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pois sim!

Ela entra no quarto e vê-me deitado na cama, embrulhado em duas mantas, a olhar impávido, concentrado ao máximo, para o ecrã preto da televisão, de cenho franzido.

“O que estás a fazer aí pasmado a olhar para a televisão?”

“A ligar a televisão com o poder da mente.”

“Não estás com muita força mental! Ah! Ah! Ah!”

“Muitas interferências. Muito wi-fi a atravessar-me o corpo”, e nessa altura estico o meu braço direito e arrojo um rrrrrrrrrrrrrrrhhhh. Ela virou-me as costas e saiu do quarto suspirando um longo “ó nossa senhoraaaa.” Ela quando suspira consegue ainda ser mais sensual. Um dos meus objetivos diários é conseguir da minha amada o maior número de lamentos doces e melodiosos. E a televisão continua em preto.

Recupero o livro, Quando o Cuco Chama, escondido pelas mantas, e recomeço a leitura.

Algum tempo depois ouço passos. É ela a aproximar-se do quarto. E o que vê quando entra? Uma pessoa deitada na cama, embrulhada em duas mantas, a olhar impávida, concentrada ao máximo, para o ecrã preto da televisão, de cenho franzido. “A sério! Vais continuar com essa parvoíce?”

“Sei que vou conseguir em breve. Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrh. Já eliminei alguns dos ruídos de fundo. Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrh.” E não é que a televisão acordou e exibiu orgulhosamente o seu logotipo antes de colorir o quarto com cores 4k.

“Satisfeito?”, disse ela ao atirar o comando da televisão para cima da cama enquanto abandonava ondulantemente o quarto.

Afinal tenho muita força mental, pois sim.

fragmento.000459

(…) — E a segunda?
— Ócio.
— Oh, mas já temos imenso tempo livre!
— Tempo livre, sim. Mas tempo para pensar? Se não estamos a conduzir a mais de cem à hora, sem espaço na cabeça para outra coisa que não seja o perigo da situação, estamos em casa a jogar um jogo qualquer ou sentados numa salinha rodeados de ecrãs de televisão. Porquê? Porque a televisão é “real”. É imediata, tem dimensão. Diz-nos o que pensar e di-lo aos gritos. Aquilo só pode ser certo para nós, parece tão certo. Leva-nos tão depressa na enxurrada até às suas conclusões que a nossa mente não tem nem tempo para protestar e pensar no absurdo de tudo aquilo.
(…)
— A minha mulher diz que os livros não são reais.
— Graças a Deus por isso! Podemos fechá-los e dizer: “Espera lá…” Podemos ser Deus com eles. Mas quem já conseguiu desprender-se das garras que nos envolvem numa sala de ecrãs? Estes fazem de nós o que querem! São um ambiente tão real como o mundo lá fora. Tornam-se e são a verdade.
Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (página 116)

zapping

Chegas a casa depois de um esgotante dia de trabalho. Trocas de roupa e vestes algo mais confortável. Cortas um pedaço de queijo emmental e abres uma garrafa de chardonnay. Instalas-te no sofá da sala e ligas a televisão. Acompanhado pelo emmental e por um copo de chardonnay viajas por diversos canais. Petiscando dessas duas iguarias vês segundos e segundos de imagens sem te fixares em nada. Sentes crescer um torpor. É aquela sonolência reconfortante, sem hora marcada. Colocas a televisão em mute no Nautical Channel. Deitado e aconchegado até ao pescoço por um cobertor de papa deixas-te finalmente conquistar pela modorra e adormeces.

05. referências culturais em sr. mercedes

Continuam os meus registos em tom obsessivo das referências descobertas por mim no livro Sr. Mercedes de Stephen King. Deixei passar outras porque não tinha o telemóvel à mão para tirar foto da página.

Está numa cadeira de rodas, inclinada numa postura que lembra a Hodges O Pensador de Rodin

página 183

o pensador

O Pensador (Le Penseur) é uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin.

— Como o Dexter Morgan naquela série de televisão.
Hodges sabe de que série ela está a falar e abana enfaticamente a cabeça. Mas não só porque a série é pura fantasia.

página 200

Dexter Morgan é o anti-herói da série de livros de Jeff Lindsay. Em 2006, o primeiro livro foi adaptado na série televisiva “Dexter”.

