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eu babo-me e tu?

04 Out
04.10.2009

Ao reler Incal pensei no que me leva a gostar de tal forma de uma história que serve não apenas de referência para todas as outras que vou lendo, mas, também, como ponta de lança numa conversa quando falo, completamente babado, sobre a 9º arte ou sobre a 6º arte; já não tão babado, claro.

Apenas recorrendo à memória e não às estantes aponto como os meus autores de BD de excelência: Moebius, Druillet, Pratt, Bilal [1], Goscinny e Greg; e Alexandre Dumas, Walter Scott, Tolstoi, Nietzsche, Kafka, Eça, Hubbard, Heinlein, Robert Silverberg, Camus, Sartre, Gautier, Balzac, Sthendal e Flaubert na literatura. [2]

Starwatcher

Starwatcher (1)

Sei que se fosse agora mesmo às estantes iria descobrir outros autores tão espectaculares quanto estes, mas a verdade é que são estes e não outros autores que foram aqui escritos.

.Moebius
A primeira história que li era passada num mundo estranho. Havia um menino numa janela; uma personagem impassível. E um gato. E uma águia. O desenho é fascinante. O argumento assombroso. O conjunto é uma história com uma narração cinematográfica de um surrealismo magnético. É uma obra a duas cores, metálicas, que se lê em 5 minutos, como um filme(?), mas que deixa uma sensação inesquecível. A primeira aquisição que tenho de Moebius é, pois, “Os Olhos do Gato” (Martins Fontes, 1987); o argumento é de Alejandro Jodorowsky, o mesmo argumentista do Incal.

Incal Negro

Incal Negro (2)

Depois veio o Incal. A paixão pelo Incal começou logo na prancha 1bis (2 página d’ “O Incal Negro”, Editorial Futura, 1983).
Após isto com Moebius aka Giraud ou Giraud aka Moebius foi sempre a abrir. Tenho praticamente todo o Moebius – ainda não comprei, mais por preguiça, acho eu, Arzach – não tanto Giraud, apesar de adorar Blueberry.
A grande aquisição que tenho de Moebius é “Starwatcher”, Edition Aedena, 1986; o livro é uma reedição “De la Mémoire du Futur” inteiramente revista e ampliada.

Moebius é para mim dentro da excelência a maior referência na banda desenhada.

.Druillet
Foi descoberto a ver revistas Écho des Savanes. Não foi uma história, mas uma entrevista. Os desenhos eram diferentes. Tinham vida própria. De Druillet apenas tenho Salammbô, mas os desenhos são um desespero visual.

. Hugo Pratt
“A Balada do Mar Salgado”, editada pela Bertrand (1982) e emprestada por um colega (Ilídio Torres [IT]) em Coimbra, foi amor à primeira vista. Na mesma altura lembro-me de ler o “Silêncio” de Didier Comès, mas foi com Pratt que fui descobrir outro universo de BD. Pratt é O autor que cria com uma tal intensidade uma BD que podemos dizer que estamos perante um romance de aventuras em forma de BD. Corto Maltese é o herói/anti-herói que vive aventuras de sonho num mundo real(?).

.Enki Bilal
“O Cruzeiro dos Esquecidos”. Mais uma vez Coimbra e IT. Bilal com um desenho de sombras único cria personagens que são de tal forma psicologicamente credíveis que nos contaminam com os seus medos; vivem num futuro com características assustadoramente reais e possíveis.

.Réne Goscinny
Coimbra e as revistas Tintin perdidas em desleixo na Real República dos Pyn-Guyns onde residia IT. Goscinny é Humor + Humor + Fantasia. Uma simplicidade a contar histórias que nos faz sonhar ao quadrado.

.Greg
Achille Talon com naturalidade. Ainda adoro dizer/escrever o “espirrar baboseiras pelo nariz”. Greg (Michel Regnier) é Humor + Aventura + Fantasia. Experimentou com sucesso todos os géneros. Grandes heróis de aventuras têm a sua marca: Chick Bill, Spirou e Fantasio, Bernard Prince, Luc Orient, Bruno Brazil, Comanche, Spaghetti e muitos mais.

