Tag Archive for: sono

vozes…

02 Jan
02.01.2012

Não me senti louco quando principiei a ouvir vozes atrás de mim; primeiro num chilrear, depois em cacofonia. Agora ouvia ruídos do lado esquerdo, do lado direito e pelo andar da carroça iria sofrer o mesmo tormento à minha frente. O vozeirão estava insuportável. Os meus ouvidos já não tinham capacidade para absorver a notável desordem sonora. A suculenta ideia de estar sozinho, para repensar na inconstância da vida, mas acompanhado transformou-se em frustração.

Deveria ter adivinhado que um estádio de futebol nunca serviria o doce propósito de sublimação zen.

que ousadia! (excerto)

08 Out
08.10.2011

Acordei com a mão esquerda a segurar os tomates. Nada de anormal este meu acordar; gosto de coçar, acariciar os meus tomates (poderia dizer testículos, mas essa palavra transmite uma ideia de inocência; e os meus tomates são tudo menos inocentes) – gosto de os sentir como contrafortes de um membro que mesmo em hibernação revela respeito.

Saí do sono verdadeiramente satisfeito, a abraçar de braços abertos as minhas almofadas king size Reykjavik-Eider em seda e com metade do corpo acariciado por um edredão Jon Sveinsson; não sou pessoa de gostos elitistas, mas gosto de me vestir com a cama – será um fetiche?

A noite anterior foi economicamente produtiva; até, para variar, sexualmente angustiante; e enquanto depenicava a ponta do pénis a lembrança tornou-se clara.

Seguindo a recomendação de uma cliente habitual aceitei marcar uma noite para a sua amiga necessitada de alguma “distracção”; garantiu-me, “Ela é muito linda.”

A amiga de nome Adalgisa, contrariando a minha sugestão reservou o quarto num hotel que eu desconhecia. Insisti um pouco pois gostava da familiaridade dos meus locais de nidificação, mas perante a sua exigência ou atrevimento? cedi – quem era capaz de pagar pelos meus serviços bem que podia ficar com a ideia de que gozava de algum domínio.

Pelas 21h00, utilizei o elevador, subi ao sétimo piso do hotel e bati à porta do quarto 701 imitando com o melhor empenho possível as quatro primeiras notas do primeiro movimento da 5ª de Beethoven; a batida secreta. Entrei a encarar arregalado (ainda sou susceptível a surpresas) para uma pouco comum máscara veneziana bauta feita de papel machê, de cor ocre, preta e dourada, decorada na testa com um medalhão de ouro e com plumas que ocultava o rosto da minha Adalgisa; o corpo estava vestido com uma longa capa preta que cobria a totalidade do corpo – todo o quadro era iluminado apenas pelas luzes do corredor; a única luz existente no quarto soprava de uma vela. Enquanto fechava a porta não pude deixar de pensar nas palavras “Ela é muito linda.” Seria? A dúvida foi, momentaneamente, relegada para segundo plano quando ordenou “Deite-se de costas na cama. ” “Ah!” “Como pode ver há ali uma cama.” A Adalgisa mordia!

informações: apenas um extracto da história

cabeça fria

23 Jun
23.06.2011

aqui tinha escrito o quanto gosto de uma almofada fria.

Ontem descobri uma razão cientifica para continuar com esta minha mania. Na Time (vol. 117, no. 26 | 2011) do dia 27 de Junho, página 16 “Briefing” existe um pequeno rascunho com o título “Cool your head to fall asleep”; sou um verdadeiro Zandinga.

a conspiração dos antepassados

10 Mai
10.05.2011

Ele seguia em missão, em busca do género de sabedoria que mais lhe aprazia, mas quem eram aquelas homens e mulheres de olhos vagos, senão cadáveres adiados que procriavam, vivendo sem sabor e sem surpresas? Sem saltos na criação?

página 113

Terminei a leitura da obra “A Conspiração dos Antepassados” e agora é fácil perceber por que o tal site se chama “Cadernos de Daath”; e, assim, acabei de ler os romances de David Soares pelo princípio.

