibais de olhos postos em mim. Não digam, também, que sou mau para evitar as visitas de qualquer evangelista.
Digam que sou assim e assim.

fragmento.00176

Look at me. Look, don’t touch. Don’t look any more. Forget all you knew me for. No face, no name, no number.
D-Leb (Once and Future Cities) by Allen Ashley – page 135

fragmento.00150

I need to go, somewhere, anywhere. I’ll be back tomorrow… once you’ve cooled off and you’re ready to listen and be rational.

Entanglement by Douglas Thompson