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09 Set
09.09.2019 (…) Os primeiros solavancos metálicos do comboio a arrancar transmitiam a sensação física e perentória do início da viagem, o corte brusco que nos separa e liberta do quotidiano; como o momento em que os músicos começam a tocar e é como se uma corrente poderosa tivesse irrompido; como a imersão nas primeiras imagens de um filme ou nas primeiras frases definitivas de um livro. Cada começo é um era uma vez e o princípio do Génesis, o primeiro verso da Ilíada, a primeira linha de ou do Lazarilho de Tormes ou de Moby Dick. Tratem-me por Ismael. Antes de tudo o mais, saiba pois Vossa Mercê que me chamam Lázaro de Tormes. Se numa noite de inverno um viajante. A primeira vez que vi Terry Lennox, estava ele perdido de bêbado dentro de um Rolls-Royce último modelo. Porventura não existe melhor começo do que uma enunciação impessoal de factos muito precisos. É deste modo que a literatura reclama ou imita a objetividade do mundo. Por isso mesmo, o início de romance de que mais gosto foi o que Flaubert escreveu para A Educação Sentimental, que versa sobre o início de uma viagem e tem qualquer coisa de registo administrativo ou de anotação num diário de bordo: «Em 15 de setembro de 1840, pelas seis da manhã, o Ville-de-Montereau, prestes a partir, lançava grossos rolos de fumo em frente do cais de Saint-Bernard.» Às onze da noite de 1 de janeiro de 1987, o Lusitânia Expresso saiu da estação de Atocha, em Madrid, em direção a Lisboa. No dia 8 de maio de 1968, à uma e um quarto da madrugada, um viajante de perto de quarenta anos, com um fato escuro e gabardina, chegou ao aeroporto de Lisboa num voo procedente de Londres.
Como A Sombra Que Passa de Antonio Muñoz Molina (página 107)

22 Ago
22.08.2019 (…) e pergunta-se se valerá a pena esperar por um futuro quando não há futuro nenhum, e, a partir de agora, diz para si mesmo, a partir de agora deixará de alimentar esperanças e viverá apenas o agora, este momento, este momento que passa, o agora que está aqui e depois já não está aqui, o agora que desaparece para sempre.
Sunset Park de Paul Auster (página 230)

18 Ago
18.08.2019 O SUICÍDIO É O COMBOIO DA NOITE, a correr para as trevas. Por meios naturais não se chega lá tão depressa. Tira-se bilhete e sobe-se a bordo. O bilhete custa tudo o que se tem. Mas é só de ida. Este comboio leva para a noite e deixa-nos lá ficar. É o comboio da noite.
O Comboio da Noite de Martin Amis (página 77)

07 Ago
07.08.2019 O melhor é não nos distinguirmos dos outros. Os feios e os estúpidos são neste mundo os mais felizes. Podem à sua vontade gozar o espectáculo. Se não conhecem as delícias do triunfo, também não os amargura o travo da derrota. Vivem como todos nós devíamos viver, sossegados, indiferentes, sem inquietações. Nem causam a ruína dos outros, nem a recebem das mãos alheias.
O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde (página 9)

06 Ago
06.08.2019 (…) É estranho nunca ter pensado em ir a uma biblioteca. Precisava de os adquirir, de os ver dispostos em fila, ao longo de uma parede do meu quarto minúsculo. As minhas divindades domésticas. As minhas naves espaciais.
Histórias de Susan Sontag (página 16)

05 Ago
05.08.2019 Em que é que estava a pensar, naquele momento?
Nos seus segredos e em todas as esperanças e medos, no lugar que ocupava no amor: a minha mãe era uma mulher complicada, embora na altura eu tivesse a impressão de que ela era simples e transparente.
O que eu sei sobre nós, sobre o que nos aconteceu, está encerrado nesta imagem: braços abertos, ninguém que ela possa apertar ou agarrar, a única coisa que ela era capaz de fazer, e eu a afastar-me.
A Vida Feliz de Elena Varvello (página 81)

31 Jul
31.07.2019 (…) Penso que nenhum homem argumentaria contra a ideia de que, se todo o pensamento consciente, toda a memória, toda a capacidade de raciocínio fossem momentaneamente erradicados da mente humana, o que ficaria seria puro e terrível.
(…)
Sabem, no fundo nada temos de Homo Sapiens. O nosso núcleo é a loucura. A instância primário é o assassínio.
Cell de Stephen King (página 219)

26 Jul
26.07.2019 (…) Disse que pensava que a maioria de nós desconhecia o quão verdadeiramente bom ou o quão verdadeiramente mau éramos, e que a maioria de nós nunca viria a ser suficientemente testada para o poder descobrir.
A Contraluz de Rachel Cusk (página 62)

23 Jul
23.07.2019 (…) Eu viajava num país com mais passado do que futuro, um lugar onde os ponteiros do relógio não giram para diante, mas para trás.
Rio de Sangue de Tim Butcher (página 348)

22 Jul
22.07.2019 (Paulete: «O amor torna as pessoas ridículas. O ódio é um sentimento mais respeitável.»)
Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa (página 127)
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