Tag Archive for: quotes

na corda bamba

13 Jun
13.06.2006

É preciso uma grande pressão para nos levar a compreendermos-nos. Por outro lado, a civilização ensina-nos que cada um de nós vale um preço inestimável. Há, portanto, este dois preparativos: um para a vida e outro para a morte. Por isso nós avaliamo-nos e temos vergonha de nos avaliar-mos. Fomos treinados no silêncio e, se um de nós tira ocasionalmente as suas próprias medidas, fá-lo friamente, como se estivesse a examinar as unhas, e não a alma, franzindo o sobrolho às imperfeições que encontra como se fossem uma lasca ou uma sujidade.(…)
Mas eu tenho de saber o que eu próprio sou.
(…)
Sinto que sou uma espécie de granada humana a que tiraram a espoleta. Sei que vou explodir e estou constantemente a antecipar essa altura, gritando com um desespero fervoroso: «Bum.», mas sempre antes do tempo.
Goethe tinha razão num sentido: a vida que continua significa expectativa. A morte é a abolição da escolha. Quanto mais limitada é a escolha, mais perto estamos da morte. A maior crueldade é cortar esperanças sem tirar completamente a vida.


Saul Bellow, Na Corda Bamba
título original: The Dangling Man
tradução: Maria Adélia Silva Melo
editor: Dom Quixote, Lisboa, Dez. 1976
citação: páginas 120 e 149

o fim da história

13 Jun
13.06.2006

O problema do cristianismo, no entanto, é que não passa de uma outra ideologia de escravos, isto é, não é verdadeira em determinados aspectos cruciais. O cristianismo não defende a realização da liberdade humana na Terra, mas apenas no Reino dos Céus. Por outras palavras, o cristianismo contém o conceito certo de liberdade, mas, ao afirmar que não existe libertação nesta vida, acabou por reconciliar os servos deste mundo com a sua falta de liberdade. Segundo Hegel, o cristão não tem consciência de que não foi Deus que criou o homem, mas sim o homem que criou Deus. Criou-O como uma espécie de projecção da sua ideia de liberdade, pois o Deus cristão personifica o senhor perfeito de si próprio e da natureza. O cristão, no entanto, acaba por se tornar servo deste Deus que ele próprio criou. Reconciliou-se com uma vida de servidão na Terra, acreditando que seria mais tarde redimido por Deus, quando poderia ser o redentor de si próprio. O cristianismo constituiu, pois, uma espécie de alienação, isto é, uma nova forma de servidão em que o homem passava a servir algo que ele mesmo havia criado, tornando-se portanto um ser interiormente dividido.
O cristianismo, essa última grande ideologia de escravos, deu ao servo uma visão do que deveria ser a essência da liberdade humana. (…) Hegel considerava a sua filosofia como uma transformação da doutrina cristã, já não fundamentada no mito ou na autoridade das Escrituras, mas na conquista pelo escravo do conhecimento e autoconsciência absolutos.

Francis Fukuyama, O Fim da História
título original: The End of History and The Last Man
tradução: Maria Goes
editor: Círculo de Leitores, Lisboa, Out. 1992
citação: página 199
isbn: 972-42-0562-2

– Esses mísseis… (Representam qualquer coisa. São coisas belas, compreende, esbeltas e brilhantes, construídas com a máxima honestidade. Foram precisos inúmeros séculos para se atingir um ponto em que o seu fabrico se tornou possível. O facto de transportarem a morte é circunstancial.)

Poul Anderson, A Hora da Inteligência
título original: Brain Wave
tradução: Raul Sousa Machado
editor: Livros do Brasil, Colecção Argonauta, Lisboa
citação: página 129

Relutante e ensonado abandonei as minhas visões oní­ricas.

Francesco Sorti; Rita Monaldi, Imprimatur – O Segredo do Papa
tí­tulo original: Imprimatur
tradução: José J. Correia Serra
editor: Editorial Presença, Lisboa, Nov. 2004
citação: página 207
isbn: 972-23-3286-4

Eu sei que aquilo que escrevo já foi escrito antes, como tudo aquilo que hoje fazemos, salvo raras excepções, já foi feito há muito tempo antes de nós. Tudo é assim na vida. Na literatura também.

José Saramago

o processo

09 Jun
9.06.2006

(…) “Esta é a lei. Como pode, pois, haver um engano?” “Desconheço esta lei”, respondeu K. “Tanto pior para si”, replicou o guarda. “E provavelmente ela não existe, a não ser nas vossas cabeças”, volveu K. (…) “Olha, Willem, ele diz que não conhece a lei e, no entanto, declara que está inocente.”

Franz Kafka, O Processo
título original: Ein Prozess
tradução: Maria José Fabião
editor: Publicações Europa América, Mem Martins, Jul. 1976
citação: páginas 10 e 11

o bebedor de livros

07 Jun
7.06.2006

I. Os livros e as prostitutas podem levar-se para a cama.
II. Os livros e as prostitutas entrecruzam o tempo. Dominam a noite tal como o dia e o dia tal como a noite.
(…)
V. Os livros e as prostitutas – ambos têm toda a espécie de homens que vivem deles e os atormentam. Os livros têm os crí­ticos.

Klaas Huizing, O Bebedor de Livros
tí­tulo original: Der Buchtrinker
tradução: Maria Névoa
editor: Cí­rculo de Leitores, Amadora, Maio 2001
citação: páginas 99 e 155
isbn: 972-42-2495-3

É possível viver no desespero e não desejar a morte?

Alberto Moravia, 1934
tí­tulo original: 1934
editor: Editorial Presença, Colecção Novos Continentes (n.º3), Fev. 1984
citação: página 7

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