Estou aborrecido com David Soares e já tinha dito que me iria vingar após esta última leitura. Assim sendo qual a sua desculpa para o 1º romance ter 363 páginas, o 2º romance 408 páginas e o 3º 341 páginas? Sabendo que em ambos são usados caracteres Minion corpo 12.

[…]

A primeira e a última impressão com que fiquei depois de ler “A Conspiração dos Antepassados” (ou qualquer das outras suas obras) é de ESPANTO. Inicialmente não compreendo por que ele escreve aquele palavra, discorre aquele diálogo/monólogo, narra um evento – aparentemente descontextualizados; com o decorrer da história as peças do puzzle completam um quadro magistralmente pintado.

David Soares com “A Conspiração dos Antepassados” criou uma história sem pontas soltas; as palavras estão delicadamente colocadas no sitio certo, criando com isso uma narrativa articulada, tal como um artesão relojoeiro monta um relógio. “A Conspiração dos Antepassados” não é uma leitura fácil, nenhuma obra que li de David Soares é; com isto é afirmar que seja de difícil compreensão? Não, de forma alguma. Apenas, e é um apenas gigantesco, David Soares com uma narrativa pormenorizada, estudada, fundamentada não poupa nada e ataca sem dó nem piedade os nosso sentidos, as nossas convicções, a nossa moral, a comodidade de uma história de Portugal sombriamente dogmática.

(…) comporta-se como um “moscardo”; espicaça as consciências adormecidas no sono fácil das ideias feitas.

François Châtelet

… e isto não é fácil de aceitar. O caminho, mais fácil é olhar a obra de soslaio (não a ler) e tecer críticas por que sim; o vulgo onanismo literário.

O que adoro na escrita de David Soares além de uma fantástica imaginação (poderia elogiar a suas representações fantásticas e adjectivar com um, ainda, “doentia”) é a sua capacidade de não nos deixar indiferentes: ou se odeia ou se ama o livro. David Soares não é um Marcel Proust, nem poderia sê-lo, como Marcel Proust nunca poderia ser, e não é por estar morto, um David Soares. Ambos são ímpares nos universos que constroem e nessa genialidade está a única semelhança.

David Soares continua, para mim, a ser A referência do fantástico em Portugal, mas para isso tive de o ler; e isso custa… pois.

green relax

03 Jun
03.06.2010

Relax em verde.

alarme carla

19 Abr
19.04.2010

A minha mulher tem um relógio tão biologicamente apurado que quando é preciso acordar às 08h00 ela acorda às 07h59 a tempo de parar o despertador. Se é necessário acordar às 09h15 ela acorda às… 09h14. É um espanto só compreensível pela sua perfeita união com o cosmos. Admiro-a, venero-a, pela sua capacidade de derrotar semanalmente o despertador.

Eu não tenho esta capacidade de super-herói. Comigo o despertador vence sempre – nunca o ouço. Já tentei com dois despertadores preparados a disparar o alarme com um intervalo de 5 minutos; saio sempre derrotado. Ainda tentei com três despertadores – desiludido fiquei eu outra vez (the Yoda way). Não tenho relógio biológico ou este está sem pilhas. Ou estou de tal forma habituado ao alarme Carla que o meu relógio biológico entrou em remissão.

Na noite de sexta-feira para Sábado dormi sobressaltado. A minha mulher estava ligeiramente adoentada e não podia contar com ela para me acordar.
Disse-lhe corajosamente: “relaxa que eu acordo. no problem. é sábado. além do mais fui eu que marquei o encontro.”

Adormeci com tamanho pavor de me perder no sono que não dormi nada: acordei às 04h15, às 05h45, às 06h36, às 07h24, às 08h50, às 09h10 e nessa altura levantei-me a guindaste e preparei-me para a reunião das 10h00. Sempre que não posso contar com a máquina Carla o meu sono é sempre sobressaltado.
Se me deitar relaxado, sem a preocupação de me levantar, escapo a qualquer despertador; é como se a fase 3 do meu NREM estivesse em constante replay?

