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de lado – 0119

Storms come and go, the same happens to some beards.

from the perverse mind of paulo brito

em linha directa

Tenho uma colega sentada à minha frente. Linha directa quatro metros. Tapada por um monitor de 19”. Sentada não a vejo (é pequena). Mas ouço-a – irritantemente. O som que emite é um grasnar e um zurrar demoniacamente combinados. Se isso já não pernicioso per si ainda se dedica a trautear as músicas que passam na rádio. Uma vaca a caminho do matadouro consegue ser menos dramática. Hoje, não sei como, está a ser mais colérica. Não sei quanto tempo mais aguento. Atirei-lhe um agrafo que ficou abafado na enorme peruca a que chama cabelo. Arremessei uma régua de dez centímetros que colidiu contra o monitor. Nem se mexeu. Nada de grave. Peguei no meu teclado QWERT e sem qualquer sobressalto enfiei-o à velocidade da escuridão no lado esquerdo da sua cara. Ela começou a sangrar da boca. Gemeu uns gemidos nauseabundos. Pumba e carreguei-lhe novamente com o teclado. Calou-se. E desfalecida encontrou o chão. Do teclado saltou apenas a tecla F1 que ficou languidamente pousada ao lado da sua cara. Sentei-me na cadeira vazia. E de olhos fechados esperei. Sosseguei. Esperei.

inócuo

Inócuo é a palavra do dia nas suas metamorfose masculina e feminina. (Palavra masculina é feminina, mas relativa a homem – masculino; adjectivos inócuos.)

Inócuas são as palavras. Inócuas são as mortes e os nascimentos, os movimentos e os pensamentos. A guerra e paz são inócuas. Pessoas inócuas, mortais, venais. Religiões inócuas. Acres massacres inócuos. Sexo inócuo. Orgasmos inócuos. Inócuos agentes activos, reactivos, passivos. Ordem e desordem inócuas. Sentimentos, ilusões, confusões, multidões, mutilações inócuas. Alimentos inócuos.

O tempo não é inócuo. Assistir à passagem do tempo é inócuo. O tempo é.

— O que faz aqui? — pergunta Juvêncio
— Morro.
— Como?!
— Morro, senhor polícia. Vim para morrer. É um serviço que me leva o tempo todo.
Os Vivos e Outros de José Eduardo Agualusa (páginas 216/217)
— A resposta é o tempo — afirmou o senhor Ricker no primeiro dia de aulas do décimo ano de Pete. Andava de um lado para o outro na sala, com as antiquadas calças à boca de sino a balançar, sacudindo os braços ocasionalmente. — Sim! O tempo separa impiedosamente o que é estúpido do que não é estúpido. É um processo natural, darwinista. É por isso que os livros de Graham Greene estão disponíveis em qualquer boa livraria, e os livros de Somerset Maugham não.
Perdidos e Achados de Stephen king (pág. 95)

Ainda há pouco tempo falei disto.

clássico eis a questão

Um clássico é um livro atemporal, que consegue sobreviver para além da época em que foi escrito. Não implica ser, necessariamente, um livro antigo, apesar de isto estar, quase, implícito, porque actualmente os livros falham em qualidade do texto. Claro que a determinação do que é belo é um juízo subjectivo do leitor, com os seus gostos e valores próprios. Mas é fácil concluir que nunca são livros vulgares, são sim livros complexos, inusitados; não que sejam difíceis de ler.

Um clássico teve e continua a ter, sempre que é lido ou relido, uma repercussão na história literária e, porque não, na cultura popular – fica gravado de uma maneira ou outra na memória colectiva pelos temas universais que geralmente abordam.

Um livro editado hoje não pode ser considerado um clássico, porque ainda não resistiu ao teste do tempo.

Numa lista simples posso colocar:

  • O Romance do Genji (1005-1014) de Murasaki Shikibu
  • Dom Quixote de la Mancha (1605-1615) de Miguel de Cervantes
  • Moby Dick (1851) de Herman Melville
  • Os Maias (1888) de Eça de Queirós
  • O Retrato de Dorian Gray (1891) de Oscar Wilde
  • Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) de Marcel Proust
  • O Processo (1925) de Franz Kafka
  • Admirável Mundo Novo (1932) de Aldous Huxley
  • 1984 (1949) de George Orwell
  • As Cidades Invisíveis (1972) de Italo Calvino
  • O Nome da Rosa (1980) de Umberto Eco
  • Memorial do Convento (1982) de José Saramago
(…) Também eu, devo dizê-lo, estou convencido de que o espírito do humanismo acabará por triunfar, mas receio bem que ao mesmo tempo o mundo seja um grande hospital e cada um dos homens o enfermeiro do outro.
Viagem a Itália de Johann Wolfgang von Goethe (pág. 414)

ivory cloud serpent

Depois de 6 horas de espera cá a tenho.

Passei o tempo a ler e depois a ver um filme.

a começar

Quando apanho boleia para o meu local de trabalho gosto de esperar durante, cerca de, quinze minutos e aproveitar o tempo para ler. Assim estou preparado para o dia que se inicia. Se for a pé a deslocação é feita ao som da música. Momento para o pensamento divagar alegremente.

Se esta rotina se quebra será um dia maldito.

welwitschia

@ muriel gottrop (wikipédia)

Apesar do clima em que vive, a Welwitschia consegue absorver a água do orvalho através das folhas. Esta espécie tem ainda uma característica fisiológica em comum com as crassuláceas (as plantas com folhas carnudas ou suculentas, como os cactos): o metabolismo ácido – durante o dia, as folhas mantêm os estomas fechados, para impedir a transpiração, mas à noite eles abrem-se, deixam entrar o dióxido de carbono necessário à fotossíntese e armazenam-no, na forma dos ácidos málico e isocítrico nos vacúolos das suas células; durante o dia, estes ácidos libertam o CO2 e convertem-no em glicose através das reações conhecidas como ciclo de Calvin.
Devido às suas características únicas, incluindo o seu lento crescimento, a Welwitschia é considerada uma espécie ameaçada, pois já existe desde o tempo dos dinossauros. 

Certas sementes do deserto permanecem em repouso durante décadas. Alguns roedores do deserto só saem dos refúgios à noite. A welwitschia, planta espetacular do deserto da Namíbia, de folhas em forma de correias, vive milhares de anos alimentando-se exclusivamente de orvalho matinal.

Canto Nómada de Bruce Chatwin, pág. 295