Tag Archive for: quotes

01 Abr
01.04.2019 E como eu lhe respondia que não, que não estava chocado, que sabia que o sofrimento não era um jantar de gala, nem poesia elegíaca, que era sangue, suor e merda (…)
Porto-Sudão por Olivier Rolin (página 49)

01 Abr
01.04.2019 Compreendi rapidamente que o mais provável era nem sequer costumarem saudá-lo em vida. Ele era-lhes completamente estranho, só o seu desaparecimento lhes era familiar, porque esse servia-lhes para reanimar quotidianamente a alegria e a quase vaidade que tinham de constatar mutuamente a própria existência, a importância dessa situação de estar vivo, apesar das aparências: maravilha que eles exercitavam sem cessar através de tiradas espirituosas, de maledicência e de pequenos toques cúmplices.
Porto-Sudão por Olivier Rolin (página 41/42)

27 Mar
27.03.2019 O MEU TELEFONE COMEÇOU A LADRAR no momento em que o isqueiro caiu. Procurei-o nervoso. Escapava-me dos dedos trémulos como um escorregadio peixe-cão metálico. Levei alguns segundos a atender enquanto os latidos cresciam, enfurecidos. Reconheci a voz de Kianda. Tentei explicar-lhe o que me acontecera. Não tive tempo. Ouvi a porta do consultório a bater de encontro à parede, e a voz de Tata Ambroise desarrumando o ar em assombrada cólera:
— Um cão aqui?! Quem deixou entrar um cão?
Desliguei o telefone. Voltei a guardá-lo no bolso. Tata Ambroise abriu a porta da minha prisão. Empurrei-a com toda a força e saí. O curandeiro caiu. Ou melhor, foi caindo. Montanhas não caem de uma só vez. Rolam lentas sobre si mesmas. Já no chão olhou para mim. Acho que nunca testemunhei um tão convincente esgar de espanto:
— Um rato!
O telefone voltou a ladrar. Não atendi, claro, estava demasiado ocupado a tentar fugir. A porta do consultório ficara aberta. Afastei uma enfermeira e lancei-me a galope pelo corredor. Tata Ambroise berrava atrás de mim:
— Um rato-cão! Agarrem o monstro!
Barroco Tropical por José Eduardo Agualusa (página 291)

Este texto, capítulo 19 de “Barroco Tropical”, é um dos muitos momentos cómicos da história. Existem outros igualmente sublimes, mas neste o absurdo da situação, a confluência, digamos, de muitos doces pormenores têm aqui a sua merecida apoteose.

Delirante!

27 Mar
27.03.2019 Aborrece-me que Deus não nos permita viver um acontecimento tão importante quanto a morte senão uma única vez — e ainda por cima sem direito a ensaios.
Barroco Tropical por José Eduardo Agualusa (página 286)

26 Mar
26.03.2019 O QUE FAÇO AGORA, MINHA SANTA?
Mato-me?
Devíamos poder morrer temporariamente, como quem vai de férias. Não, não como quem dorme! Como quem dorme, não! Não digas disparates. Dormir é viver sem a opressão da consciência, e às vezes nem isso. Em sonhos também sofremos com remorsos. Também temos medo de morrer. Também adormecemos. Também morremos. Eu queria morrer de verdade, deixar de existir, de forma que durante algum tempo tudo fosse nada. Nada em mim e à minha volta. Eu flutuando no infinito nada.
Barroco Tropical por José Eduardo Agualusa (página 163)

25 Mar
25.03.2019 Não tenho tempo para sentir.
Não tenho tempo para sentir, compreende? Não posso parar. Não posso ter tempo para sentir. Não quero sentir.
No instante em que voltar a sentir morrerei de tanto sentir.
Barroco Tropical por José Eduardo Agualusa (páginas 33/34)

25 Mar
25.03.2019 »Mas ela é mais do que boa arte a denunciar alguma arte muito má: é um símbolo para todas as mulheres que alguma vez tentaram suportar uma carga demasiada pesada para elas… mais de metade da população feminina deste planeta, viva e morta suponho. Mas não só mulheres; o símbolo é assexuado. Refere-se a todos os homens e a todas as mulheres que já viveram e suaram na vida com uma força sem protestos, cuja coragem nem sequer foi vista até caírem sob as respetivas carga. É coragem, Ben, e vitória.
— «Vitória»?
— Vitória na derrota, não há vitória mais elevada. Ela não desistiu, Ben; ainda está a tentar erguer aquela pedra depois de ela a esmagar.
Um Estranho Numa Terra Estranha por Robert A. Heinlein (pág. 159/160, vol. II)

Cariátide [1] caída carregando a sua pedra escultura de Auguste Rodin.


Imagem retirada do site Tate
[1] As Cariátides eram figuras femininas que serviam de colunas no Erecteion, na Acrópole de Atenas.

25 Mar
25.03.2019 Nove vezes em dez, se uma rapariga é violada, isso é pelo menos em parte culpa dela.
Um Estranho Numa Terra Estranha por Robert A. Heinlein (pág. 131, vol. II)

16 Mar
16.03.2019 A minha infância está cheia de bons sabores. Cheira bem a minha infância.
O Vendedor de Passados por José Eduardo Agualusa (página 70)

14 Mar
14.03.2019 — POR VEZES, AO ACORDAR, sinto que a minha alma não cabe no corpo.
Catálogo das Sombras por José Eduardo Agualusa (página 65)
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