A Armadilha Diabólica

A Armadilha Diabólica (3)

Se com os autores acima descritos foi sempre amor à primeira vista houve pelo menos dois autores que tive dificuldade em comer à primeira, segunda e até terceira vez:
– um foi Edgar E. Jacobs e “As Aventuras de Blake e Mortimer”; tanto texto, mas tanto texto que me assustava sempre que folheava um álbum, mas quando finalmente ganhei coragem foi uma paixão para sempre.
Haverá alguém que não fique com suores frios ao descobrir n’ “Armadilha Diabólica” (Meribérica/Liber, 1987) a prancha da página 38?

– o segundo foi Tardi com “As Aventuras Extraordinárias de Adéle Blanc-Sec”. O desenho de “Adéle e o Monstro” (Bertrand, 1978) não me convidava, sabe-se lá porquê, a avançar. Foi muito mais tarde, quando ganhei a colecção completa a IT, que me senti obrigado a ler “Adéle” e adorei.

Graças a este esforço e persistência adorei, mais tarde, Alix de Jacques Martin e não perdi na (A Suivre) as aventuras de “Nestor Burma” baseadas nos livros de Léo Malet.


[1] descobri na sequência de estar a ler “A Viagem de Théo” (Circulo de Leitores, pág. 63) que Bilal, um escravo negro, foi um dos primeiros convertidos aos ensinamentos do profeta Maomé.
[2] falarei destes escritores noutro post.
imagem (1) – descrição: imagem retirada da edição Starwatcher”, Edition Aedena, 1986
imagem (2) – descrição: prancha (página 2) retirada da edição da Editorial Futura, 1983
imagem (3) – descrição: prancha (página 38) da da edição da “Armadilha Diabólica”, editada pela Meribérica/Liber, 1987.

remanescente

16 Abr
16.04.2009

Porque estava eu tão obcecado com a morte deste homem que ­nunca conhecera? Não parei para interrogar-me sobre isso. Claro que eu sabia que tínhamos coisas em comum. Ele fora atingido por uma coisa, ferido, atirado ao chão e perdera a consciência – eu também. Ambos passáramos para uma zona de escuridão total, silêncio, vazio, sem memória e sem previsões, um local fora do alcance de qualquer tipo de estímulo.
(…)
No entanto, reduzir todo o meu fascínio por ele à experiência que partilháramos seria contar apenas metade da história. Menos de meta­de. A verdade é que, para mim, este homem tornara-se um símbolo de perfeição. Podia ter sido desajeitado ao cair da bicicleta, mas ao morrer sobre o alcatrão, ao lado dos postes, ele fizera o que eu teria desejado fazer: fundira-se com o espaço em seu redor, mergulhara e escorrera para dentro dele até já não haver distância entre ambos – e fundir-se, também, com as suas acções, fundir-se ao ponto de já não ter consciên­cia delas. Deixara de estar separado, removido, imperfeito. Eliminara o desvio. Então, tanto a mente como as acções transformaram-se em pura estase. O ponto em que isto acontecera era o grau zero da perfeição – de toda a perfeição, aquela que ele conseguira atingir, aquela que eu desejava, aquela que qualquer outra pessoa desejava mas simplesmente não tinha noção de desejar e em qualquer caso não tinha oito milhões e meio para a perseguir, mesmo que tivesse noção dela. Por isso precisava de reconstituir a sua morte: por mim, sem dúvida, mas também pelo mundo em geral. Ninguém que compreendesse isto poderia acusar-me de não ser generoso.

página 155

Terminei a leitura da obra “Remanescente”. É um livro único não só pela espectacular história, mas também pela enorme e infindável riqueza dos pormenores. É fascinante assistir às reconstituições/duplicações de lembranças e acontecimentos criados pelo protagonista.


Remanescente, Tom McCarthy // título original: Remainder // editor: Editorial Estampa, Colecção Promoteu, n.º 31

bricolage

06 Dez
06.12.2008

Hoje dia ventoso e a dita porta mal fechada a provocar de segundo a segundo o “tal” ruído. E é um barulho de merda. Chato. Irritante. Penso em levantar-me da cadeira para fechar a porta. Mas já que vou ter de elevar o meu corpo à sua posição bípede decidi ir mais longe e resolver o problema de vez.