(…) aos olhos de Brady, aquilo faz lembrar o gigantesco óvni no final de Encontros Imediatos do Terceiro Grau.

página 281

Close Encounters of the Third Kind (Encontros Imediatos de Terceiro Grau) é um filme americano de 1977 escrito e dirigido por Steven Spielberg, 

Não sabe ao certo quem foi Manet (…), mas os quadros dele são fantásticos. (…) Uma delas mostra um toureiro morto. (…) O toureiro não está ferido nem nada desse género, mas o rasto de sangue oriundo do ombro esquerdo parece mais real do que o sangue de todos os filmes violentos que Brady já assistiu, e ele já viu a sua dose.

página 284

Édouard Manet (1832 — 1883) foi um pintor francês e uma das figuras mais importantes da arte do século XIX, considerado como um dos mais importantes representantes do impressionismo francês, embora muitas de suas obras possuam fortes características do realismo.

O Homem Morto (L’Homme mort; originalmente intitulada O Toreador Morto ou Le Torero mort) é uma pintura a óleo sobre tela da década de 1860 realizada por Édouard Manet, produzida durante o período em que Manet estava fortemente influenciado por temas hispânicos.

o homem morto

Pois sim, pensa Hodges. Pois sim. Fecha os olhos e tomba no chão, fazendo lembrar Humpty Dumpty a cair de cima do muro.

página 449

Humpty Dumpty é uma personagem de uma rima enigmática infantil, melhor conhecida pela versão de Mamãe Gansa na Inglaterra. Ela é retratado como um ovo antropomórfico, com rosto, braços e pernas. Esta personagem aparece em muitas obras literárias, como Alice Através do Espelho de Lewis Carroll.

Humpty Dumpty sat on a wall,
Humpty Dumpty had a great fall.
All the king’s horses and all the king’s men
Couldn’t put Humpty together again

you

A série de televisão You, baseada no livro de Caroline Kepnes, segue a obsessão de Joe Goldberg (Penn Badgley), gerente de uma livraria de Nova York, pela cliente Guinevere Beck (Elizabeth Lail).

Fui ver esta série motivado por um comentário positivo de S.

A série não é perturbadora, mas cómica. Vejamos:

  • temos duas personagens ocas e monótonas:
    • a personagem feminina, Guinevere Beck, é escritora, mas não escreve nada… ah exceptuando que publica toda a sua vida privada nas redes sociais
    • a personagem masculina, Joe Goldberg, não tem qualquer carisma e tira conclusões tão óbvias como se fosse um triste pastiche de Sherlock Holmes
  • a janela do apartamento de Guinevere Beck é por si só uma personagem e tanto
  • Joe Goldberg é um perseguidor de uma rapariga que vive num rés-do-chão com uma gigantesca janela sem cortinas e à frente da qual ela faz tudo – não é exibicionismo é estupidez
  • Joe Goldberg é um perseguidor que com apenas um boné consegue camuflar-se em qualquer ambiente; melhor do que um camaleão – Guinevere Beck e as amigas além de fúteis são cegas como morcegos

Tudo o que posso concluir é que única coisa positiva a retirar da série é apenas o comentário positivo de S.

de lado – 0067

a aturar o canal panda. a filha faz desenhos. vê televisão. sempre foi um sistema operativo multi-tarefa.

trocas!

y. as queixas; a pergunta; a solução?
– Só trabalho e mais trabalho. São os filhos, a casa, a cozinha, o cozinhar, dar os remédios. Ao menos os homens chegam a casa e só vêm o sofá, a televisão. Só lhes falta um qualquer bobi levar-lhes as pantufas, o jornal e a cerveja. Que ódio. Quem me dera às vezes ser homem. Do que é que eles se podem queixar?

x. a queixa; que simplicidade!
– Apenas nos queixamos por as mulheres desejarem ser homens.

lapdance 1.00

LapDance encontrava-se sentado no seu reluzente sofá de couro, nádegas nuas placidamente pousadas numa toalha do Neco – detestava ter as nádegas coladas ao couro. Para bem da verdade LapDance estava praticamente nu, exceptuando ainda ter colado ao corpo um farrapo, que com esforço alguém poderia dizer ser uma velha camisola do clã benfiquista e que era uma segunda pele, a desbotada estampagem tornava os olhos da águia horrivelmente tristes; meias rotas nos hálux por unhas grossas, afinadas que teimavam em rasgar a malha, completavam a parca indumentária.

De perna direita ligeiramente esticada sobre o sofá, a outra pousava na alcatifa pintada por imensos invólucros vazios de Mon Chéri, brincava com uma espinha que no testículo esquerdo teimava em florescer sazonalmente, sempre no mesmo local. Dizia vaidoso a si próprio que tinha, devido a esta idiossincrasia genital, um testículo dominante.