Sou um sério caso de estudo!

as minhas roupas

10 Mar
10.03.2010

Se há coisa que odeie é levantar-me da cama. Não se pense que adoro a cama acima de tudo; não, nada disso ou, então, que deteste diligenciar uma parte da minha actividade para questões económicas – apenas gostava todos os dias de me erguer da cama indolentemente, desentesado das pressões diárias que se iniciam logo que afasto os lençóis, enfim sem horários; e já agora porque não sair do sono, acima de tudo, sem as cotoveladas lancinantes da mulher e dos seus sussurros cavernosos juntos ao meu sensual lóbulo:

acorda… olha as horas… LEVANTA-TE… lê menos e deita-te mais cedo… olha as horas… sempre o mesmo… raios te partam! tu, os livros e o computador!

Mas mesmo que me levantasse da cama à mandrião seria ofuscado por outro ódio; porque se há coisa que odeie para além de sair da cama em alerta laranja é trajar-me e não porque seja um praticante do nudismo ou um mero paladino de uma doutrina higiénica que postula a nudez total – essas coisas são-me totalmente indiferentes, apesar de ter consciência que O meu corpo de quase perfeito zagal, excelente altura para usar este vocábulo, num campo de nudismo seria um monumento de incontestável e total veneração para qualquer basbaque -, mas porque todos os dias antes de vestir-me tenho de separar as peças de roupa que irão adornar o meu corpo e é esta escolha diária que me mortifica: nunca consigo atingir com o meu vestuário um estado de lucidez cromática primorosa e como tal evitar as críticas viperinas da minha mulher.


rompi as nuvens das escolhas com esta solução

camisas, camisolas, calças, sapatilhas tudo igual e de preferência tudo preto… mas é a minha mais-que-tudo que compra a indumentária, porque me recuso veemente descolar-me para essas “compras”, e quase acredito que para ulterior crítica ela decide-se conscientemente sempre, e sempre por peças diferentes – tenho de lhe louvar a ousadia e a coragem… acho eu!

mas, eu fiz uma pergunta?

25 Fev
25.02.2010

Hoje pela manhã, e como habitualmente sem esperar uma resposta porque não foi feita uma pergunta, cumprimentei as pessoas que se iam cruzando comigo ou com a frase quebra-gelo “Então, tudo em cima!” ou com uma frase feita de cariz meteorológico “Está outra vez a chover!” ou até com uma expressão da mais refinada verbosidade “Ah! O Morfeu foi carinhoso esta noite.” e tento continuar, sempre, sem abrandar a indolência do meu caminhar, porque prezo a ausência de stress e de emoções sudoríferas logo no princípio do dia, o meu percurso.

Por vezes algumas pessoas obtusas tentam responder a uma afirmação ou a uma exclamação com uma resposta e quebram-me o ritmo matinal. Mas se isto é grave, pior é quando a reboque de uma dessas frases começam a narram a noite anterior com – “uma unha partiu-se a lavar os dentes”, “a luz foi abaixo e atrasou o ciclo de lavagem da máquina de lavar roupa e atrasou-me a ida para a cama”, “a torneira do chuveiro da casa de banho pingou a noite toda e torturou-me o sono”, “os peditum do vizinho de cima eram pouco melodiosos e não me permitiram abraçar relaxadamente o sono”, et caetera.

Quando recebo neste contexto matinal e sem aviso prévio uma resposta a uma não pergunta fico temporariamente atónico porque é uma jogada social imprevisível que ainda não aprendi convenientemente a ripostar. Não é, contudo, uma falha da minha parte; mas tentarei de futuro, pelo menos uma vez por semana, seguir o programa “As Tardes da Júlia” ou outro semelhante.

Espero é que minha box não queime se arriscar gravar apenas, digamos, 30 minutos. Hummm! acho que primeiro vou ligar ao suporte a clientes para ter a certeza da margem de segurança.

vírus?

22 Jan
22.01.2010

Ao passar junto a um monitor reparei no fundo do ambiente de trabalho – a face de um recém-nascido todo sorridente. E não pude deixar de comentar à D., responsável por aquela decoração?, que ela tinha um enorme vírus no pc. É o meu neto! – exclamou orgulhosa. Mas não será um vírus?

Concluo, com a costumeira clareza com que concluo as minhas conclusões, que os recém-nascidos são mesmo um vírus que se alimenta da energia vital dos progenitores – sugadores de tempo, de harmonia, de noites bem dormidas; criadores de roupa suja em perfeita função exponencial; autênticos mestres perfumistas.