Analiso a situação. Concluo que a calha de alumínio está ligeiramente levantada do chão e por isso a porta raspa nela.
A solução é simples e a execução ainda mais célere. De martelo na mão e após duas valentes marteladas é a maldita calha colocada numa posição mais elegante. Rente ao chão. Fecho a porta pelo lado de fora para admirar o meu trabalho de bricolage e de engenho humano. E o silêncio foi orgiástico.

Abro a porta e ela não abriu. Aparentemente embatia na calha. Mas como. COMO?

Vou pela porta frontal, a de entrada dos clientes, para perceber a sua recusa em se abrir. E não é que a calha motivada pelas marteladas ficou com a ponta levantada?? Solução mais duas marteladas na ponta. Resultado? Calha 1 – Martelo 0.
Eu deveria saber que marteladas não resolvem nada por isso resumi o uso do martelo a pancadinhas certas, cirúrgicas no alumínio. Mas a calha teimava em resistir.

Não pensem que desisti, que entrei em pânico. Eu nunca desespero. Eu chamo sempre o meu pai.

contos irónicos

06 Fev
06.02.2008

— Já não aguento mais — disse a rapariga subitamente —, já não aguento mais, é desumano o que exiges. Há homens que exigem coisas imorais de uma rapariga, mas o que tu exiges de mim é quase mais imoral de que as coisas que outros homens exigem de uma rapariga.
Murke suspirou.
— Meu Deus — disse. — Querida Rina, tenho de voltar a cortar tudo isto; sê sensata, sê boazinha, e silencia-me ainda pelo menos mais 5 minutos de fita.
(…)
— Ai, Rina — disse —, se tu soubesses o quanto me é precioso o teu silêncio. À noite, quando estou cansado, quando tenho de estar aqui sentado, passo o teu silêncio. Por favor, sê gentil e silencia-me só mais três minutos e poupa-me os cortes; bem sabes o que significa para mim cortar.

página 83

Heinrich Böll, Contos Irónicos // título original: Erzählungen // tradução: Veronika de Vasconcelos // editor: Europa-América, Livros de Bolso, n.º 346, 1983, Mem Martins

andar de mota

30 Ago
30.08.2007

Todo o adulto, que se preze e seja digno de uma bondosa maturidade, ressona. Eu ressono.
Ressono por uma série de motivos.
A razão secular é o silêncio. Ressono para quebrar a monotonia do silêncio de casa, apenas quebrado pelo ronronar da bomba do aquário.
Ressono para dizer “Estou aqui crianças. Toca a avançar para outra qualquer divisão da casa para o pai dormir descansado!!”
Claro que o motivo mais relevante é o amor. Ressono para que a minha cara metade possa comentar junto dos amigos e amigas o sacrifício que é tentar dormir a meu lado.

na corda bamba

13 Jun
13.06.2006

É preciso uma grande pressão para nos levar a compreendermos-nos. Por outro lado, a civilização ensina-nos que cada um de nós vale um preço inestimável. Há, portanto, este dois preparativos: um para a vida e outro para a morte. Por isso nós avaliamo-nos e temos vergonha de nos avaliar-mos. Fomos treinados no silêncio e, se um de nós tira ocasionalmente as suas próprias medidas, fá-lo friamente, como se estivesse a examinar as unhas, e não a alma, franzindo o sobrolho às imperfeições que encontra como se fossem uma lasca ou uma sujidade.(…)
Mas eu tenho de saber o que eu próprio sou.
(…)
Sinto que sou uma espécie de granada humana a que tiraram a espoleta. Sei que vou explodir e estou constantemente a antecipar essa altura, gritando com um desespero fervoroso: «Bum.», mas sempre antes do tempo.
Goethe tinha razão num sentido: a vida que continua significa expectativa. A morte é a abolição da escolha. Quanto mais limitada é a escolha, mais perto estamos da morte. A maior crueldade é cortar esperanças sem tirar completamente a vida.

página 120 e 149

Saul Bellow, Na Corda Bamba // título original: The Dangling Man // tradução: Maria Adélia Silva Melo // editor: Dom Quixote, Lisboa, Dez. 1976

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