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fragmento.000481

A infâmia atrai as cumplicidades: Mengele foi solto pelos americanos, talvez ajudado pelos ingleses, escondido por frades, protegido pelo ditador do Paraguai. Sem dúvida, não é o nazismo a única barbárie existente neste mundo, e hoje condenar a violência nazi, que deixou de constituir uma ameaça, serve a muitos para esconder outras violências, cometidas sobre outras vítimas de outra raça e cor, e para assim se porem em paz com a consciência mediante uma profissão de fé antifascista. Mas também é verdade que o nazismo foi um apogeu, um cume inultrapassado da infâmia, o mais estreito nó que alguma vez se travou entre uma ordem social e a atrocidade.
Danúbio de Claudio Magris (página 103)

fragmento.000480

O arquivista de ofensas [1] regista com agrado a corrupção da vida, que também a ele o riscará do mundo, mas que do mesmo modo e sobretudo apagará todas as vilezas. A universalidade da morte corrige a da estupidez e a da maldade. Mas todo o livro escrito contra a vida, disse Thomas Mann, constitui uma sedução no sentido de a viver; por trás da persistente negação oposta por Thrän à maldade das coisas há também um pudico amor pela realidade, pelo riso e pelas ruas que ele media com inabalável precisão. Talvez o amigo sincero da vida não seja o pretendente que a corteja com adulações sentimentais, mas o apaixonado infeliz e rejeitado que se sente expulso dela, escrevia Thrän, como um velho móvel fora de moda.
Danúbio de Claudio Magris (páginas 88/89)

[1] Georg Karl Ferdinand Thrän (1811-1870) foi Mestre construtor da catedral em Ulm (Ulmer Münster).

fragmento.000478

Toda e qualquer vida se decide na capacidade de crença ou na sua ausência, toda e qualquer viagem se joga entre a pausa e a fuga.
Danúbio de Claudio Magris (página 75)

aqui se fala também de pessoa

(…) Berrando, como ele próprio escrevia[1], pensava defender uma inocência do eu virgem e selvagem. Gabava-se, com desprezo, de não ser um empregado, como se isso lhe garantisse uma especial autenticidade e como se as trocas de murros de Hemingway tivessem de ser, a priori, mais poéticas do que as tarefas de escritório despachadas por Kafka. Utilizar o termo «empregado» como uma injúria não passa de uma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. (…)
Kafka e Pessoa viajam não até ao fim de uma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a essa consciência, uma extrema resistência da verdade.
Danúbio de Claudio Magris (páginas 59/60)
[1] Louis Ferdinand Destouches, dit Louis-Ferdinand Céline, né le 27 mai 1894 à Courbevoie et mort le 1er juillet 1961 à Meudon, connu sous son nom de plume généralement abrégé en Céline, est un écrivain et médecin français. Il est notamment célèbre pour Voyage au bout de la nuit, publié en 1932 et récompensé par le prix Renaudot la même année.
Considéré comme l’un des plus grands novateurs de la littérature du xxe siècle, « d’une stature exceptionnelle, au rôle décisif dans l’histoire du roman moderne» estime George Steiner, Céline introduit un style elliptique personnel et très travaillé, qui emprunte à l’argot et tend à s’approcher de l’émotion immédiate du langage parlé. À propos de son style, Julien Gracq dira : « Ce qui m’intéresse chez lui, c’est surtout l’usage très judicieux, efficace qu’il fait de cette langue entièrement artificielle — entièrement littéraire — qu’il a tirée de la langue parlée. »
Céline est aussi connu pour son antisémitisme. Il publie des pamphlets virulents dès 1937 (année de la parution de Bagatelles pour un massacre) et, sous l’Occupation durant la Seconde Guerre mondiale, il est proche des milieux collaborationnistes et du service de sécurité nazi. Il rejoint en 1944 le gouvernement en exil du Régime de Vichy à Sigmaringen, épisode de sa vie qui lui inspirera le roman D’un château l’autre, paru en 1957.

Wikipédia

fragmento.000476

A História só adquire a sua realidade mais tarde, quando já passou, e as ligações gerais, instituídas e escritas nos anais anos depois, conferem a um acontecimento o seu alcance e o seu papel. Recordando a derrocada búlgara, acontecimento decisivo para o desfecho da Primeira Guerra Mundial e portanto para o fim de uma civilização, o conde Károlyi escreve que, enquanto o vivia, não dera conta da sua importância, porque, «nesse momento, “esse momento” não se transformara ainda “nesse momento”».
Danúbio de Claudio Magris (página 46)

donauquelle

A estátua junto à fonte de Donaueschingen mostra o Danúbio como uma criança de tenra idade nos joelhos de uma figura feminina representando a Baar, a aprazível região de colinas que em redor se desdobra. Esta imagem infantil é insólita na iconografia do grande rio, que aparece geralmente retratado numa efígie de maturidade majestosa e potente, como na estátua da fonte que no prospeto adorna o palácio da Galeria Albertina em Viena. (…)
Danúbio de Claudio Magris (página 47)
fonte de neptuno – museu de albertina – @ footsteps – jotaro’s travels

“las castas”

(…) O painel gostaria de classificar e distinguir rigorosamente — até no traje — as castas, sociais e raciais, mas acaba por exaltar involuntariamente o jogo caprichoso e rebelde do eros, o grande destruidor de qualquer hierarquia social fechada, que confunde e baralha as cartas ordenadas, que mistura os ouros às copas ou às espadas para tornar possível e aprazível o jogo.
Na penúltima casa, o fruto dos amores do Tente En El Aire e da Mulata deixa perplexo o talento taxonómico do classificador anónimo, que efetivamente o define como «Noteentiendo».
Danúbio de Claudio Magris (página 39)

fragmento.000473

Fomos, todos nós, ensinados a ver o Espírito do Mundo em grandes batalhões de soldados, e deveríamos aprender com Herder a surpreendê-lo também onde ele se encontra ou parece — ainda dormente ou acabado de entrar na infância; talvez não estejamos verdadeiramente a salvo enquanto não aprendermos a sentir, com uma concretude quase física, que cada nação está destinada a ter a sua hora e que não há, em sentido absoluto, civilizações maiores ou menores, mas antes um suceder sazonal e de florações. Viver e ler significa pensar essa «história da alma humana» em todos os tempos e em todos os países que Herder queria traçar através das realizações da literatura mundial, sem sacrificar a ideia de uma universalidade perene dessa alma, mas também sem sacrificar a um único modelo nenhuma das formas, tão diferentes e várias, que a encarnarem; o amor pela perfeição da forma grega não levava Herder a desvalorizar os cânticos das festas populares da Letónia.
Danúbio de Claudio Magris (página 37)

no interior: “danúbio”

Vinheta existente no interior do livro Danúbio de Claudio Magris, publicado pela Quetzal.

fragmento.000472

(…) De manhã, a história é outra, mais intensa, barulhenta e igualmente bela. Intrigante. E desastrosa. Estivemos lá uma semana e tal e nunca vimos uma escola de condução. Desconhecemos mesmo a existência de aulas de código. Há 16 milhões de habitantes, dez milhões de carros. Desses, dois milhões são táxis. Nenhum deles respeita o que quer que seja. É n típico deixa andar. Diz-se do Cairo a título anedótico que as intermináveis buzinas funcionam como uma espécie de terceira língua, que os condutores estão preparados para qualquer circuito de Fórmula 1 e que um peão que sobrevive aos motoristas é capaz de se esquivar até de tiros de snipers.
Viagens Sem Bola de Rui Miguel Tomar (página 52)