Olhos sorumbáticos pasmavam-se com as imagens do sétimo segmento do Fantasia 2000. Ao som da marcha número três de Edward Elgar iniciou com pompa e circunstância uma massagem de descompressão a custo zero. Raramente precisava de realizar esse trabalho manual, contudo quando o fazia era sempre à velocidade vertiginosa e inconstante de um caracol. De muitas decisões que tomou a de ter um orgasmo diário não era esquecida. E como os engates de hoje não se tinham transformado em amantes (a feromona do desespero afastava compulsivamente o sexo feminino); e como o reduzido encaixe de capital mensal não lhe permitiam pensar em recorrer a uma profissional (já sabia por experiência que não saindo de casa não colhia dinheiro) aí se encontrava com o modo autodidacta de satisfação ON.

Este mês sentiu-se simultaneamente optimista e preguiçoso. Perante a indecisão da escolha, optimista ou preguiçoso, o ócio de ermitão tomava sempre as rédeas. Quando a confiança venceu a disputa o último dia do mês estava ali ao virar da esquina.

O telefone tocou, desviando a sua atenção de um pénis ainda indolente que lhe recordou uma alheira mal confeccionada. Atendeu a chamada em alta voz, mas não disse nada. Limitou-se a esperar.
‘Lap estás aí?’
‘Diz coisas!’
Quando ouviu, ‘Preciso de um favor teu!’, já estava de pé junto ao móvel da televisão a beber um gole de vinho do Porto de lavrador on the rocks. Não respondeu. Olhou para um pacote ainda com um triste Mon Chéri. Decidiu, desta vez, não misturar os sabores.
‘Lap estás aí?’
‘Estou e não sei se te posso ajudar. É que estou com uma tarefa em mãos.’ Animada pela conversa ou pelo ardor frio do álcool a alheira começou a enrijar-se.
‘Ainda não disse nada e já te estás a por de fora? Foda-se!’ Qualquer obscenidade dita pela boca da Nectarina, nome com que baptizou Catarina, gerente da casa de multi-serviços Bolo-Rei, soava-lhe tão sensual.
‘Tens razão, Atira.’ LapDance sabia que não podia recusar o pedido qualquer que ele fosse. Devia-lhe muitos favores, mas gostava de mostrar que estava no controlo da situação – até quando ficava por baixo. Admirava o facto de ela nunca lhe ter exigido a cobrança dos serviços prestados, apesar de não precisar de o fazer; LapDance era um bobi que não ferrava uma mão que lhe dava muito de comer.
‘Preciso que fiques à porta do clube. O Big enviou-me um sms a dizer que tinha de resolver umas questões e hoje tenho a sensação que posso ter chatices. Conto contigo?’ Estranhou o Big ter questões. O Big não tinha problemas a resolver, gerava problemas aos outros nos quais a solução de 1+1 nunca era igual a dois – Big igual mestre do caos. Se fosse professor só utilizaria a cor vermelha.
‘Estou de saída, mas desta vez pagas em géneros.’ Já estava no quarto a terminar de vestir o seu fato Alpinestars preto e ainda ouvia a cadeia balanceada de palavrões a sair em resposta do alta voz. Terminou de calçar as botas, pegou nas luvas e enfiou o seu capacete Nexx XR1R. Ali estava LapDance frente ao espelho do roupeiro: uma estrela em brilhante negro.

Foi com as palavras posso ter chatices a ruminar que arrancou ansioso na sua Honda CBR 600 F equipada com uma câmara GoPro HD Hero2. Se o top speed real da mota era de 260 km/h o mostrador queimava sem soluços os 280 km/h.

[em continuação…]

