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(…) O futuro não era o dia seguinte, nem a semana seguinte, nem mesmo o ano seguinte, porque períodos tão breves como esses, que o seu espírito conseguia abarcar, não lhe causavam qualquer receio. O futuro que temia não podia ser definido em termos de tempo. Era um espaço em branco, indefinível, como o vazio que só é possível nos sonhos, um vazio em que, depois do dia, da semana, do ano seguintes, iria cair, e estava já caindo.
Uma Casa Para Mr. Biswas de V. S. Naipaul (página 245)

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O quarto no longo corredor vazio. A poltrona, a cama, as paredes nuas, o teto baixo. Sentado no quarto e depois a vaguear pelos corredores, sentia-me reduzido ao meu eu mais diminuto, todas as fantasias presunçosas em torno de mim mirradas até não passarem de devaneios íntimos, porque o que sou eu neste lugar senão alguém a precisar de se defender.
Zero K de Don DeLillo (página 61)
(…) Por fim, consigo dormitar. Desta feita sem imagens sonhadas. Tão-só o vazio.
O Fim da Solidão de Benedict Wells (pág. 129)

Agora só consigo dormir sossegado desta forma.

Quando digo que amo o deserto, estou a dizer que amo o quê? A areia ardente de dia e gelada de noite? As muitas e variadas formas das dunas? O céu estrelado e a Lua enorme, como um astro vivo e erróneo? A solidão? O vazio? Talvez só ame o conceito de deserto, e talvez o ame porque quero ser como ele. Amo o deserto porque é o lugar da possibilidade absoluta: o lugar em que o horizonte tem a amplitude que o homem merece e de que necessita. O deserto: essa metáfora do infinito.
O Amigo do Deserto de Pablo d’Ors (pág. 84)

A componente mais importante da minha satisfação era um prazer animal: o caráter longínquo do local, a grandiosidade das montanhas de cumes planos e dos penhascos rochosos, a luz do Sol e a vegetação rasteira, os camelos que mal se viam ao longe, o enorme céu, o vazio e o silêncio totais, pois as areias planas e solitárias estendiam-se a grandes distâncias em redor destas ruínas decadentes.
Viagem Por África de Paul Theroux (pág. 108)

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Na presença de uma recordação estropiada, o melhor era não nos lembrarmos de nada. Por isso, ficavam em silêncio, ele a olhar para o vazio, os dois sem um antes e seguramente nenhum depois, numa harmonia perfeita de inexistência.
Shylock É o Meu Nome de Howard Jacobson (página 48)

adormecer ao estilo piloto de testes

Hoje utilizei todas as técnicas conhecidas pela humanidade para adormecer e dormir e outras tantas mais desenvolvidas por mim.

Engoli um comprimido. Apaguei a luz e afaguei a cabeça na almofada de padrão florido – ainda primavera. Fechei os olhos. Iniciei a preparação para o relaxamento. Pensei… pensei que estava debaixo de uma palmeira embutida na areia que traçava uma elegante sombra sobre uma cadeira de praia na qual moi estava refastelado a ler um livro enquanto era embalado pelo som e cheiro da brisa marinha. Já sentia o cérebro a abrir as portas para Morfeu. Ah! a doce sensação de desprendimento invadia o quarto… bem-vinda!

Tudo corria bem. O vento desfraldava as velas com constância. A viagem antevia-se prometedora até pensar o quanto seria divertido se de repente a água do mar congelasse (não impliquem com a impossibilidade científica; estava a preparar um sonho, ou, melhor dizendo, o preâmbulo de um sonho) e todas as pessoas seriam fatiadas pelo gelo: as que estavam a banho, a surfar, a arrancar mexilhões; enfim todas as pessoas envolvidas com o mar de qualquer forma. Sangue, entranhas por todo e qualquer lado, crianças a chorar – desespero total. Resultado, acordei sem estar a dormir. O que se passou com o comprimido para não actuar dentro do tempo regulamentar: dez segundos, o limite para castrar pensamentos parasitas.

Acendi a luz e olhei para dentro do copo para confirmar se continha água. Estava vazio. Confirmei que tinha bebido a água, mas fiquei na dúvida se a acompanhei com o comprimido. Deveria arriscar tomar outro? Assumindo que o meu organismo já tinha absorvido um. Decidi-me pelo não. Não porque tinha receio do que me poderia acontecer com a toma de dois comprimidos, mas sim porque não me apetecia ir à cozinha encher o copo com água. E se afinal o problema não estava na medicação, mas na minha cabeça. O que se passa comigo? foi a segunda questão que coloquei. Sou realmente um máximo a colocar questões.

Duas questões. Zero respostas. Ganhou o inquisidor. Insónia foi a ordem do dia. Encerrada a sessão.

mais um daqueles…

Mais um daqueles pensamentos/questões do dia, apesar de este me ter ocorrido à noite a olhar para um copo.

O que custa mais ver:

  • um copo meio cheio?
  • um copo meio vazio?
  • um copo vazio com tristes e ainda por derreter três pedrinhas de gelo?

os bonecos da margarida

Mais uma vez a Margarida realizou obras primas segundo os seus próprios critérios exigentes.

Não há folha que escape a uma caneta, lápis, lapiseira, marcador… é um risco ali, um desenho acolá; é uma artista terrorista que reduz as minhas folhas A4, os meus blocos de apontamentos a um singelo vazio.

E, ainda por cima, tem de mostrar a toda a família os desenhos na “net” enquanto vê um qualquer vídeo do Ruca, da Turma da Mônica no youtube. E antes que se lembre desses desenhos tratei, devidamente, de os digitalizar

Pasmem-se pelo surrealismo das obras apresentadas.

mais um

amizades

Às 08.00 de hoje o meu pai sofreu uma intervenção cirúrgica para extracção de um rim. Mas só mais logo, são agora 10.48, saberei o resultado da operação.
E, por causa disso, coloquei-me a pensar em amizades. Sem grande esforço sei que tenho um grande e único amigo: o meu pai. Apesar de tudo posso sempre contar com ele. Naquelas alturas que marcam a diferença ele estava sempre lá, presente, constante.

Podem, alguns estar a pensar que o meu filho é também um grande amigo. Nisso sou mais cuidadoso. Ele tem 11 anos. Por isso esperarei que ele chegue aos 25 anos e nessa altura direi se tenho no meu filho um grande amigo. Para isso espero que, até lá, ele não se esqueça que tem, suponho eu, um “grande” pai.

E do lado da camaradagem, daquela suave amizade?
Desse lado devo dizer que tenho bons colegas. Uns partilham comigo vivências e convivências à mais de 17 anos; outros são mais recentes. Chegado aqui tenho de destacar o Hugo. O ano passado fiz uns lindos 40 anos e enquanto esperava ansioso a chamada de um colega, que nunca recebi, tenho o Hugo a desejar-me os parabéns. Foi um momento verdadeiramente importante, numa altura em que pensava bastante nas minhas relações humanas, no meu empenhamento na amizade, na camaradagem.

Todos nós, incluindo eu, temos de concluir que muitas vezes depois de espremida, compactada uma “amizade” o resultado é nada. Surge perante nós um vazio pueril. E não irei mais, lamentavelmente o digo, alimentar “fogueiras” secas em tentativas que se revelam sempre vás. À que assumir que em certas situações são os outros que têm de trazer a lenha. À que assumir que certas relações acabam, incompreensivelmente, como “tears in the rain”.

Estes últimos dias têm sido, devido a imensas decisões, “stressantes”, mas esclarecedores.