Quando reparo em alguém com olheiras e de olhar perdido no “infinito e mais além” sei que estou perante um ser humano vítima desse vírus recém-nascido [RN]. Não se iludam, papás e mamãs, não há treino militar capaz de simular o cenário de guerra de uma habitação habitada por um recém-nascido. Não existe qualquer tropa de elite, STF, SASR, GSG9, KSK, BOPE, CFN, COE possuidora de treino psicológico eficaz para combater o RN que domina com facilidade e desenvoltura qualquer forma de combate – exímio até no ataque terrorista.

Aliens, anacondas, aranhas gigantes, ogres, dragões, salamandras, abelhas assassinas, Kings Kongs, T-Rexs são uma patética anedota de susto porque se existe algo verdadeiramente assustador é o ataque terrorista de um RN. Com uma preparação inata são capazes quando menos se espera de surpreender qualquer progenitor em qualquer altura, em qualquer lugar: seja com um ataque sonoro poderoso e persistente capaz de inibir a capacidade de relaxamento e nunca nenhum progenitor foi capaz de ganhar um combate orientado para limitar o impulso de começar-se a adormecer designado para fácil memorização por C.O.L.I.C.A.; seja com um ataque S.E.A.L. [1] (Secreção Explosiva de Alta Liquidez) – que é o mais cutilante -, tecnicamente rebaptizado de vómito ou carinhosamente apelidado de bolsar, na melhor peça de roupa, que se vestiu para aquela tentativa ilusória de passeio dominical junto à praia; seja com um ataque químico amarelo-esverdeado (ou C.O.C.O [Concentração Optimizada de Componentes Olfactivos]), militarmente identificado como altamente odorífero capaz de penetrar à velocidade da luz nas narinas em efeito murro no plexo solar levando normalmente a vitima a um regurgito estomacal, à perda de lucidez, à produção de suores, tudo embrulhado numa tez cadavérica.

Alguns progenitores, talvez, dignos praticantes de alguma filosofia masoquista – ou quiçá até de forma inocente, não serão necessariamente obtusos, nem merecem ser ostracizados na sua procura de um bem melhor, ou apenas pensaram ter criado anticorpos -, decidem tentar novas técnicas de combate ou aperfeiçoar as anteriormente usadas com vista a derrotar pelo menos uma vez o RN; mas o novo RN é sempre, mas mesmo sempre, uma experiência única, ímpar em nada semelhante ao(s) anterior(es).
Não me pretendo alongar nos porquês de ainda haver desejos por um segundo RN – teria muito que escrever. Apenas reafirmo a minha natural preocupação pela sanidade mental dos progenitores e sou sempre, nestes casos, praticante de uma solidariedade remota.

Termino dizendo que sou contra o facto de alguns gabinetes de análise de risco família-militar [o casal] colarem ao RN um nome que entendem caracterizar e/ou amenizar? a sua sublimação táctica – T.I.G.R.E. [2] (Terrorista Inato Gerador de Repulsa Extrema). Não pretendo ser tão suave. Se fosse rotular o RN com uma palavra que significasse toda a sua capacidade bélica seria simplesmente e assustadoramente de bebé.


[1] Não confundir com os SEALs (Sea, Air, and Land Forces)
[2] Não confundir com os TIGRE (Tático Integrado de Repressão Especial)

este homem é perigoso

08 Nov
08.11.2009

Quando eu era miúdo ouvi um tipo qualquer dizer um provérbio que ainda hoje tenho presente: «Quando estiveres em dúvida, deixa-te ficar quieto». Tenho verificado que este provérbio é muito bom e, quando estou em dúvida a respeito de qualquer situação, deixo-me ficar muito sossegado. Acredito que as coisas acabarão sempre por se esclarecer por si próprias.

página 75

Gostei particularmente da forma como a história é contada apesar de serem quase sempre muito previsíveis as narrações na primeira pessoa. Este livro não foi excepção.
Leitura fácil e sem complicações. As suas 206 páginas foram papadas em 2 noites de pouco sono.

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