os escolhidos: maio, 2011

  1. Passado que é mais um ano cá me encontro a percorrer o mesmo caminho; a arrotar bom dia, boa tarde, boa noite. Estou a ficar farto
  2. há mulheres mesmo muito boas… mas que são de plástico.
  3. está a ficar calor. e ela está começar a morder as unhas das mãos.
  4. foi-me dito que “hoje em dia tudo tem um preço; até as putas!”
  5. e lá estava ela (sim ela) hipnotizada a olhar para a estrelas do monitor enquanto coça a barbicha disfarçada por uma mal depilação.
  6. continua a chover; e eu que estive a pensar em vestir o meu lindo kilt.
  7. alguém é suficientemente suicida para dizer à mulher/amante que está com um ligeiro (pequeno, minúsculo) excesso de peso?
  8. vou escrever uma coisa muito, mas muito intima, mesmo, mesmo ora leiam: hoje sinto-me adocicado
  9. acordei mesmo agora. bastou colocar os óculos.
  10. e o dedo furava-lhe o queixo com aquela unha suja que usava para tirar cera das orelhas
  11. era chamado de urso sempre que ela se abafava naquele corpo felpudo. uma catarse de pêlo
  12. que inveja tenho daquelas mulheres que milagrosamente perdem peso passados que são 9 meses; eu continuo constantemente grávido!
  13. o lápis ameaçava uma imaculada folha branca com um risco. é um lápis anarquista. se ao menos fosse para escrever um poema.
  14. se os economistas se dedicassem a fazer desenhos o mundo seria um melhor lugar para viver
  15. fui acusado de não ter papas na língua! eu por acaso tenho culpa de ter sido treinado pela minha mãe a papar tudo e a não deixar nada?
  16. a aturar o canal panda. a filha faz desenhos. vê televisão. já é um sistema operativo multi-tarefa
  17. dizem-me que sou complicado; uma decisão rápida: entre o vodka martini e o dry martini vou por este último. sou de escolhas fáceis
  18. chegaram à conclusão que não sou maluquinho; sou mesmo doido.
  19. um bêbedo é como um pombo-correio sabe sempre o caminho para o pombal.
  20. chovia… um vizinho perguntou se não era melhor atravessar a rua a correr para se abrigar. respondi que assim se molhava mais rápido.
  21. Margarida, qual é a pessoa mais doida que conheces?, perguntei. És tu pai. E a seguir a mim?. Só tu pai, só tu é que és doido.
  22. ele não é simplesmente um chato; é um verdadeiro asno. zurra.
  23. existem pessoas que deixam crescer a barba por desleixo; eu não – a minha sobeja por uma questão de estilo. okay! fiquem bem.
  24. há visitas a blogs ao estilo “prostituta” – entram, e saiem satisfatoriamente anónimos.
  25. outras há ao estilo “coito interrompido” – antes de entrar já estavam de saída!
  26. ela puxava o lábio superior até o nariz beber da humidade labial; os dentes revelam-se em toda a sua magia amarela
  27. não me está a acontecer nada de especial. mas achei, apesar de tudo, dar a conhecer esta irrelevância.

from the perverse mind of paulo brito

bolo rei e filmes

Ontem entre roupa velha, grelos, doces de natal e tudo aquilo que faz mal como um raio, houve a oportunidade de ver alguns filmes na minha nova televisão emprestada; melhor do que a minha que avariou.

# o primeiro da ementa foi “O Aprendiz de Feiticeiro” no qual Nicolas Cage nos apresenta Balthazar Blake, um feiticeiro de profissão cheio de estilo, que após séculos de procura encontra em Jay Baruchel (actor ainda sem créditos firmados) o sucessor de Merlin; Jay Baruchel aqui é um Dave (o aprendiz de feiticeiro) apalermado e apaixonado por uma loira insossa Becky Barnes (Teresa Palmer, que entrou no filme “Histórias para Adormecer” em parceria com “Adam Sandler”. E surpresa das surpresas era aí, igualmente, uma loira desenxabida.)

O filme tem uma banda sonora de excelência que encaixa na perfeição nos momentos chaves da história.
Jon Turteltaub realizador do “O Tesouro” e do “O Tesouro: Livro dos Segredos”, ambos com Nicolas Cage, assina com “O Aprendiz de Feiticeiro” um filme de fantasia que me encantou e divertiu o suficiente para o recomendar a quem tenha ainda uma criança dentro de si.

# o segundo da ementa foi “Resident Evil: Afterlife” (“Resident Evil: Ressurreição”) e o primeiro ponto negativo que destaco é não ter tido a oportunidade de o ver em 3D (uma vergonha); a minha sorte é que “Resident Evil: Ressurreição” é apenas o primeiro de uma série de filmes “Resident Evil” a serem lançados em 3D. E até, após o fim de alguns créditos, só possível para os mais calmos, é possível ver uns segundos do que pode ser o início da sequela com a estonteante presença da Jill Valentine que no segundo filme da série “Resident Evil: Apocalypse” fazia parte do grupo de sobreviventes que tentou escapar de Raccoon City – Jill conseguiu.

Gostava de ver a cara da Alice (Milla Jovovich) um pouco suja devido às explosões e ao sangue que brota abundantemente de alguns mortos-vivos, mas não – já tinha apontado isto no filme anterior. Até Wentworth Miller, o nosso amigo de Prison Break, tem direito a umas tantas chamuscadelas na cara.

Independentemente disto adorei o filme, já tinha dito que o vi em 2D, pois, que é em muito superior ao anterior – apesar de enormes buracos na história; é diversão, é diversão, é entretenimento e é isso que interessa. E vi-o em 2D. Vê-lo em 3D com aquela banda sonora de Maynard James Keenan & Billy Howerdel, os mesmos de Constantine e de Underworld seria muito bom. Mas não se pode ter tudo. Pelo menos tinha aletria à descrição.